Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

10 de out. de 2006

Barcos


Hoje deu-me para pôr aqui uns barquitos, só para descontraír, porque preciso e me apetece.
Sempre me parece melhor do que escrever "Intervalo" e folgar uns dias.

4 de out. de 2006

A opção vegetariana (receita da Vanda)


Sopa de Agrião para a Teresa :))

(e mais quem queira, acrescento eu :)

Em meia panela de água, adicionar:

Três batatas
Uma cebola
Um alho frances
Uma porção de abobora
6 cenouras
um fio de azeite
sal qb

Deixar cozer e triturar com a varinha mágica...

Adicionar ao creme, um molho bem fresco e viçoso de agriões, ja devidamente arranjados e limpos de caules :)

Deixar cozer aproximadamente mais 6 a 7 minutos e .....bom apetite!!

Obrigado, Vanda :)))

E também por esta entrada:

Entrada fria de tomate, para a Isa :) à falta de tomate na sopa :)


Num prato, dispor várias rodelas de tomate no ponto (nem verde nem demasiado maduro), depois cortar várias fatias de queijo mozarella fresco, que vão acamar no tomate...

Polvilhar com óregãos, pimenta e sal refinado e no momento de servir, temperar com azeite virgem :))

Variante Teresa Durães: usar queijo fresco.

30 de set. de 2006

A receita da semana

A receita desta semana foi-me enviada pela Maloud, a quem agradeço a amabilidade.

É uma criação do Dr. Fouad Felfeli, médico libanês.


POULET AU CITRON ET L’AIL LIBANAIS


(Os tempos referem-se a um frango-galinha.)

Ligar o forno a 200º.

Partir um frango do campo aos bocados e retirar-lhe a pele.

Retirar do frasco 5 rodelas de "citron confit" (1) e parti-las em cubinhos.

Pôr num pyrex o frango temperado com pimenta moída na altura e regá-lo com o azeite que excede o limão, que restou no frasco. Meter no forno durante meia hora.

A seguir colocar por cima do frango os cubinhos de limão e 3 dentes de alho picados.

Deixar no forno mais 10 minutos. Regá-lo com o molho e rectificar de sal.

Ao fim de mais 20 minutos, deverá estar pronto.

Servir com um arroz branco feito não com manteiga, mas com azeite.

À parte, uma salada de pepino, tomate e cubos de queijo de cabra marinados em azeite, orégãos e tomilho-limão.


(1) CITRON CONFIT: (receita daqui: http://mercotte.canalblog.com/archives/2006/04/09/1630917.html)

Pelo menos dois dias antes da utilização, cortar alguns limões não tratados, bem lavados e limpos, às rodelas de 1 cm de espessura. Salgá-los em sal grosso durante 24 horas.

carrot_cake___citrons___l_huile_003

No dia seguinte, lavar e secar as rodelas, guardá-las num frasco e cobri-las simplesmente de azeite. Este preparado conserva-se à temperatura ambiente durante vários meses.


Bom apetite!

Aguardo, como sempre, as vossas considerações sobre a receita, vinhos e sobremesas.
A minha sugestão para os vegetarianos: Legumes ao vapor :)


E aqui estão elas, as vossas SUGESTÕES, que muito agradeço! E algo mais :)

Teresa Durães:
ai... adoro vinho tinto!!!! Esporão? hum!!!! ahhhhhhhhh
Monte Velho?
pois, legumes ao vapor , já agora acompanhado de um arroz no forno, s.f.f
não estou para passar fome. E que tal uma sopinha de agrião?
e para finalizar, dado a escassez de fruta de época... não sei...
uma tarte de amêndoa?
......................................................
Ah! E ao lado.... o vegetariano ou faço birra :P

Mercotte:
Tiens tiens , ne serais ce pas ma recette et la photo de mes citrons confits !!

Cila:
Quanto as sobremesas recomendava algo tipo peras bebadas temperadas com licor de poejos.... acompanhada com uma bola de gelado e decorado com pauzinhos de canela ;):).

Isabel:
A...não terás tu uma receita para respirar melhor???? mas com limão???

Touché:
A minha sugestão de vinho vai para um tinto da casa Santar, sei que não são vinhos baratos mas a minha sugestão é o Casa de Santar Reserva.
Já agora a pimenta moída que seja da preta que é mais saudável :)

Maloud: (a grande responsável desta receita, incluindo o famoso citron confit :) . Obrigado, Maloud!
Eu aceito e aconselho a sugestão do escanção Touché. Não esqueçam que decorrem as feiras dos vinhos em tudo quanto é sítio, portanto é aproveitar.

27 de set. de 2006

Caldeiradas de não saber

Com
esta
toalha
se
pode
ornamentar
a
mesa
com

na
marinhagem.


Depois, escolhe-se o barco
de papel,
que em breve será certo
e rumará
connosco onde quisermos.


Na
banheira
teríamos
o
clássico.
Procuremos,
porém,
outros
horizontes,
mais
propícios
às
propostas


tentadoras
que
em
alto
mar
se
consumam,
se
consomem,
sob o
olhar
agudo
da ave
a quem
a Vanda
prometeu
legumes
ao vapor e veio.





"_______________continuando a não saber sei que todo o entretanto já valeu a pena.
como se a viagem nunca iniciada fosse o prenome que afixo no vento." - escreveu A rasar o céu.

E eu, pedindo licença, subscrevo.


Se sabemos que não sabemos, que deixámos de saber, sabemos talvez que nunca mais saberemos.

Em todo o caso, algo sabemos. E o que não sabemos faz parte da viagem; não o sabemos precisamente porque algo já soubemos.

O que era nunca pode passar a talvez. Poderá o
que era talvez passar a nunca?

Como saber? Como deixar de saber?



Pode bem acontecer que, como li algures, tenhamos saído num qualquer apeadeiro.

Mas o comboio continua em viagem. Importará muito sabermos para onde?

Não, enquanto soubermos ________________________ afixar prenomes no vento.

22 de set. de 2006

15 de set. de 2006

As vossas sugestões

Alterações à receita:

Teresa Durães:
substituir o bacalhau por espinafres.
Lola: Substituir o bacalhau por nozes, pinhões e espinafres [em atenção à Teresa e demais vegetarianas(os)].
Maloud: Raminhos de funcho em vez de raminhos de salsa.

Vinhos:

Teresa Durães: verde Ponte de Lima (apoiado pela Cristina e pelo Parrot)








Sobremesas:
Rosalina:
Tarte de natas, de que transcrevo a receita amavelmente colocada em comentário:

TARTE DE NATAS


Ingredientes

* 1 lata de leite condensado;
* 5 folhas de gelatina;
* 2 claras;
* 250 gr. de bolacha Maria (ralada);
* Óleo para untar.

Preparação

- Colocar a gelatina de molho e depois escorrê-la.
- Num tachinho levá-la ao lume com 1 colher (sopa) de água até derreter e retirá-la.

- Numa tigela, bater as natas e juntar-lhes o leite condensado, a gelatina e, por fim, as claras batidas em castelo.

- Forrar com papel vegetal uma forma de tarde, untá-la com óleo e polvilhá-la com metade da bolacha ralada. Deitar na forma o preparado e polvilhar com a restante bolacha.

- Levar ao frigorífico.


*quando a faço "em cima do acontecimento" ponho-a, primeiro, no congelador. convém ser servida bem fresquinha.

Espero não me ter esquecido de nenhuma sugestão... mas posso sempre ser chamado à pedra:)

As sugestões da Nnannarella, ipsis verbis, sic e tvi:

- canetas de tinta permanente para escrever bilhetinhos impermanentes durante o repasto, untados de tinta;
- vinho do douro trasmontano, tinto, é claro, tipo "Bons Ares", cheios de aromas outonais e cascas de carvalho;
- broa de milho que faça lembrar o bacalhau com broa que se faz lá bem em cima, em Castro Laboreiro;
- lareira, já acesa, com tapete, para depois;
- cigarrilha cubana ou charro de boa origem para fumar no varandim, que é do melhor para consumir em noites de ventos a olhar os socalcos com entremeada tardia de beijos, antes da queda em leito de alhos durienses...

(continuo amanhã)


Ficamos à espera da continuação, que isto promete... :)


Não tendo ainda chegado qualquer continuação vinda da Nannarella, temos no entanto as sugestões da Cila:

"Olha lá e o cafezito a seguir nao tem direito a uns docitos assim tipo biscoitinhos caseiros ou entao uns "carabineiros como eu chamo aos brigadeiros"...lol
é que eu sou gulosa.
E aqueles senhores que depois gostam de um bom armagnac/aguardente velha/whisky não têm direito tb a um acompanhamento que so gelo e charuto nao dá."

12 de set. de 2006

A receita da semana

Após merecidas férias, ei-la que volta, a receita da semana, e sem sequer esperar por sexta-feira: é que a fome é muita.
Para hoje, escolhi (que imaginação!) o bacalhau. Fresco, para variar. Um prato simples, fácil de cozinhar, agradável e quase leve :) Vamos então ao

BACALHAU FRESCO NO FORNO


Ingredientes para 4 pessoas:
. 4 postas de bacalhau fresco de 200 g cada
. 2 maçãs reinetas
. 4 alhos-franceses
. 2 limões
. 30 g de margarina vegetal
. um pouco de óleo
. salsa
. funcho
. sal

Preparação:
1.
Aquecer o forno a temperatura média.
2. Untar com um pouco de óleo o fundo de um tabuleiro refractário.
3. Lavar os alhos-franceses, cortá-los em rodelas fimas e distribuí-las no fundo do tabuleiro.
4. Descascar as maçãs e cortá-las em rodelas finas, dispondo-as sobre o leito de alhos-franceses e regando-as com o sumo dos limões. Cobrir com um pouco de funcho picado e polvilhar com sal.
5. Levar o tabuleiro ao forno quente; cozinhar durante 30 minutos.
6. Passado esse tempo, colocar as postas de bacalhau sobre as verduras; temperar com sal e distribuir por cima nozinhas de margarina vegetal. Voltar a introduzir o tabuleiro no forno durante mais dez minutos.
7. Servir quando estiver pronto, polvilhando o peixe com salsa picada.

E pronto. Espero que vos agrade. Sugestões? Vinhos? Sobremesas? Fico à espera e

BOM APETITE!


7 de set. de 2006

1 de set. de 2006

28 de ago. de 2006

Para onde foi a Ave?


Há já alguns dias que a Ave levantou voo e desapareceu da nossa vista. Ficámos sem as belas histórias, sem os Lusitanos e a deusa Ataégina, sem o Rufus e outra malandragem, sem as fotos e os poemas, e etc., e etc....
Isso não se faz, Ave. Se voares por estas paragens e deres com este post, lembra-te de que temos saudades tuas. Eu tenho, isso é certo.
Em qualquer caso, que os novos voos sejam bem sucedidos.

21 de ago. de 2006

Poeira


Antigamente forjavam-se
ramos por dentro das coisas e
cada ramo era barco e partia – ia
e.

Eram orientes de todas as cores
astrolábios abraços salgados
fermentavam as linhas as cartas
o percurso da água os segredos.

Pelas tardes cresciam heras silêncios
o fumo de um cigarro o copo na mesa
na mão na memória dos lábios
a espuma.

Recorriam sons agarrados aos dedos
que tocassem as coisas os ramos
as tardes
os barcos por dentro os silêncios.

Na parede gelada sofriam
as formas o capricho do olhar
espirais ocultas nas sombras
marcas de nomes o
hoje.

12 de ago. de 2006

Quadras


Duas, apenas. Salvo erro, de Francisco Menano, que também lhes juntou a música para um fado de Coimbra, interpretado pelo próprio e por Adriano Correia de Oliveira (na foto), entre outros.

Fiz uma cova na areia
Para enterrar minha mágoa:

Passou por ela o mar todo,
Não encheu a cova de água.

Ninguém conhece no rosto
O que a nossa alma inspira.

A vida é gosto e desgosto,

Mentira, tudo mentira.

4 de ago. de 2006

O post de todos os posts...

... que ficaram "no tinteiro".


Quem nunca disse para si mesmo:

- "Eh pá, boa ideia, vou pôr isto no blog um dia destes!" Ou
- "Olha, vou registar para não me esquecer. Isto vai dar um post. Talvez ainda hoje." Ou
- "Só falta arranjar uma foto, e esta coisa vai direitinha para o meu bloguito."

Mas nem registo, nem memória, nem post, nem nada. Algumas ideias ainda acabam por ser recuperadas, mais ou menos de acordo com o esquema original. Outras perdem-se para sempre.
Este post é para essas. É o post de todos esses posts, vossos e meus. Um grande post, portanto.

30 de jul. de 2006

Regresso com Recuerdos de Alhambra

No fim de tudo, o que são as palavras? Pedaços de espuma que nos secam na boca, restos de poeira atravessando a luz criada por uma janela entreaberta no fio da manhã. Imagens de braços que nos chamam e não podemos já alcançar, abraços proibidos. De olhos que de longe nos sorriem, de cada vez mais longe. Partículas de sonho desenhando um rosto que com o tempo se irá diluindo na memória. "Avec le temps, tout s'évanouit", canta-nos Ferré. Recordações, como as de Alhambra, ou quaisquer outras que nos enterneçam e arrepiem. Lágrimas. No fim de nós, os que vamos ficando, o que são as palavras?

20 de jul. de 2006

Até breve!

Amigas e Amigos,
Por motivos pessoais, não tenho tido tempo nem disposição para aparecer por aqui. Voltarei logo que possível (dentro de uns dias). Um abraço a todos.

16 de jul. de 2006

Atenção aos níveis do ozono,


Praticamente não divulgados na comunicação social, mas que a Contra Capa, sempre atenta, não deixou escapar. Vale a pena ler este alerta da Cristina. O assunto é demasiado importante para ficar ao cuidado das estações de televisão, mais interessadas em saber se o freguês gostou das sardinhas que comeu no cruzeiro pelas praias dos algarves.
Dêem lá um salto, que vale bem a pena. E protejam-se!

14 de jul. de 2006

A receita da semana

Já que a Itália ganhou o Mundial, vou sugerir uma refeição italiana mais ou menos completa.

ANTIPASTO (veneziano)
Carpaccio


Pode comprar-se no supermercado do Corte Inglês (4,88€/Kg, mas um Kg dá para muitas pessoas).
Tempera-se com um azeite suave (de Trás-os-Montes, por exemplo) e umas gotas de sumo de limão, acrescentam-se umas alcaparras e parmesão lascado, e está feito.
Sugestão da Cila: acrescentar rucola, vinagre de vinho e um pouco de pimenta preta.

Sugestão do Zeca, noutra onda, e fora da cozinha italiana: um gaspacho, por causa do calor.

PRIMO
"Penne" com noz e alho.

Para 4 pessoas:
400 g de macarrão "penne"
60g de parmesão lascado ou ralado
60 g de miolo de noz
25 cl de nata espessa
3 dentes de alho
sal, pimenta moída na hora


Misturar os dentes de alho e o miolo de noz rapidamente, e em seguida acrescentar a nata e misturar de novo para obter um molho homogéneo.Deitar o molho numa saladeira grande e juntar o parmesão, sal, pimenta e misturar bem.Cozer a massa numa boa quantidade de água a ferver, mexendo de vez em quando para que não pegue. Escorrê-la. Misturar bem o penne com o molho e servir imediatamente.

SECONDO
Espetada
de lulas recheadas com camarão


Para 4 pessoas:
24 lulas pequenas
24 camarões grandes
sumo de 1 limão

20 cl de azeite
1,5 colher de sopa de salsa picada

Misturar numa tigela o azeite e o sumo de limão e pôr os camarões descascados a marinar nessa mistura durante 10 minutos. Rechear cada lula com um camarão e colocá-las em espetos. Contar seis lulas por pessoa.
Grelhar as espetadas durante 7 minutos de cada lado.

Servi-las enfeitadas com salsa picada, acompanhadas de azeitonas pretas e cobertas com o resto da marinada.

DOLCE
Pannacota


Para 6 pannacota
50 cl de nata
20 cl de leite
2 colheres de café de açúcar
1 vagem de baunilha
3 folhas de gelatina

Mergulhar as folhas de gelatina numa tigela de água fria durante dez minutos. Abrir a vagem de baunilha no sentido do comprimento. Aquecer numa caçarola a nata, o leite, o açúcar e a vagem de baunilha. (Recuperar os grãos raspando). Não deixar ferver: apagar o lume à primeira bolha. Deixar a baunilha em infusão enquanto o preparado amorna. Retirar a vagem.Comprimir bem as folhas de gelatina e incorporá-las no preparado.Deitar a mistura em formas individuais ou copos. (Se optar por formas, atenção: desenformar pode não ser fácil. Use uma faca para ajudar, e evite formas demasiado caneladas.)
Colocar no frio (frigorífico) durante 3 horas.

Sugestão de vinho (do Parrot): Alvarinho Abadia de San Campio (bem gelado).

E é tudo por hoje. Excepto as vossas sugestões. Boa refeição!


Créditos: Glória Fácil, Passe-moi ta recette, Péché de gourmandise, Station Gourmande




12 de jul. de 2006

Alpinismo

Quando o homem acordou, três montanhas o olhavam
e, olhando-o, já dentro dele o perseguiam.
A princípio mal desperto, apenas viu as sombras:
três sombras inexplicáveis que lhe saíam do sono
e lhe embebiam a carne afeita às rochas,
o corpo no acto penoso de acordar aflito.
Olhou-as, num torpor ainda fascinado
e, alongando o olhar no percurso das sombras,
sentiu chegar a lucidez, quase que em linha recta,
ergueu lentamente um ombro - e foi então que as viu:
altivas, determinadas, indesmentíveis montanhas
que pareciam avançar, que avançavam para si.
Foi já completamente consciente que gritou.
Quando o grito se tornou em maravilha, e cordas,
picaretas, botas, mochilas povoaram
os picos nevados, a memória de expedições antigas,
as montanhas iniciaram, tranquilas, a escalada.
Por um doloroso instante, o homem foi feliz.

(1981)

10 de jul. de 2006

O quadrado preto

Foi-me lançado um desafio pela Alien David Sousa.
É uma experiência, que já vinha de trás. Tenho todo o gosto em, colocando aqui este quadrado preto, deixar patente que acredito na possibilidade que (ainda) temos de mudar o Mundo, se nos unirmos. Como? Isso teremos de o pensar em conjunto. Para pensar, é preciso que haja vontade. Sou mesmo capaz de dizer que, da maneira como as coisas estão, não temos outra alternativa que não seja a de mudar o Mundo, antes que o Mundo nos transforme a nós em qualquer coisa da qual já nem saberemos ter consciência, quanto mais vergonha. Como todos os desafios, a ideia é alargar a experiência a quem de algum modo acredite na ideia. Fica, portanto, o convite a quem se quiser manifestar da mesma forma.



P.S. Agora que o quadrado já parece mais quadrado, é tempo de clarificar que não estou a falar de instituições nenhumas em particular, mas apenas a perguntar, a quem por acaso ler, se acredita ou não que, unidos, podemos mudar o Mundo, e se quer ou não manifestar essa crença.
Só isso.

9 de jul. de 2006

The man who sold the world, de David Bowie, na versão dos Nirvana

We passed upon the stairs, we spoke of was and when
Although I wasn't there, he said I was his friend
Which came as a surprise I spoke into his eyes
I thought you died alone, a long long time ago

Oh no, not me
I never lost control
You're face to face
With the man who sold the world

I laughed and shook his hand, and made my way back home
I searched for form and land, for years and years I roamed
I gazed a gazely stare at all the millions here
We must have died alone, a long long time ago

Who knows? Not me
We never lost control
You're face to face
With the man who sold the world

Who knows? Not me
We never lost control
You're face to face
With the man who sold the world