Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

4 de jun. de 2007

Old Friends

Simon e Garfunkel e Old Friends/Bookends, ao vivo no Central Park.
Fiquem bem.
Boa semana!



29 de mai. de 2007

29 de Maio de 2007



Flores, evidentemente. Hoje e sempre.




Com tudo.

24 de mai. de 2007

Que farei com este blog?



Enquanto os dias cavalgam soletram se riem geometricamente colocados no centro da aparente voragem viagem imagem,

enquanto os traços permanecem oblíquos e no entanto se mudam reordenam ziguezagueiam e dançam,

enquanto as coordenadas simpatizam olham de soslaio os eixos os seixos os fechos e abrem e prometem e cercam e cerram,

enquanto as cores que há se multiplicam pelos nadas e as notas das inúmeras escalas se soltam e chamam e de tudo isso parece nascer um canto uma prece um sorriso,

enquanto as palavras discretas me fogem retiram cansadas quem sabe para que vãos para que dias para que sóis e os dedos se tornam vazios de espera e quase gritam de medo,

enquanto.

17 de mai. de 2007

A sobremesa sugerida e fabricada pela Tuche!

Tarde de Frutos silvestres.

1 pacote de bolacha Maria
100 gramas de manteiga
1 pacote de natas frescas para bater
100 grs de frutos silvestres congelados (vendem-se em pacotes)

Picar a bolacha maria na 123, depois de picada juntar 100 gramas de manteiga ou margarina derretida( fica melhor com manteiga) misturar a manteiga com a bolacha e espalhar num prato a formar um monte mas alisar com as mãos.
Bater as natas até ficarem grossas e espalhar por cima da bolacha, levar ao frigorifico durantes 3 horas, depois desse tempo deitar por cima das natas os frutos silvestres previamente descongelados e voltar ao frigorifico mais 1 hora.




Limitei-me a transcrever para aqui o comentário da Tuche, a quem agradeço a receita, e a colocar uma foto. O mérito é todo dela. Tal como a Tuche, desejo-vos bom apetite, já que a tarte parece ser deliciosa.

11 de mai. de 2007

A receita desta semana...

Pronto, é sexta-feira...

Mais um fim de semana que se inicia, mais uma oportunidade, quando a há, de quebrar a rotina e passar talvez dois dias diferentes.

Por aqui também se vai quebrar a rotina de não postar (! :) e, ao mesmo tempo, uma outra: a de não publicar receitas. A última que aqui deixei já se perdeu na famosa noite dos tempos, por isso estará na altura de propor um petisco e aceitar sugestões complementares de sobremesas e vinhos.

Assim, e sem mais conversa, passemos à


PESCADA COM MOLHO DE PINHÕES

Ingredientes para 4 pessoas
* 4 postas de pescada de 150 g cada
* 2 dentes de alho
* 100 g de pinhões
* 2 tomates grandes maduros
* um pouco de azeite
* sal
* 1/2 folha de louro
* 1 limão
* salsa picada




Preparação
1. Assar sobre a chama os tomates e os alhos. Pelá-los.
2. Deitar os tomates, os alhos e os pinhões na batedeira. Triturá-los.
3. Num tacho de barro, deitar um pouco de azeite e o preparado anterior; temperar, aromatizar com a meia folha de louro e cozer em lume brando. Deixar reduzir um pouco o molho.
4. Regar com um pouco de água quente; introduzir as postas de pesacada e o sumo do limão. Colocar o tacho no forno, aquecido a temperatura média.
5. Manter no forno durante 10 minutos.
6. Ao retirar o tacho, polvilhá-lo com salsa picada e servir logo.


E é tudo. Resta-me desejar-vos bom apetite. E bom fim de semana também!

6 de mai. de 2007

6 de Maio de 2007, Dia da Mãe



Um beijo a todas as mães.


1 de mai. de 2007

Primeiro de Maio

Em 1886, nos Estados Unidos, foi assim.



Noutra onda, mas com título coincidente, fiquem com os Bee Gees, numa de saudosismo :)
E apreciem as legendas :)







Para todos, um bom feriado. Um bom Primeiro de Maio.

25 de abr. de 2007

25 de Abril


Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.


Deixo-vos com as palavras de António Gedeão, as pinceladas de espuma e os anéis de Saturno. Um bom feriado para todos. Um bom 25 de Abril para todos.

17 de abr. de 2007

Ecos da Páscoa

Título que pouco ou nada terá a ver com estas linhas, mas enfim... já era mais do que tempo de transformar a Páscoa em eco e publicar qualquer coisita de novo. Devido a limitações temporárias no meu equipamento, não se admirem se não colocar fotos. Será por pouco tempo. A música é que muda, mas não muito: quero continuar a colocar no ar os Neverend, por todas as razões e mais pelo facto de estarem a lutar com todas as forças, contra ventos e marés, para retomarem a actividade de composição e interpretação, quer dizer, novas músicas e concertos, interrompida já lá vão cerca de dois anos. Entre muitas bandas de gente nova (neste caso muito nova mesmo aquando da formação) que tenho ouvido, os Neverend são, para mim, um caso à parte. Por razões muito pessoais, mas também pela qualidade e originalidade dos temas, quer em Inglês quer em Português e pela forma (diria antes formas) de os interpretarem.

Infelizmente, disponho apenas de dois temas, que tenho de ir alternando, já que as gravações que possuo dos restantes têm fraca qualidade de som e poderiam transmitir uma ideia errada do que é realmente a banda.

Sei que alguns dos visitantes deste Título apreciam os Neverend. Espero que a banda conquiste mais adeptos, e assim ganhe mais força para ultrapassar os obstáculos que têm impedido o seu reaparecimento.

Fiquem bem, fiquem com o tema "Rush".

6 de abr. de 2007

Páscoa Feliz



Para quem a celebra ou festeja, e para quem não a celebra nem festeja, o importante é que sejam mais uns dias felizes, umas pequenas férias se possível, o estar com a família e os amigos, sem a correria do quotidiano, sem preocupações de trabalho, com saúde e alegria.



Amêndoas para todos! Fiquem, de novo, com os Neverend!

28 de mar. de 2007

The windmills of my mind...

Deixemos um pouco de lado os Neverend, mas ali mesmo à mão de semear...
Proponho-vos "The Windmills of your Mind", uma composição de Michel Legrand, numa das suas muitas versões, no caso a de Noel Harrison, agora substituída, a pedido, pela de Nana Mouskouri.

A canção fez parte da música do filme "The Thomas Crown Affair" ("O Grande Mestre do Crime"), de 1968, realizado por Norman Jewison, com Steve McQueen e Faye Dunnaway. Em 1999, John McTiernan realizou um "remake" do filme, interpretado por Pierce Brosnan e Rene Russo.

A letra merece destaque, por isso também aqui fica:


The Windmills of your Mind

Round
Like a circle in a spiral
Like a wheel within a wheel
Never ending or beginning
On an ever-spinning reel
Like a snowball down a mountain
Or a carnival balloon
Like a carousel thats turning
Running rings around the moon
Like a clock whose hands are sweeping
Past the minutes of its face
And the world is like an apple
Whirling silently in space
Like the circles that you find
In the windmills of your mind

Like a tunnel that you follow
To a tunnel of its own
Down a hollow to a cavern
Where the sun has never shone
Like a door that keeps revolving
In a half-forgotten dream
Or the ripples from a pebble
Someone tosses in a stream
Like a clock whose hands are sweeping
Past the minutes of its face
And the world is like an apple
Whirling silently in space
Like the circles that you find
In the windmills of your mind

Keys that jingle in your pocket
Words that jangle in your head
Why did summer go so quickly?
Was it something that you said?
Lovers walk along a shore
And leave their footprints in the sand
Is the sound of distant drumming
Just the fingers of your hand?
Pictures hanging in a hallway
And the fragment of a song
Half-remembered names and faces
But to whom do they belong?

When you knew that it was over

You were suddenly aware
That the autumn leaves were turning
To the colour of her hair

(na versão de Nana Mouskouri)

(When you knew that it was over
In the autumn of goodbyes
For a moment you could not recall
The color of his eyes)


Like a circle in a spiral
Like a wheel within a wheel
Never ending or beginning
On an ever-spinning reel
As the images unwind
Like the circles that you find
In the windmills of your mind




Que a Primavera vos esteja a ser agradável!

19 de mar. de 2007

Para os meus filhos

Tenho que vos desculpar o assalto, porque vocês produziram o melhor post do Dia do Pai de toda a blogosfera... pelo menos na minha suspeitíssima opinião :)

Gostei imenso de todas as palavras. Digamos que é isso mesmo que um pai, ao fim destes anos, gostaria de ouvir (ou ler). A música também foi escolhida a dedo: de facto, muitas secas vos dei com "A Banda" (e outras, e muitas outras... :))) e espero continuar a dar, pois então. Como canta a outra, "até que a voz me doa" lololol.

Que a vossa música seja sempre a melhor, e a vossa vida como a vossa música, e que me vão aturando por muitos e bons, que amanhã... é outro dia ;)

Muitos beijos para os dois e... OBRIGADO!

Feliz Dia, Pai!

Tomámos por assalto o blog do nosso pai!

Viemos aqui deixar um grande beijo e um grande abraço neste dia especial, e lembrar uma música que crescemos a ouvir, conhecendo-a apenas pela voz do nosso pai.

Tal como tantas outras músicas que ele nos deu a conhecer, e que nos ensinou ao longo da nossa infância, influenciou a nossa maneira de ser e sobretudo a nossa ligação à música.

Ouvir e tocar música foi algo que desde muito cedo teve um significado especial para nós, em grande parte graças a tantos serões passados na tua companhia, Pai.

Por isso e por tudo o que nos tens trazido ao longo da nossa vida,


Obrigado!

de: Luis e Renata

--




Chico Buarque - A banda

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor...

13 de mar. de 2007

Para não dizer que não postei...

Espero voltar muito em breve às minhas voltas pela blogosfera, e em particular pelos vossos blogs. Até lá, sejam muito felizes!

8 de mar. de 2007

8 de Março


Independentemente de ser ou não ser justificada e oportuna a celebração do Dia Internacional da Mulher, a verdade é que a data se comemora hoje, e não vejo nenhuma razão para não deixar aqui o meu beijo às amigas que me visitam. Uma flor para vocês, neste vosso dia. Uma flor para todas as mulheres.


E mais estas.



E ainda estas.

1 de mar. de 2007

Jeff Buckley

Já em tempos falei de Tim Buckley. Hoje é a vez do filho, Jeff Buckley, excelente guitarrista, cantor e compositor, falecido em 1997, aos 31 anos. Sobre a sua vida e obra pode ler-se aqui.




Como exemplo, embora um tanto diferente da sua linha habitual de composição, mas por isso mesmo, fica a canção Corpus Christi Carol, do álbum Grace.


He bear her off, he bear her down
He bear her into an orchard ground

Lu li lu lay lu li lu lay
The falcon hath bourne my mate away

And in this orchard there was a hold

That was hanged with purple and gold
And in that hold there was a bed

And it was hanged with gold so red

Lu li lu lay lu li lu lay

The falcon hath bourne my mate away

And on this bed there lyeth a knight

His wound is bleeding day and night

By his bedside kneeleth a maid

And she weepeth both night and day

Lu li lu lay lu li lu lay

The falcon hath bourne my mate away


By his bedside standeth a stone

Corpus christi written thereon

23 de fev. de 2007

Zeca Afonso deixou-nos há 20 anos

Eu deixo-vos com as suas palavras, com a sua música e com a minha imensa saudade.




Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Ainda o ar educa

18 de fev. de 2007

A receita da semana

É, desta vez, algo de simples e sem problemas para vegetarianos que comam ovos... e presunto :)


Para quatro pessoas,
* 4 ovos grandes
* 4 fatias de pão de forma
* 80 g de manteiga (reparem no pormenor...)
* 100 g de queijo ralado
* 4 fatias de presunto do tamanho do pão
* 2 colheres de sopa de vinagre por litro de água
* sal




A coisa faz-se assim:

1. Pôr ao lume um recipiente fundo e de boca larga com 1 litro de água, sal e o vinagre correspondente.
2. Quando a água ferver, partir os ovos e deitá-los, um a um, na água; cozer em lume brando durante 3 minutos exactamente. Pode ser útil cozer só 2 ovos de cada vez... :)
3. À medida que se retiram os ovos, introduzi-los numa tijela com água fria; depois, colocá-los sobre um pano limpo, para que escorram a água retida.
4. Entretanto, tostar ligeiramente o pão na torradeira; barrar as fatias com manteiga enquanto ainda estão quentes.
5. Colocar as tostas em pratos individuais, cobri-las com as fatias de presunto e metade do queijo ralado; colocar depois um ovo sobre cada uma delas e cobrir com o resto do queijo.
6. Introduzir uns minutos no forno, previamente aquecido, até o queixo fundir.
7. Servir os ovos assim que saiam do forno.

E pronto. Resta-me desejar-vos BOM APETITE!

9 de fev. de 2007

Porto Sentido

Uma pequena homenagem aos nossos amigos da Inbicta.
Com um bom Porto, ao pôr-do-sol, no Museu Romântico.



Os Rolling Stones são um pouco como o vinho do Porto. Por isso, a acompanhar, uma balada - As Tears Go By.



Bom fim de semana para todos!


Com a devida vénia e o meu muito obrigado, actualizo o post inserindo este belíssimo texto:



"Rendo-me. Morro de amor pelo Porto. Assim que desembarco naquele cinza azulado com cabelos de nevoeiro suspensos e engulo o cheiro do Douro, sinto-me quase pura.


O Porto tem mistérios que a emoção apanha e doura e transforma e eterniza. Clássico e íntimo, distante e sereno, arrogante e terno, soberbo e entristecido, atira-me um frio matinal e uma Foz opulenta. O Porto veste-se diferente. Ousado e vanguardista, formal e de linhas discretas, desce Santa Catarina como se fosse para o jazz e enquanto o café arrefece e o cigarro descai, olha displicentemente atento para a miúda integral e leite desnatado.


O Majestic vai envelhecendo ao ritmo do cansaço, as paredes descascam-se sem pudor e sempre ao velho poeta sucede-se um velho pintor, e lá fora a rua apetece. Com paixão desvairada mordo os bombons da Cunha, doces e intensos, especiais para recordar, para amar com a sôfrega paixão de quem deixa atrás uma cama aberta e um barco fundeado no Castelo do Queijo.


Estar no Porto é marcar encontro com Chagall e insistir no mistério do azul profundo com um sorriso sépia. É desejar uma asa e ter um sussurro apaixonado. É mergulhar numa arquitectura europeia e tropeçar em Mozart e derrapar num silêncio mordaz de Agustina, e perder o pé numa tela de Resende e ganhar a voz com Eugénio. O Porto de sombras. O Porto de sol. O Porto a trabalhar ao ritmo dos comboios. As castanhas no banco da Avenida, os livros, os barcos, a Ribeira, os putos, o vento e a inesquecível música de um violino despenhado.


Quem chega ao Porto chega sempre a um lugar diferente. Será do nevoeiro, será da claridade das casas austeras, dos jardins adocicados, da iluminação, das ruas apertadas, será da sombra do rio ao fundo dos hotéis cheios de gente, sei lá, deve ser de tanta beleza indizível, irretratável, mas também pode ser da memória do teu corpo que me persegue como uma onda e me galopa. E depois até a chuva é diferente. Escorrega sobre as pedras, desliza sobre o parque, enche de cheiro inglês o bairro da Boavista, amortece suavemente o Passeio Alegre, embala-nos o orgulho de uma cidade masculina.


O Porto vibra debaixo dos plátanos e das tílias, descansa sobre as estátuas, sonha na Arca de Água e consome nos centros comerciais e na tradicional 31 de Janeiro a vaidade urbana. São atmosferas densas de cor e forma, de desejos tórridos de contenção elitista, de segredos demorados e chistosos. O Porto é um tesouro que se fixa e que apetece sempre mais. Outra noite no Aniki-Bobó, outra conversa húmida no Luís Armastrondo, a mesmíssima música do rio no corredor da Ribeira.


O Porto com paixão. No Porto me perdi a meio de uma tarde iluminada pela geometria dos teus dentes. Sedento de moliceiros, perdido de saudade medieval, envolto de mistérios barrocos, no Porto me vejo fértil e bem português, rico e altivo, mulher de palavra quente e chã, corpo musculoso, visões antigas de uma verticalidade acintosa. Rude e compacto, áspero, mulher acesa, homem voluntarioso. Todos os ângulos são possíveis para te amar, todas as paisagens no trânsito caótico, na margem de Gaia, no sobressalto das águas picadas pelo vento do Moledo, no sossego dos jardins de S. Lázaro, no mercado, no táxi na Marginal, nos lençóis do Meridien. Ou seja, no Porto todo o amor é de paixão secreta e voluptuosa, às vezes rubra outras azul-escuro, mas sempre paixão de luz contra o nevoeiro. Porque o Porto não se esquece aqui fica em posfácio o recado possível. Angustia-me. Arruivece-me. Inaugura-me outra ponte. Devolve-me o teu momento de paixão."


Mendes Ferreira

1 de fev. de 2007

FRAGMENTOS: Cafés e afins por onde passei, convenientemente suspensos no tempo e no espaço para que possa visitá-los quando me apetecer.


CAFÉ APOLO




A bola um, amarela, encaminha-se devagar para o buraco do meio da tabela, entra não entra, bate na esquina, não entra. Um minuto antes, alguém gritara:
- O senhor da 2!
Era a chamada para a tacada inicial de um jogo de pool, um jogo parecido com o snooker, mas completamente diferente.
O Eurico, dono do Café Apolo, era um excelente jogador de pool. A mesa, os tacos e as bolas eram de primeira, nada daquele material miserável que se encontrava na maioria dos cafés e salões de jogos. Ainda por cima, os finos bebiam-se muito bem e as tostas mistas eram óptimas. Faziam logo lembrar as sandes de presunto e queijo da serra da Leitaria Académica, onde se bebia muito pouco leite, mas uma enorme quantidade de penalties, uns copos altos de vinho tinto, que iam a matar com as sandes e deviam, em teoria, ser bebidos de um só trago.
No Café Apolo também havia penalties, que era como chamávamos às tacadas fáceis que se proporcionavam quando um dos jogadores se caía, que é como quem diz, deixava a sua bola em posição acessível para que o jogador seguinte a metesse no buraco. Tudo isto requer uma explicação. Com paciência, lá iremos.
Na pool usam-se as bolas numeradas de 1 a 8, que é o limite aconselhável de participantes. Bolas de eight-ball e não de snooker, residindo a diferença no facto de as primeiras serem numeradas de 1 a 15 e as segundas não terem numeração alguma, para além de apresentarem uma bela colecção de bolas vermelhas que nada têm a ver com o eight-ball.
- O senhor da 3!
O senhor da 3 poderia muito bem ser o João, que uma bela tarde me abordou a pedir um dinheirito porque precisava de ir até Lisboa no fim de semana. Os pais do João viviam em Angola, e as remessas de mesadas eram complicadas e irregulares, o que lhe provocava frequentes problemas de liquidez. Mas crédito, sem dúvida que tinha, sobretudo comigo, companheiros que éramos de estudos e de farras e de outras actividades que não vêm agora ao caso. Emprestei, portanto, o cacau ao João, e ele lá abalou para Lisboa. Voltou um ano depois, vamos lá fazer contas, e desde então o meu conceito de fim de semana prolongado nunca mais foi o mesmo.
Sorteavam-se as bolas pelos jogadores, cada um dos quais entrava com, digamos, vinte e cinco tostões. A bola 1 era posta a uma bola de espaço da tabela superior e a meia distância entre as tabelas laterais. O detentor da bola 2 colocava esta no semicírculo junto à tabela inferior e tacava à bola 1, tentando ensacá-la, ou seja, colocá-la num dos seis buracos da mesa. Tacada difícil, essa tacada inicial, sobretudo porque também era imprescindível defender, não fosse haver uma caídela para o senhor que se seguia. Havia, no entanto, sobredotados que conseguiam acertar mais de oitenta por cento destas tacadas. E lá se iam sucedendo os jogos, os finos e as tostas, pagando muitas vezes os ganhadores pelos perdedores, o que tornava a brincadeira mais equitativa. O Apolo fechava às duas da manhã, mas, sendo o Eurico quem era, cerravam-se portas e estores e a jogatana continuava.
O senhor da 5 iria jogar à bola 4, como o da 3 jogara à 2, e assim prosseguia a partida. Quando um jogador conseguia ensacar a bola de número anterior ao da sua, tinha o direito de alvejar qualquer outra bola, independentemente da ordem numérica, e, caso acertasse, continuaria a jogada, tentando ensacar quaisquer outras bolas, e apenas terminando a jogada quando não conseguisse “meter” a bola que visara. Por cada bola ensacada recolhia 5% do bolo. Essas bolas voltavam ao jogo, até sofrerem quatro entradas no buraco: nessa altura, os respectivos donos terminavam a sua participação.
De quando em vez ouvia-se distintamente o 4 a abrandar na curva, chiando nos carris. À medida que os sinais se iam espaçando, percebia-se que se estava a fazer tarde. Possivelmente já não teríamos oportunidade de apanhar o 4 em andamento, aproveitando a tal curva, porque o último já passara. Era altura de beber um café, para espertar, e de dar uma espreitadela cautelosa aos estores, não fosse aparecer de surpresa um creme-nívea mais silencioso à cata de multas por funcionamento da casa para além do horário autorizado.
- O senhor da 4!
Os senhores do 4 poderíamos ser o João e eu, que muitas vezes saltávamos à pressa para o último eléctrico e íamos acabar a noite a minha casa, que era na realidade a casa dos meus avós, nessa altura já apenas da minha avó. Conversávamos pela madrugada dentro, com mais uns petiscos e uns copos pelo meio, na cozinha daquele primeiro andar do prédio fronteiro à paragem do 4. Uns bons anos antes, quando no quadro mal iluminado que indicava o destino do eléctrico se podia ler “Bairro Operário”, essa paragem era, para o 4, o fim da linha. O Bairro Operário, apenas uma fila de casitas pobres com uma capela atrás, havia anos que fora demolido, provavelmente por estar mal enquadrado numa zona da cidade que, com o tempo, parecia ter desenvolvido algumas pretensões a chique. Como se diria hoje, o Bairro Operário terá sido deslocalizado, e a capela, deixada ao abandono, acabara por ser comida pela erva e descaracterizada pela falta de uso; havia muito que, da varanda da casa dos meus avós, se deixara de ouvir a ladaínha das novenas e de ver o serpentear das procissões de velas que me encantavam as noites de infância. Também era no 4 que o meu avô me levava ao circo, só que então no quadro mal iluminado do destino se lia “Portagem”, porque o percurso era agora o descendente. O bilhete custava sete ou oito tostões, e o meu avô oferecia um tostão extra ao guarda-freios para que fizesse a máquina andar mais depressa, não fôssemos chegar atrasados ao circo Mariano, ou ao Circo Royal, ou ao Circo Luftman. Quando a conversa se prolongava até ao raiar do dia, o João e eu já não ouvíamos os pregões das peixeiras que a minha avó distinguia à distância, a Joaquina, que trazia a melhor sardinha, a Adelaide, a Sebastiana, que vinham da Figueira com peixe fresco em dias certos, mas subiam a pé desde a Estação Nova, em vez de apanharem o 4, nem sentíamos o bater discreto na porta das traseiras da mulher que vendia os manjares, uns doces à base de farinha servidos em pratinhos de barro rasos, que nunca mais encontrei em lado nenhum, cheiros e sabores que se foram dissipando na roda dos anos, como a capela e o bairro, e como o 4, anos mais tarde substituído por um duvidoso autocarro que quase nem barulho fazia, e como saber, portanto, que estava a chegar, enfiar o agasalho, descer as escadas a correr e apanhar o eléctrico na hora certa, tlim-tlim, pode seguir?
O senhor da 6!
Se o senhor da cinco, por exemplo, saísse do jogo, passaria a bola 6 a jogar à 4, e por aí adiante. O jogo acabaria quando ficasse apenas uma bola em cima da mesa de bilhar, sendo dado como vencedor o dono dessa bola, que por isso recebia o “bolo” restante - o qual, por azar, poderia ser nulo, dependendo do número de bolas “metidas” fora de sequência - que, como expliquei, premiavam quem as ensacasse.
O senhor da 6 poderia muito bem ser o Rogério. Se assim fosse, já não tínhamos que nos preocupar com o 4, em cujo quadro de destino ainda mal iluminado se lia agora “Cruz de Celas”, porque o Rogério tinha carro e a boleia estava garantida. Ficava-lhe mesmo em caminho, já que morava na mesma rua, mas alguns quarteirões adiante, quase à beira do novo fim da linha, o Rogério, que, anos mais tarde, haveria de comentar no salão de bilhares do primeiro andar do Café Imperial:
- Ele é jogador de pool...!
Assim me desculpava por ter falhado estupidamente a tacada no jogo de eight-ball a que chamávamos snooker. Nos escritórios dos terceiro e quarto andares havia quem conhecesse bem o Apolo do Eurico e outros cafés e afins comuns, o Zé Manel dos chocos e dos ossos, o 007 do queijo da serra e dos vinhos do Dão, o Marbran da cabidela às tantas da madrugada, o Bar da Estação que era o último refúgio antes de o dia ser dia, o Atenas do Quaresma, o Et Coetera que tocava o “Vamos dormir” às 4 da manhã, e outros, e outros, recordados entre duas tacadas no salão de bilhares do primeiro andar do “Imperial” que, anos mais tarde, sucumbiria às mãos da fast food e se converteria num banal MacDonald’s, e que não ficava na mesma cidade onde se jogava pool no Apolo, mas numa cidade com escritórios, trabalho e responsabilidades e coisas assim, uns largos anos a Norte.
O senhor da 7!
O senhor da sete sou eu. Levanto-me enquanto bebo o resto do café, pego no taco, passo-lhe o giz na ponta para evitar alguma espirradela e considero a posição da bola 6 relativamente aos buracos mais a jeito. Observo cuidadosamente a bola 7, a fim de tentar evitar caír-me, e decido-me por uma tacada para o buraco do fundo, à direita, puxando ligeiramente a minha bola para a tabela. Encosto o taco à bola na posição que me parece adequada, aponto à bola 6, recuo o taco e desfiro uma pancada que pretende ser seca, precisa e eficaz. A bola 6 vai rolando perto da tabela lateral direita, encaminhando-se esperançosamente para o buraco do fundo, entra não entra, entra não entra, entra não entra...