Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

2 de out. de 2007

Uma sobremesa pouco calórica (acho...)

A pedido da MJF, aqui fica uma receita "dietética" de


SORVETE DE MELÃO



Ingredientes para 4 pessoas:
* 700 g de melão muito maduro
* 8 claras
* adoçante artificial
* um pouco de canela ou outra especiaria (facultativo)
* algumas gotas de sumo de limão


Preparação
1. Extraír a polpa do melão e passá-la por uma batedeira eléctrica ou uma liquidificadora. Triturá-la.
2. Misturar numa tigela o sumo de limão, o adoçante e a canela, caso goste do seu sabor. Adicionar o melão triturado.
3. Bater as claras em castelo firme, utilizando uma tigela grande.
4. Incorporar pouco a pouco, batendo com muita suavidade, o melão triturado.
5. Repartir a massa por taças individuais e metê-las no congelador durante cerca de 2 horas. O ponto de sorvete é cremoso, não duro.


Conteúdo em 100g de porção comestível
Calorias: 25 Kcal
Proteínas: 1 g
Hidratos de carbono: 5,3 g
Vitamina A: 1200 U.I.
Vitamina C: 30 mg


Bom apetite e poucas calorias!!!

27 de set. de 2007

Continuando...

Apenas duas pessoas ousaram responder ao DESAFIO AO LEITOR do post anterior. Até agora, e dou por encerrado o desafio. Por ordem de chegada, a LOLA sugeriu:

Os filetes :
Entrar discretamente na área de congelados de qualquer bom supermercado e procurar a embalagem de "filetes caseiros", não vou


dizer a marca para não me comprometer.
Em casa disfarçar e preparar a salada , enquanto se fritam os benditos filetes...

O arroz:
Pode ser feito na Bimbi, ou no microondas, coisa para demorar aí uns 8 minutos, se a família não for muito grande...
Servir com requinte.

*

Obrigado,
Lola! Notem, por favor, o requinte, a discrição e o disfarce. E já nem falo da benção... :) Como disse no comentário, a Lola, cá para mim, tem pinta de boa cozinheira. Será? :D

*

E agora, a autora da receita ela-mesma, a Teresa Durães!

Arroz:
Fazer o estrugido. Uma de arroz para duas de água. até o arroz cozer (e não coser que não há agulhas). Se quiseres de tomate, colocas o tomate no estrugido. Põe um pouco de água (quase nada) para não dar cabo da saúde. Não fica tão 'puxado' mas até os diabéticos podem comer.


Estrugido= refugado mas à norte, carago!!



O peixinho
é simples. Congelado é mais barato. Fresquinho sabe melhor. Pegas no bicho (morto), nada de fritos que isso faz colesterol. Colocas num pirex com sal, coentros e tomate (desmancha-o, um inteiro podia ficar bonito mas não é prático).
Se o peixe não prestar, coloca uma pinga de água para não pegar ehehhe

Impinges à família e pronto. Se não gostarem chamas o homem da pizza e vão te adorar!!!


Ao cozinhar, acompanhas uma música tipo System of a Down, Spliknot para ver se não te aborreces tanto. Metallica também é opção ou os Funk Audioslave, Incubus...

*

Obrigado, Teresa! Com explicações sobre o cozer e o coser, o estrugido, carago! , sugestões alternativas não vá o Diabo tecê-las, e BOA música para acompanhar a confecção, que mais se pode pedir a uma veg que cozinha peixe? E que tem uma reputação a defender? E que é de ciências exactas (sem raminhos de salsa)?

E, como alguém escreveu, voilà la!

24 de set. de 2007

Cumpro, sim!

Alguém insinuou por aí que eu prometo e não cumpro. É preciso desmentir a atoarda, e já. E da pior maneira possível para quem lançou a calúnia :)

Assim sendo, passemos à prática. Prometi uma receita. Vou publicar duas, ambas indecentemente roubadas, e por ordem inversa de aparição nos comentários ao meu post anterior...


A primeira receita foi amavelmente oferecida pela GI, e parece-me muito interessante:

LAGOSTA FINGIDA


Red-fish, tomate maduro, ovos, sal, pimenta.
Cozer as postas de red-fish e água com bastante sal.
Depois lascar e reservar (lascas pequenas quase desfiado).

Por cada posta um tomate maduro e um ovo.
Triturar o tomate e misturar os ovos , pode ser tudo posto na misturadora.
Depois juntar as lascas do peixe e temperar com pimenta . Levar ao forno, tabuleito untado com manteiga (pouca).
Deixar cozer bem (não sei o tempo, vou vendo com o palito) . Se puseres em forma redonda cortas como se fosse pizza. Prefiro por num rectangular e cortar no fim aos quadradinhos e servir com alface ripada.
É melho comer frio. com maionese ao lado de preferência.
(o red fish é melhor se congelado, se as postas forem pequenas tem que se ter cuidado com a quantidade de ovos que se colocam).
Isto é 5 estrelas ***** e truque para fazer prato que parece muito sofisticado sem o ser. Bom para festas com muita gente mas óptimo para um final de trata quando até a preguiça para comer é grande.

MUITO OBRIGADO, GI!




A segunda receita tem que se lhe diga. Para começar, é obra da Teresa Durães, nem mais nem menos que a nossa escritora veg de serviço :)))
Tem o indiscitível mérito de ser simples e concisa. Lapidar, diria mesmo. Ei-la:



"Vá, filetes com tomate, coentros e vai ao forno. Eu cá acompanho com arroz que não gosto de batatas. mas cada um sabe de si. Prático, os miudos comem peixe e voilá la."

MUITO OBRIGADO, TERESA! Porém...

Sendo esta receita um autêntico concentrado, impõe-se fazer aqui algo, como diria a patroa do Ambrósio. Algo como o que aparece nos policiais antigos do Ellery Queen. Concretamente, o

DESAFIO AO LEITOR

Chegado a este ponto da narrativa, o leitor tem já na sua posse todos os elementos para descobrir a identidade do criminoso... perdão, deixei-me levar..., o desenvolvimento da receita. Assim, desafio os leitores a publicarem em comentário os seus palpites sobre:

- Os ingredientes e a confecção dos filetes com tomate;
- Os ingredientes e a confecção do arroz.



E pronto. Cumpro ou não cumpro? :)

Resta-me desejar-vos Bom Apetite e Boa Semana.

P.S.: Teresa, os contos, pois é, que maçada... ainda não é desta, mas de barriga vazia não pode ser nada hehehe!

14 de set. de 2007

All about nothing

Sim, já vai sendo tempo de fazer um novo post. Já era tempo há vários dias, eu sei. Nem é bem uma questão de tempo... é mais a disposição que não ajuda. A falta de vontade, pois. Nem sempre apetece.

Claro que posso recorrer às maravilhas do You Tube, para que quem me visite não encontre invariavelmente a mesma treta, a prefigurar um blog meio morto. Posso, mas não quero abusar dessa espécie de solução demasiado fácil. E, no entanto, talvez devesse utilizá-la mais: afinal sempre muda a cara do blog, e pode dar a conhecer coisas interessantes a quem porventura ainda as não tenha visto.

Falar do Scolari? Não, decididamente não. Este blog há muito que se afastou da discussão dos temas do nosso portuguesíssimo quotidiano, político ou não. Já há por aí muita gente a opinar, uns bem, outros menos bem. Não é esse o meu caminho, embora possa sempre haver uma ou outra excepção. Qual é então o meu caminho, perguntará quem ler. Espero encontrar uma resposta...

Podia ir buscar umas imagens bonitas e refrescar a vista de quem por aqui passa. Demasiado fácil? Bom, mais fácil, reconheço, é não fazer nada.

À medida que escrevo, tento decidir se espeto aqui uma imagem a acompanhar o arrazoado, ou mesmo um vídeo sacado do You Tube. Anda não me decidi. Caramba, isto é uma espécie de "blog em movimento", com o hipotético leitor a acompanhar em directo e quase ao vivo as também hipotéticas intenções de quem publica! E esta, hein?



Lá está a tal foto. Por acaso não caíu do nada: tratando-se de uma rua no centro de Cascais, vai acompanhar um texto que escrevi há uns anos:


Avenida de Sintra

Em direcção ao centro de Cascais,
Pura abstracção em cada movimento,
Só a guitarra diz aonde vais,
Só o baixo te guia o pensamento.

Passa o jipinho preto de uma tia,
Mais o BM novo em cinza prata,
Mas tu só vês o som da bateria
Marcando a tarde na medida exacta.

Mesmo ao teu lado arranca a carripana
Recheada de corpos sem contrato,
Teclado obreiro sem fins-de-semana
Entre o dó sustenido e o sol barato.

A voz é de um cristal já meio rouco,
Quase a partir ou, quem sabe, a chegar,
E em qualquer árvore há sempre um ramo louco
Que te apetece ser, mais que alcançar.

Ainda é cedo p’rá hora de ponta,
Quando o trânsito dói e desatina.
No teu andar a música desponta
Como uma brisa azul, quase divina.

Na Avenida de Sintra a tarde avança
Vestida de silêncio, e tu lá vais
A conduzir o discman da esperança
Em direcção ao centro de Cascais.


Bom fim de semana!
Discman? Hmmm... isto tem mesmo uns anitos...

31 de ago. de 2007

Bom fim de semana com Skunk Anansie - Tracy's Flaw, Live @ Pavarotti & Friends





Aditado em 6 de Setembro de 2007: Pavarotti deixou-nos. Ficam a sua voz, as suas canções, as suas interpretações em tantas e tantas óperas, o seu génio.

Fica, aqui ao lado, com Meatloaf,
Torna a Sorrento.


14 de ago. de 2007

Tristeza

Quem tem animais de estimação sabe até que ponto nos podemos afeiçoar a eles. Sabe como eles se podem afeiçoar a nós. A dedicação, o carinho, a companhia, a brincadeira, os pequenos pormenores quotidianos, o riso, o temperar dos dias, o hábito da espera, da carícia, a certeza de que podemos contar com eles na alegria e na tristeza... tudo isto e muito mais.

Pode também saber o que significa a perda de um animal a que nos afeiçoámos.

Perdi há dias a minha gatinha favorita, a Pretinha, uma gata (preta, como o nome indica) de tamanho pequeno, uma companheira inigualável, que era considerada e tratada como um membro da família. Viveu pouco mais de dois anos. É pouco. Foi pouco.

Não tenho disposição para blogues, nem para nada. Não sei quando voltarei a ter. Impôs-se-me hoje contar-vos isto.

Sobra apenas tristeza, uma infinita tristeza. E alguma raiva.

Não quero dizer mais. Não posso dizer mais.

6 de ago. de 2007

Foi há 62 anos

A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

Vinicius de Moraes

28 de jul. de 2007

Um doce fresquinho

Por sugestão da Gi, uma pequena receita adequada à época.

Primeiro, faz-se um

Granizado de limão (para 4 pessoas)

* 4 limões grandes e sumarentos
* adoçante artificial
* água fria

Raspar um pouco da casca de limão (apenas a parte amarela) e espremer todos os limões.
Juntar ao sumo e às raspas um pouco de adoçante e água fria, para obter uma limonada de sabor intenso, tão doce quanto se desejar.
Deitar numa cuvete. Introduzir no congelador até ficar com a consistência de granizado.

E agora, o

Icebergue de frutas



Ingredientes para 8 pessoas:
* 1 Kg de fruta tão variada quanto possível
* 1 litro de granizado de limão
* 1 cálice de kirsch
*
um pouco de natas batidas ou merengue para adornar (facultativo)

Preparação:
1.
O granizado de limão, previamente preparado, retira-se do congelador para que descongele um pouco, mas apenas o necessário para poder ser trabalhado.
2. Descascar a fruta, extraír os caroços e cortá-la em pedaços pequenos. Se houver melão, ou melancia, fazer bolinhas com a colherzinha especial. Procurar obter contrastes de cores :)
3. Regar a fruta cortada com o kirsch.
4. Numa forma alta e estreita, ir colocando camadas alternadas de frutas (separadas por classes ou misturadas, conforme se preferir) e de granizado de limão, comprimindo um pouco para que não se movam (o granizado tem de ter uma consistência bem forte). Começar e acabar com uma camada de granizado.
5.
Colocar a forma no congelador e deixar gelar por completo.
6. Para desenformar, passar rapidamente a forma por água morna e deitar sobre um prato de servir fundo.
7. Para servir, salpicar o icebergue com "flocos de neve" (nata batida com um pouco de açúcar e merengue, se se preferir).


Espero que seja suficientemente doce, suficientemente fresco, e do vosso agrado. Fora do vulgar não será muito, mas enfim... BOM APETITE!

19 de jul. de 2007

Para quem está de férias


Neste ou noutro cenário, e que importa é a boa companhia, uns petiscos, descanso, tempo para não fazer nada ou fazer o que se quer....

Para vocês que estão de férias...


BOAS FÉRIAS!

7 de jul. de 2007

Mais maravilhas

Em dia de escolha das novas sete maravilhas, não da blogosfera mas do mundo, constato que há muito por onde escolher. Se fossem os horrores, infelizmente também haveria, mas deixemo-nos disso. E os vencedores são... ora, já todos sabem quem foram, não é? Só para contrariar, e para ilustrar como as escolhas são difíceis, aqui está uma que não foi eleita:


Castelo de Neuschwanstein, em Schwangau, Alemanha



A Dulce Pontes compôs um hino interessante e aguentou-se bem à bronca com o José Carreras. Gostei de os ouvir.

No outro lado, o LiveEarth faz os possíveis para nos lembrar da Terra que queremos deixar "To our children's children's children", como referia o título de um velho (já!...) álbum dos Moody Blues.

Palavras e factos sobre Portugal, no programa das Sete Maravilhas, que nos recordam o muito que temos de bom. Sim, temos. E tanto para aproveitar, melhorar, corrigir, criar, e tão pouca vontade, tão poucas condições, tão pouco tempo... Há quem possa e não faça. Há quem queira e se veja entalado num quotidiano onde não sobra tempo para nada. Há quem consiga libertar-se, à custa de horas de descanso, e aja. São poucos, para tanto que há a realizar.

O mesmo posso dizer sobre a Terra que os nossos filhos, e não já os nossos bisnetos, encontrarão daqui a uns anos.



E mais não digo. Mudemos de onda, mas continuando a falar de maravilhas.

É tempo delas. Há quem goste, há quem deteste. Não vou dar-vos uma receita de sardinhas assadas, isso toda a gente sabe fazer! Optei por estas


SARDINHAS NO FORNO


Ingredientes para 4 pessoas:

* 8 sardinhas grandes
* 2 cebolas
* 2 dentes de alho
* 2 tomates maduros
* 1/2 dl de azeite
* 1/2 copo de vinho branco seco
* bastante salsa
* um pouco de pão ralado
* umas gotas de vinagre
* 1 colher de sopa de ervas finas
* um pouco de pimentão doce
* 1 limão

Preparação:

1. Limpar as sardinhas, tirando-lhes ou não as cabeças, conforme se preferir. Temperá-las levemente com sal e pimenta e regá-las com limão.
2. Pelar os tomates, extraír-lhes as sementes e cortá-los em pedacinhos.
3. Descascar e picar as cebolas e os alhos; misturá-los com o tomate; juntar-lhes as ervas finas.
4. Cobrir com esta mistura o fundo de um prato de cerâmica ou vidro que possa ir ao forno; dispor por cima as sardinhas, sem que fiquem unidas.
5. Regar com o vinho e algumas gotas de vinagre.
6. Polvilhar com a salsa picada e o pão ralado; regar com o azeite.
7. Levar a forno suave durante cerca de 15 minutos, regando as sardinhas, de vez em quando, com o seu molho. Retirar quando a superfície estiver ligeiramente gratinada.

E está feito. Parece-vos bem? A mim, parece. Delicioso. Por isso,

BOM APETITE, ao som de Where Have All The Flowers Gone e de Pete Seeger.

30 de jun. de 2007

As ... maravilhas da blogosfera

Quero agradecer à minha amiga Capricórnia a amabilidade de ter nomeado o meu blog para as

Fico feliz e comovido por ver que o meu espaço é apreciado por alguém cujo blogue, que frequento regularmente, é uma das minhas referências na blogo.

De acordo com o regulamento deste concurso, competir-me-ia deixar aqui as minhas sete nomeações. Não vou fazer nada disso, por absoluta impossibilidade de escolher apenas sete blogues. As minhas maravilhas da blogosfera são os espaços que visito e onde comento com regularidade e que, com as suas características próprias e o seu conteúdo diversificado, me ensinam coisas, me divertem, me contam histórias, me dão a ler prosa e poesia, me mostram belas imagens, me fazem ouvir excelente música, enfim, me mantêm preso à blogosfera numa espécie de ritual quase diário, do qual já não posso prescindir.

É desnecessário indicar os títulos desses blogues: estão bem à vista, ali na coluna da direita, sob a rubrica Outros Títulos. São todos eles uma maravilha, e espero que se mantenham vivos e de boa saúde, para minha satisfação.

25 de jun. de 2007

FRAGMENTOS: Cafés e afins por onde passei, convenientemente suspensos no tempo e no espaço para que possa visitá-los quando me apetecer.


CAFÉ TROPICAL


O Tropical era um café de casais. De casalinhos, melhor dizendo. Não sei se ainda é, nem sequer se ainda existe, e não vou preocupar-me em descobrir. Está suspenso no tempo e nos espaço, isso é que importa. Área diminuta, mesas indicadas para duas pessoas e respectivas sebentas, que o Tropical era também um café de estudo. Muitas vezes lá vi estudar futuros assistentes, professores catedráticos e, pelo menos, um Reitor.

Logo pela manhã, já havia quem aparecesse para o pequeno-almoço e uma sessão de livralhada. Mais tarde, a sagrada hora da bica, a conversa em dia, o namoro. Claro que havia mesas ocupadas só por uma pessoa, ou por três ou quatro, mas era raro. Como disse, o Café Tropical fazia-se a dois. Meia de estudo, meia de conversa, galões e tostas mistas, e assim escorria a tarde e se despovoava temporariamente o café.

A alma do Tropical era o Sr. Mário, um empregado de mesa baixinho e de cabelo muito preto, do qual o Zé Manel dizia, com certeira crueldade, que tinha um tamanho de pé igual à distância que ia do dito pé ao joelho. O Sr. Mário, omnipresente, solícito, amável, talvez mesmo em demasia, com o tempo já conhecia as preferências de cada cliente, de modo que os comes e os bebes pareciam materializar-se nas mesas, como que por milagre, ainda antes de serem pedidos. De mesa em mesa, eclipsava completamente o vago casal de donos plantado atrás do balcão, ainda que este se situasse uns dois ou três degraus acima do plano onde repousavam as mesas. Um dia alguém descobriu que o Sr. Mário jogava futebol de salão. Inimaginável! Parece que era guarda-redes, e é tudo o que posso adiantar, já que nem sequer faço ideia de quem e como descobriu o segredo.

Sento-me numa noite de Verão na pequena esplanada, a mesa preenchida sobretudo por imperiais e garrafas de cola vazias, porque o Coutinho dissera adeus à cerveja e às outras bebidas alcoólicas, mas acompanhava garbosamente os bebedores atacando cola atrás de cola. O Coutinho mais velho, que parecia ter surgido do nada na esplanada do Tropical e era, evidentemente, irmão do Coutinho mais novo, um anarca que conseguia escandalizar até os menos impressionáveis, como quando interrompeu um discurso solene numa Assembleia, pouco depois do 25 de Abril. Dizia o orador que o país estava em festa, que a Assembleia estava em festa, e o Coutinho mais novo dispara:

- Então, Sr. Presidente, estamos em festa... e não se fode???

Era meio maluco, o Coutinho mais novo. Ou parecia.

Tanto cá fora como lá dentro, as mesas eram quase sempre ocupadas pelas mesmas pessoas. Uma espécie de lugares cativos, embora às mesas da esplanada abancassem grupos maiores, que era preciso fazer render o espaço. Ali mesmo ao lado da esplanada do Piolho, onde também havia habitués, tudo isto sem grande necessidade daquilo a que, anos mais tarde, se chamaria fidelizar a clientela...

Apareciam panfletos nas mesas. Comunicados e tarjetas, que não se sabia de onde vinham, mas surgiam sempre. E também se cozinhavam lá bastantes. Por isso, regularmente, o café recebia a visita de agentes e informadores da PIDE, que era suposto passarem despercebidos, mas que todos reconhecíamos, notas fortemente dissonantes naquele ambiente quase familiar. Por essas e por outras, nem todas as noites de Verão eram calmamente passadas na esplanada do Tropical. Como aquela em que fomos a uma manif contra a guerra colonial, lá para os lados do bairro do Marechal, “Abaixo a guerra colonial, abaixo a guerra colonial!”, e vem de lá o corpo de intervenção e começa a exercer a sua função de malhar a eito, e a manif dispersa para se reorganizar um pouco mais tarde e mais adiante, em correria encabeçada por um rapaz de bóina à Che Guevara, com estrela vermelha e tudo, que quanto mais fugia, mais gritava: “Recuar é ceder, recuar é ceder!”

De bóina também entrou o Colega Bento na aula de um catedrático de extrema-direita que “as massas” decidiram boicotar. Muitas vezes subimos o passeio em frente à Associação, em amena conversa, o Colega Bento e eu. Mas, naquela manhã, ao lente não lhe terá caído bem a bóina invasora, e assim começou a invectivar o prevaricador:

- Ó meu amigo Che Guevara! ...

Não teve tempo para mais, que logo o Colega Bento lhe atirou:

- Che Guevara fosse eu, que você já não estava aqui a dar aula nenhuma!

Foi expulso da faculdade, o Colega Bento. Pois. Fora da faculdade também andou o Veiga, que um belo dia apareceu no tribunal para assistir ao julgamento de meia dúzia de manifestantes apanhados à má fila vestindo, ele Veiga, blusão e calças Levi’s vermelho vivo, complementando a fatiota com óculos escuros e... bengala!

- Ó Veiga, mas que vestimenta é essa???

- Pá, a PIDE anda atrás de mim, isto é um disfarce, que te parece?

Pareceu-me que, minutos depois, um pide se chegou ao Veiga e, com um risinho trocista:

- Então, Sr. Veiga, por aqui?

“Audácia, meus senhores, sempre audácia!” – era o lema do Veiga. De facto...

O juiz que presidia a esse julgamento era já velhote e comia uma papa qualquer durante as audiências, para gáudio do público. Às tantas só deixavam entrar estudantes de Direito, e nunca se viram tantos cartões da respectiva faculdade na mão de tanta gente, passados de dentro da sala de audiências para fora numa espécie de multiplicação divina. Dizia um advogado de defesa: “Com este juiz tem que ser assim, vénia para a direita, vénia para a esquerda, coice para ambos os lados!” Também bebia uns copitos, o advogado, mas nunca perdia o norte, apesar de chamar sistematicamente chefe ao subchefe da PSP que lá estava a fazer número de testemunha de acusação.

- Chefe não, Sr. Dr., Subchefe...

- Sr. Chefe, eu sei porque o trato assim, e o senhor Chefe também...

Soube mais tarde que o Chefe tinha sido despromovido por se espetar ao volante de um 115, de modo que o advogado de defesa lá tinha, de facto, as suas razões...

Passados largos anos, voltei ao Tropical, e quem haveria de me atender? O Sr. Mário, evidentemente. Também ele parecia suspenso no tempo e no espaço, sem sinais de envelhecimento, o cabelo sempre muito preto - quem sabe se o pintava? Para meu espanto, chamou-me pelo nome. Tratou-me como se ainda ali tivesse estado no dia anterior. E foi exactamente o que me pareceu.

17 de jun. de 2007

Palavras...


À procura das palavras


I

Subi então até à raíz do poema

e aí encontrei uma flor petrificada.

Olhei em volta, à procura das palavras

que pudesse comprar a minha sede:

- Era um deserto de nervos

Com margens de sangue

A paisagem na raíz do poema - eu.

Murmurei vagamente uma oração antiga

E quase me desfiz em pó de tanto olhar

E me arder a vista atroz, incendiada, no crepúsculo

inigualável. Silêncio e mais silêncio.


II

A água corria, corria por entre as pedras,

levava no corpo destroços de cidades,

laranjas esquecidas na penumbra,

raparigas ironicamente vestidas, vestidas de verde,

raparigas-água impressionantes, sorridentes.

A água corria e era muita e era bela. Levava

A palavra procurada, a palavra do poema

algures no corpo, recatada e mansa, talvez adormecida.

Eu sabia apenas que entretanto amanhecera.


III

Tenho sede. Ergo-me de repente e abandono

o amável leito de todos os dias. Veloz como

o navio que sabe seguro o porto, ganho

o espaço ritual que me separa de mim.

Tenho sede. O meu pulso é algo de concreto e latejante,

assim me sinto e reconheço, à procura das palavras

na raíz incandescente do poema - eu.

São de pedra as cidades, são enormes e movem-se

no ritmo lógico em torno dos meus ombros.

A flor petrificada olha-me heroicamente, meigamente,

o seu espanto é de carne rigorosa. Tem cinco pétalas

azuis emocionadas, inscritas pouco a pouco nos meus olhos

maravilhosos de ironia, incrivelmente densos.


(1978)

12 de jun. de 2007

Parabéns, Luis!

Pois é, parece que foi ainda ontem que aqui coloquei um certo post de parabéns, e eis que chegou a hora de comemorar de novo a data!

Luis, para ti um enorme abraço. Um Feliz Aniversário, mas sobretudo muitos, muitos anos felizes, a fazeres aquilo de que gostas, com as pessoas que escolheres, com alegria e saúde.

Muita música! Que essa guitarra nunca se cale e esse talento para compor cresça cada vez mais.



À falta de outras, ponho a tocar aqui ao lado a You, dos Neverend. A tua/vossa You, de que todos por cá tanto gostamos.

O restante pessoal da casa associa-se a este post e respectivo conteúdo. Estamos contigo, hoje e sempre, para o que der e vier. E que venha o que mais desejes.

Muitos, muitos beijos.

PARABÉNS!!!!!!!!!

4 de jun. de 2007

Old Friends

Simon e Garfunkel e Old Friends/Bookends, ao vivo no Central Park.
Fiquem bem.
Boa semana!



29 de mai. de 2007

29 de Maio de 2007



Flores, evidentemente. Hoje e sempre.




Com tudo.

24 de mai. de 2007

Que farei com este blog?



Enquanto os dias cavalgam soletram se riem geometricamente colocados no centro da aparente voragem viagem imagem,

enquanto os traços permanecem oblíquos e no entanto se mudam reordenam ziguezagueiam e dançam,

enquanto as coordenadas simpatizam olham de soslaio os eixos os seixos os fechos e abrem e prometem e cercam e cerram,

enquanto as cores que há se multiplicam pelos nadas e as notas das inúmeras escalas se soltam e chamam e de tudo isso parece nascer um canto uma prece um sorriso,

enquanto as palavras discretas me fogem retiram cansadas quem sabe para que vãos para que dias para que sóis e os dedos se tornam vazios de espera e quase gritam de medo,

enquanto.

17 de mai. de 2007

A sobremesa sugerida e fabricada pela Tuche!

Tarde de Frutos silvestres.

1 pacote de bolacha Maria
100 gramas de manteiga
1 pacote de natas frescas para bater
100 grs de frutos silvestres congelados (vendem-se em pacotes)

Picar a bolacha maria na 123, depois de picada juntar 100 gramas de manteiga ou margarina derretida( fica melhor com manteiga) misturar a manteiga com a bolacha e espalhar num prato a formar um monte mas alisar com as mãos.
Bater as natas até ficarem grossas e espalhar por cima da bolacha, levar ao frigorifico durantes 3 horas, depois desse tempo deitar por cima das natas os frutos silvestres previamente descongelados e voltar ao frigorifico mais 1 hora.




Limitei-me a transcrever para aqui o comentário da Tuche, a quem agradeço a receita, e a colocar uma foto. O mérito é todo dela. Tal como a Tuche, desejo-vos bom apetite, já que a tarte parece ser deliciosa.

11 de mai. de 2007

A receita desta semana...

Pronto, é sexta-feira...

Mais um fim de semana que se inicia, mais uma oportunidade, quando a há, de quebrar a rotina e passar talvez dois dias diferentes.

Por aqui também se vai quebrar a rotina de não postar (! :) e, ao mesmo tempo, uma outra: a de não publicar receitas. A última que aqui deixei já se perdeu na famosa noite dos tempos, por isso estará na altura de propor um petisco e aceitar sugestões complementares de sobremesas e vinhos.

Assim, e sem mais conversa, passemos à


PESCADA COM MOLHO DE PINHÕES

Ingredientes para 4 pessoas
* 4 postas de pescada de 150 g cada
* 2 dentes de alho
* 100 g de pinhões
* 2 tomates grandes maduros
* um pouco de azeite
* sal
* 1/2 folha de louro
* 1 limão
* salsa picada




Preparação
1. Assar sobre a chama os tomates e os alhos. Pelá-los.
2. Deitar os tomates, os alhos e os pinhões na batedeira. Triturá-los.
3. Num tacho de barro, deitar um pouco de azeite e o preparado anterior; temperar, aromatizar com a meia folha de louro e cozer em lume brando. Deixar reduzir um pouco o molho.
4. Regar com um pouco de água quente; introduzir as postas de pesacada e o sumo do limão. Colocar o tacho no forno, aquecido a temperatura média.
5. Manter no forno durante 10 minutos.
6. Ao retirar o tacho, polvilhá-lo com salsa picada e servir logo.


E é tudo. Resta-me desejar-vos bom apetite. E bom fim de semana também!

6 de mai. de 2007

6 de Maio de 2007, Dia da Mãe



Um beijo a todas as mães.