Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

14 de abr. de 2008

Regressando devagar...

... Deixo à vossa consideração este excerto do filme de 1951 "Paris é sempre Paris", de Luciano Emmer. "Les feuilles mortes", com música de Vladimir Cosma, poema de Jacques Prévert e interpretação de Yves Montand.

Boa semana!


27 de mar. de 2008

A Mancha Azul (outra versão)



A mancha azul



Altamiro olhou-se ao espelho, confirmou o penteado e ajeitou o nó da gravata de seda cinza. Gostou do resto que viu: o fato escuro de bom corte, a camisa de alvura imaculada. Estava já a voltar-se quando reparou que algo não batia certo. Passeou o olhar pelo espelho, e por fim descobriu: uma pequeníssima mancha azul no limite direito do espelho, situada exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro desviou o olhar para a camisa e observou-a com atenção. Não viu mancha nenhuma. Considerou de novo o espelho, afastando-se ligeiramente para a direita. A mancha continuava no mesmo sítio, mas parecia-lhe agora um minúsculo sorrizo azul. Disfarçado de mancha. Já um tanto irritado, recuou três passos e fitou o espelho. O sorriso lá estava. Girou cento e oitenta graus sobre o pé direito, fez uma pausa de três segundos e completou o círculo. Quando levantou os olhos, lá estava a mancha. No mesmo ponto rigoroso.

Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.

Altamiro levantou-se e saíu. A paragem ficava quase em frente. Atravessou a rua mesmo a tempo de apanhar o quarenta e seis e sentou-se no primeiro lugar vago que se lhe deparou. Notou ao lado a presença de um companheiro de viagem habitual, com quem nunca falara. Provavelmente, era também uma pessoa reservada. Deixando-se embalar pelo movimento sincopado do autocarro, Altamiro recostou-se no assento e suspirou. Fechou os olhos e concentrou-se na escuridão, preparado para o trajecto até à baixa. Não excessivamente longo, aliás.

No escritório, o dia correu normalmente. Já perto da hora de saída, foi lavar as mãos e dar a penteadela do costume. E tudo voltou. No limite direito do espelho. Ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro considerava a possibilidade de verificar a camisa quando viu entrar o Bráulio, da Contabilidade. Arriscou uma olhadela furtiva à camisa do colega, através do espelho. Era azul, a camisa. Altamiro desesperou. Ficou a olhar para dentro, e quando o outro já saía, ainda arriscou:

- Ó Bráulio...
- Sim?
Altamiro hesitou.
- Nada, não é nada. Deixa estar...

O colega desapareceu pela porta, com um sorriso que lhe pareceu de piedade. Ou talvez escarninho. Altamiro respirou fundo, esperou cinco segundos e seguiu-o, passou pela secretária, confirmando que deixara tudo em ordem para o dia seguinte, e correu pelas escadas abaixo, evitando o espelho do elevador. Lá fora chovia a cântaros, e foi um Altamiro bastante molhado que entrou no 46, agora em sentido inverso, rumo ao conforto da casa.

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Acordou no sofá da sala, banhado em suor e com a cabeça latejante de dor. O que primeiro viu foram os sapatos. Pretos, evidentemente. O olhar de Altamiro subiu lentamente pelas calças, pelo casaco, pela camisa branca... e foi aí que a mancha azul lhe veio à memória ainda enublada. Algo incomodado, demorou o olhar na camisa, mas da mancha nem sinal. Nada de que se admirar. Nunca estivera na camisa, recordou.

A dor de cabeça clamava insistentemente por café e aspirinas. Com alguma dificuldade, Altamiro levantou-se e quase cambaleou até à cozinha. A preparação do café era uma espécie de ritual feito de gestos maquinais, por isso não teve qualquer dificuldade em colocar a água na parte inferior da velha cafeteira italiana, depositar o pó de café no filtro na medida exacta, enroscar a cafeteira e colocá-la ao lume. Minutos depois, saboreava um café forte e generosamente açucarado, e o dia começava a desanuviar-se-lhe no cérebro. No pequeno visor iluminado do rádio-relógio colocado sobre o frigorífico leu distintamente MAY 26 SUN 17:28. Era, então, domingo?

Desenrolou-se-lhe naturalmente, como se fosse um filme a preto e branco, a memória da noite anterior, e Altamiro percebeu que dormira umas boas doze horas. E que sonhara. Começou então quase inconscientemente a separar o sonho da realidade, como quem separa as claras das gemas: Não os preparativos para o trabalho, mas o aprontar-se para uma saída nocturna; não o quarenta e seis para o escritório, mas o táxi para o restaurante; não a jornada de trabalho, mas a noitada nos bares; não o Bráulio da Contabilidade, mas os amigos dos copos; não o autocarro de regresso a casa, mas o carro de alguém que o trouxera e o deitara no sofá, presumivelmente por ter bebido demais. O Ezequiel, era isso, fora o Ezequiel que o trouxera a casa. Por isso adormecera no sofá, de fato e gravata e tudo. Altamiro apenas se permitia aquelas farras aos sábados à noite, o que lhe confirmou que, de facto, era domingo. Recordou depois a manhã do dia anterior, passada a dormir, a tarde a ver futebol na televisão... Precisamente! Nada de mancha azul, apenas um sonho, um estúpido pesadelo! Qual mancha azul sorridente, qual história! Por falar em história, até que era uma bem interessante para contar aos amigos no sábado seguinte.

Bebeu um longo gole de café, aliviou o nó da gravata e considerou que, realmente, dormira demais. Coisas da ressaca. Altamiro sorriu, mas a dor de cabeça continuava a pedir-lhe aspirina. Com a caneca na mão e um sorriso nos lábios, dirigiu-se à casa de banho. O sorriso foi-se-lhe abrindo cada vez mais, enquanto estendia a mão para a porta do armário onde guardava medicamentos, artigos de higiene e miudezas diversas.

Estranhamente, no rosto que a porta espelhada lhe devolveu não havia sorriso algum. Altamiro estremeceu, e o olhar desceu-lhe, lenta mas inexoravelmente, pela superfície do espelho, até encontrar uma pequeníssima mancha azul, no seu limite direito, exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca.

A mão esquerda de Altamiro continuou a segurar a caneca de café, mas o punho direito saíu-lhe disparado, como se tivesse vontade própria, em direcção ao espelho, perfurando-o e fazendo saltar estilhaços e gotas de sangue em todas as direcções. Só parou quando encontrou o fundo do armário, onde se quedou prisioneiro da fúria e de cacos brilhantes. Enraivecido, Altamiro nem sentiu a dor. Os olhos procuraram-lhe instintivamente um certo fragmento do espelho. Estava intacto, e revelava-lhe agora uma série de manchas vermelhas, que começavam a escorrer pela alvura da camisa. No meio delas, exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa que fora branca, a mancha azul permanecia, incólume e sorridente.

- Boa tarde, Altamiro! – disse a mancha azul.

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Leontino abriu os olhos, desligou o televisor com um gesto de enfado, acendeu um cigarro e estendeu a mão direita para o copo de uísque convenientemente colocado na mesinha de apoio ao sofá. Verificou que ainda tinha gelo suficiente. Essa agora! Um filme sobre um idiota com o estranho nome de Altamiro, que até metia manchas azuis que sorriam e falavam!? Ou ter-se-ia deixado vencer momentaneamente pelo sono, e sonhara tudo aquilo? Ou teria sonhado o filme? Fosse como fosse, não iria perder mais tempo com disparates! Sacudiu as dúvidas e a cinza do cigarro com o mesmo gesto decidido, bebeu um bom gole e encetou a agradável tarefa de escolher o restaurante onde jantaria nessa noite. Enquanto pesava prós e contras, no gostoso exercício de antecipar iguarias e vinhos de boas colheitas, ergueu o copo contra a lâmpada do candeeiro, deliciando-se, como sempre, com o pequeno e cintilante espectáculo dos cubos de gelo no meio do líquido dourado, num contra-luz esbatido pelo fumo do cigarro, que nunca se cansava de admirar. Pareceu-lhe notar, no meio de um dos cubos de gelo, um reflexo azulado. Sem pensar duas vezes, Leontino engoliu de um trago o resto da bebida, apagou o cigarro, levantou-se e caminhou apressadamente em direcção à casa de banho, a fim de dar os últimos retoques ao visual.


19 de mar. de 2008

Dia do Pai



Feliz Dia do Pai!!

Querido Pai:
Decidimos repetir a graça e deixar-te esta pequena surpresa no teu Blog.

Pelas tuas mãos continuamos a descobrir o Mundo...

Dia a dia... passo a passo... música a música...





Esperamos que tenhas gostado.
Muitos beijinhos dos teus filhos,

Luis e Renata.



14 de mar. de 2008

Me queda la palabra...Paco Ibañez no Olympia




Bom fim de semana para todos!

11 de mar. de 2008

Socrática

Sócrates, o filósofo que nada sabia: "Só sei que nada sei".
Sócrates, o engenheiro que tudo sabe: "O que me convence não é a força dos números, é a força da razão."

Esta frase grandiloquente do Primeiro-Ministro poderá até ter passado, perante os mais desprevenidos, por uma boa resposta à manifestação de professores contra a política educativa do Governo realizada em Lisboa no passado dia 8. É sempre bonito argumentar com a
força da razão.






Fico, porém, com três pequenas dúvidas:


1.
Quando de futuro José Sócrates ou qualquer membro do seu Governo vierem atirar-nos, como é hábito, com NÚMEROS sobre o crescimento económico, o défice, os impostos, a Função Pública, o Orçamento, a Saúde, a Educação, o investimento, o emprego ou o desemprego... e por aí adiante..., QUE CREDIBILIDADE PODERÃO TER? Afinal, são apenas números...





2.
Estiveram cerca de 100 000 professores na manifestação. Pessoas, creio... Será que o Primeiro-Ministro confunde pessoas com números, ou com um número? Será que as pessoas, os cidadãos, no exercício do seu direito constitucional de se manifestarem, nada lhe dizem?






3. E se os professores que estiveram na manifestação, como os professores em geral, tiverem também a força da razão? É sempre uma hipótese, que um Primeiro-Ministro de Portugal não deveria sacudir de forma tão leviana... ou deveria?


P.S.: Segundo as últimas notícias, as negociações entre a FENPROF e a Ministra da Educação já recomeçaram... Afinal, parece que a força dos números convenceu... ou terá sido a força da razão? Ou ambas? :)

7 de mar. de 2008

A mancha azul a várias mãos

Um dos desafios a que respondi foi transformado pela LOLA noutro desafio: a continuação do texto de que publiquei apenas uma pequena parte já escrita (ver dois posts abaixo, "Desafios").
Eis o resultado das respostas ao desafio, sendo que o texto pode considerar-se concluído, mas pode igualmente considerar-se aberto a novas continuações. Quem colaborou teve esse mérito.


A mancha azul

Altamiro olhou-se ao espelho, confirmou o penteado e ajeitou o nó da gravata de seda cinza. Gostou do resto que viu: o fato escuro de bom corte, a camisa de alvura imaculada. Estava já a voltar-se quando reparou que algo não batia certo. Passeou o olhar pelo espelho, e por fim descobriu: uma pequeníssima mancha azul no limite direito do espelho, situada exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro desviou o olhar para a camisa e observou-a com atenção. Não viu mancha nenhuma. Considerou de novo o espelho, afastando-se ligeiramente para a direita. A mancha continuava no mesmo sítio, mas parecia-lhe agora um minúsculo sorriso azul. Disfarçado de mancha. Já um tanto irritado, recuou três passos e fitou o espelho. O sorriso lá estava. Girou cento e oitenta graus sobre o pé direito, fez uma pausa de três segundos e completou o círculo. Quando levantou os olhos, lá estava a mancha. No mesmo ponto rigoroso.

Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.

Altamiro levantou-se e saíu. A paragem ficava quase em frente. Atravessou a rua mesmo a tempo de apanhar o quarenta e seis e sentou-se no primeiro lugar vago que se lhe deparou. Notou ao lado a presença de um companheiro de viagem habitual, com quem nunca falara. Provavelmente, era também uma pessoa reservada. Deixando-se embalar pelo movimento sincopado do autocarro, Altamiro recostou-se no assento e suspirou. Fechou os olhos e concentrou-se na escuridão, preparado para o trajecto até à baixa. Não excessivamente longo, aliás.

(A continuação da Lola)

Caminhou na sua marcha regular, de passos rítmicos, na postura elegante do costume.
Olhou para a montra, à sua esquerda, mas não viu os modelos que se alinhavam nas poses estranhas, habituais. Ficou petrificado a olhar para a mancha azul a sorrir-lhe descarada. Experimentou deslocar-se, mas a mancha, teimosa, movia-se com ele. Perturbado, acelerou o passo, a afastar-se o mais possível da imagem provocadora.
Entrou no Banco 3 minutos depois das 08.00h e enfrentou o olhar surpreendido dos colegas: Era sempre o primeiro a chegar. Dirigiu-se, cabisbaixo, à secretária e ligou o computador: Já temia encontar a mancha azul à sua espera e ela não o desiludiu.
Procurou a caneta Mont Blanc modelo Greta Garbo de que tanto gostava, e finalmente descobriu: a imagem sorridente, azulada, era o reflexo da pérola na ponta do clip que segura a caneta, que, inadvertidamente, guardara no lugar do lenço...

(A continuação da Nnannarella)

Inesperada, porém, fora a forma como reagira à descoberta: ter deslindado a estranha ocorrência deixara-o como que prostrado numa indefinível e desconfortável sensação de vazio. Afinal, a alegada mancha azul modificara-lhe a manhã; mas, afinal, não era nada de extraordinário que lhe mudasse realmente a ordinária e ordenada vida : não passava de um reflexo.
A colega de turno, ao lado, reparara na sua apatia. Ouviu-a perguntar se se sentia bem. Manteve-se calado, sem o menor estremecimento, adivinhando-lhe os lábios e as unhas cor de sangue de boi, os brilhozinhos e as maçãs do rosto salientes pela magia das sombras duplas. Mais reflexos.
Àquela hora, projectava-se sobre a gigantesca vidraça o halo luminoso de um sol a crescer. Percurso breve, pois que os prédios em frente cedo cerceariam o reflexo da estrela.
Apercebeu-se do burburinho em volta, cochichos, olhares de soslaio, clientes que se dirigiam à saída olhando constrangidos para trás, para ele, estático, dorso aprumado, olhos fixos na glacial solidão de um ecrã onde dali a pouco se reflectiriam as gigantescas memórias de um computador.

(A continuação da Vanda)

Por fim, tentando aparentar o seu ar eficiente e pró-activo de todos os dias, carregou com o indicador direito no velho e já desgastado botão do computador e alisando a gravata, sentou-se...
... Digitou a password e enquanto distraído, olhava para o programa informático onde lançava os cheques sem provisão, repentinamente percebeu que enquanto acreditou estar a ser alvo de uma mancha azul, a vida lhe tinha parecido bem mais surpreendente e vibrante!
Agora que o mistério tinha sido desmitificado...o dia parecia-lhe mais pobre...
Até o sol já cerceado pelos prédios, o tinha abandonado...
Suspirou, introduziu mais um código e pensou: dê lá por onde der, preciso de um novo azul na minha vida...
Na véspera, já tarde, tinha estado num chat e alguém usava o nick "azul infinito"... sorriu.


Muito obrigado por terem aceite o desafio que, repito, continua em vigor...


2 de mar. de 2008

Desafios (continuação)

Isto de desafios tem que se lhe diga...

Houve, surpreendentemente, quem respondesse a ambos os desafios que passei, apesar de eu próprio não lhes ter respondido da forma habitual...

Reconheço mesmo que a minha resposta ao desafio da MJF foi demasiado críptica, e vou emendar isso neste mesmo post, talvez agora, talvez em aditamento - o tempo é que manda.

Entretanto, já destaquei no texto apresentado no post anterior DOZE PALAVRAS DE QUE GOSTO. Não posso dizer que sejam as minhas palavras favoritas, porque não tenho doze palavras preferidas, nem mesmo uma: tudo depende do texto, do contexto, do momento, da disposição, enfim, de muitos pequenos pormenores e factores, e creio que o mesmo se passará com toda a gente. Porém, naquele texto, a Nnann Arella Musashi quase acertou nas doze palavras de que mais gosto, daí que onze das palavras que escolheu façam parte das que assinalei.

O meu muito obrigado a quem respondeu aos desafios e, já agora, atenção a este interessante desafio inventado pela LOLA, que passo a transcrever:

(..... O teu texto está.....) Cheio de potencialidades e de desafios à nossa imaginação...
Sugiro que o abras á participação dos Amigos(as) que por cá passam e vejamos todos o resultado.
E eis como transformo o teu desafio noutro...:)))

E agora? Quem pega neste desafio???? Eu vou pegar... :) Mas convido todos a tentarem dar uma sequência ao texto, ou ideias para a dita.

Segue-se uma resposta mais adequada ao desafio da MJF:

Se eu fosse um mês seria... Abril
Se eu fosse um dia da semana seria... sábado
Se eu fosse um número seria... de circo
Se eu fosse um planeta seria... distante
Se eu fosse uma direcção seria... Geral
Se eu fosse um móvel seria... uma escrevaninha
Se eu fosse um liquido seria... água
Se eu fosse um pecado seria... original
Se eu fosse uma pedra seria... leve
Se eu fosse um metal seria... prata
Se eu fosse uma árvore seria... uma micaia
Se eu fosse uma fruta seria... oferecido em cestas
Se eu fosse uma flor seria... um cravo
Se eu fosse um clima seria... de inquietação
Se eu fosse um instrumento musical seria... uma guitarra
Se eu fosse um elemento seria... perturbador
Se eu fosse uma cor seria... vermelho
Se eu fosse um animal seria um... um gato
Se eu fosse um som seria... o da guitarra de Jimi Hendrix ou de Paco de Lucia
Se eu fosse uma canção seria... Song for the asking
Se eu fosse um estilo de musica seria... difícil de escolher
Se eu fosse um perfume seria... discreto
Se eu fosse um sentimento seria... impossível
Se eu fosse um livro seria… um tratado
Se eu fosse um lugar seria ... imaginário
Se eu fosse um gosto seria... a sal
Se eu fosse um cheiro seria… a chuva
Se eu fosse uma palavra seria… palavra
Se eu fosse um verbo seria... no princípio
Se eu fosse um objecto seria… infeliz
Se eu fosse uma peça de roupa seria... sobretudo
Se eu fosse uma parte do corpo seria… as mãos
Se eu fosse uma expressão seria… algébrica
Se eu fosse um desenho animado seria… o Papa-Léguas
Se eu fosse um filme seria… de Fellini
Se eu fosse uma forma seria… a de juntar palavras
Se eu fosse uma estação seria… ferroviária
Se eu fosse uma frase seria… “O fortunatos nimium, sua si bona norint, agricolas!”, logo seguida por “Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é este castelo?”

24 de fev. de 2008

Desafios...

Por princípio, não os aceito. Nada que possa implicar passagem de testemunhos, correntes, cadeias. Com uma ou outra excepção, admito. Vem isto a propósito de dois desafios que me foram recentemente lançados pela GI e pela MJF.

O primeiro consiste em escrever um texto do qual constem as minhas 12 palavras favoritas (assumo que se trata das palavras em si, e não do seu significado, senão todos escolheríamos coisas como Amor, Paz, Liberdade, e etc..., e onde caberiam palavras como sobressaliência, gotícula ou até mesmo arco-íris?)

O segundo propõe-me dizer o que seria eu, se fosse... por exemplo, se eu fosse um mês, seria...

Para encurtar razões, os desafios e as respostas podem ser encontrados neste belo texto da GI, e nesta resposta muito interessante da MJF. Convido-vos a lerem ambos os posts, porque valem a pena, e para que a minha resposta faça algum sentido...

Resolvi simplesmente fintar estes desafios, mas de modo algum ignorá-los. Deixo aqui um texto que escrevi, o princípio de uma história ainda por acabar, e não é por acaso que o ponho aqui assim mesmo, mas porque não quero dar-vos uma história: apenas palavras, para que, em resposta ao desafio da GI, possam escolher as 12 que, pela sua colocação no texto, ou pelo que muito bem vos parecer, entendam que me agradam mais; e para que, respondendo ao desafio da MJF, descubram o que eu seria se fosse aquelas coisas todas que constam do post que acima referi...

A mancha azul

Altamiro olhou-se ao espelho, confirmou o penteado e ajeitou o nó da gravata de seda cinza. Gostou do resto que viu: o fato escuro de bom corte, a camisa de alvura imaculada. Estava já a voltar-se quando reparou que algo não batia certo. Passeou o olhar pelo espelho, e por fim descobriu: uma pequeníssima mancha azul no limite direito do espelho, situada exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro desviou o olhar para a camisa e observou-a com atenção. Não viu mancha nenhuma. Considerou de novo o espelho, afastando-se ligeiramente para a direita. A mancha continuava no mesmo sítio, mas parecia-lhe agora um minúsculo sorriso azul. Disfarçado de mancha. Já um tanto irritado, recuou três passos e fitou o espelho. O sorriso lá estava. Girou cento e oitenta graus sobre o pé direito, fez uma pausa de três segundos e completou o círculo. Quando levantou os olhos, lá estava a mancha. No mesmo ponto rigoroso.

Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.

Altamiro levantou-se e saíu. A paragem ficava quase em frente. Atravessou a rua mesmo a tempo de apanhar o quarenta e seis e sentou-se no primeiro lugar vago que se lhe deparou. Notou ao lado a presença de um companheiro de viagem habitual, com quem nunca falara. Provavelmente, era também uma pessoa reservada. Deixando-se embalar pelo movimento sincopado do autocarro, Altamiro recostou-se no assento e suspirou. Fechou os olhos e concentrou-se na escuridão, preparado para o trajecto até à baixa. Não excessivamente longo, aliás.

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À MJF e à GI: agradeço a amabilidade de me terem escolhido, e espero que a minha resposta esquisita vos não tenha desiludido demasiado...

A passagem dos desafios, pois... se os não aceito, também não os passo. No entanto, as primeiras ONZE pessoas que leiam este post e queiram escrever um texto com as suas 12 palavras preferidas, façam o favor... e as primeiras NOVE pessoas que queiram dizer o que seriam se fossem, idem aspas...

16 de fev. de 2008

A propósito

de um post publicado no blog Em Banho Maria da minha amiga MJF (cuja visita recomendo vivamente), e da frase de Descartes nele citada:

"Despreza-se um homem que tem ciúmes da mulher, porque isso é testemunho de que ele não ama como deve ser, e de que tem má opinião de si próprio ou dela".

e de o ciúme ser uma coisa boa ou má, e de se ser ou não ciumento,

ocorreram-me várias frases, citações, pequenas histórias. A primeira citação deixei-a lá, no comentário, mas vou repeti-la aqui:



Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra!
(mais ou menos o que, de acordo com o Evangelho segundo S. João, Jesus Cristo terá dito, mas não acerca de ciúmes... )




Depois veio-me à ideia aquele célebre verso de Álvaro de Campos:

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada."
Pois. Eu também nunca conheci quem se confessasse ciumento(a)...

Logo de seguida, duas daquelas deliciosas histórias curtas de Woody Allen, que cito de memória, sem qualquer preocupação de lhes conservar a forma, mas com total respeito pelo conteúdo.


A primeira refere-se ao medo do oculto, da solidão, do escuro, do desconhecido:



Quem de entre nós, sentado no sofá da sala, sozinho, a altas horas da noite, não sentiu já uma mão gelada poisar-se-lhe na nuca, arrepiando-o de pavor? Eu não, mas há quem tenha!

Porque me terá ocorrido esta história, a propósito de se ser ou não ciumento? Vá-se lá saber!...







A segunda já tem a ver com o
curioso trecho da citação de Descartes que fala de amar como deve ser:

Que qualidades deve então ter um bom amante? Considera-se geralmente que um bom amante deve ser simultaneamente terno e forte. Mas forte até que ponto? Há quem defenda que deve ser capaz de levantar, pelo menos, um peso de cem quilos.


Assunto resolvido!











Termino
a minha superior abordagem deste tema com a sabedoria popular plasmada nestes versos de uma canção do saudoso cómico brasileiro Grande Otelo (na foto, com muita pena de não ter conseguido encontrar o vídeo com a interpretação da canção):


A muié da gente
A muié da gente
É a muié da gente.
A gente briga por causa
Da
muié da gente.
A gente briga por causa

Da muié dos outro também,
Mas a
muié da gente
A gente não dá

P'ra ninguém.
Não dá, não!


7 de fev. de 2008

Charles Aznavour

Charles Aznavour interpreta a sua canção favorita - Sa Jeunesse. E Hier Encore como bónus.


26 de jan. de 2008

A Receita da Semana

Reatando uma quase tradição do blog, ei-la que regressa, a Receita da Semana. Espero que vos agrade.


Frango embrulhado com aipo

Ingredientes para 4 pessoas
* 1 frango de 1,5 Kg aprox.
* 4 alhos-franceses
* 4 cenouras
* 4 nabos
* 1 bolbo de aipo
* 1 limão
* sal
* pimenta




Preparação
1. Aquecer o forno a 190º C.
2. Limpar o frango, chamuscá-lo e cortá-lo em quartos
3. Descascar as verduras e cortá-las em lâminas; descascar e ralar o aipo
4. Preparar 4 folhas de papel de alumínio; colocar um quarto de frango em cada uma delas
5. Distribuir por cima as verduras, um pouco de aipo, regar com sumo de limão e temperar com sal e pimenta
6. Fechar os embrulhos cuidadosamente e introduzi-los no forno já quente durante cerca de 30 minutos
7. Servir em seguida dentro da folha de alumínio.



E pronto. BOM APETITE e, se quiserem, contribuam com as vossas sugestões para bebidas e sobremesas. Serão sempre bem-vindas.


***

E a primeira contribuição vem da Gi, a quem agradeço esta sobremesa:

Sugestão para a sobremesa. gelado que não é gelado de Limão :)

2 chávenas de água, 1 chávena de açúcar, 0,25 l de leite, 5 colheres sopa farinha Maizena

Juntar tudo a frio e levar ao lume +- 2 min para cozer a farinha. deixar arrefecer e juntar sumo de um limão e 2 claras em castelo. vai ao frigorífico em forma untada de óleo.

Molho 0,5 kg morangos, 125 grs acúcar, 1 cálice vinho porto. Triturar (costumo coar a seguir)

Ao servir regar com o molho que deve estar bem frio

(tenho uma forma que tem um buraco em cima com um desenho costumo enchê-lo com parte do molho que vai escorrendo pelo branco do doce. Visualmente é muito bonito)

Não há nada mais fácil.


***

À Mariatuché agradeço esta sobremesa:

BOLO de CHOCOLATE
MOUSSE DE CHOCOLATE
GELADO DE BAUNILHA (comprei)

Bem o meu bolinho de chocolate é muito simples e rápido.
Pode ser feito tanto em forma redonda como numa quadradinha, de preferência com fundo anti aderente.

1 tablete de chocolate
6 ovos
3 colheres de sopade açucar( eu uso amarelo)
4 colheres de sopa de farinha

Derreter o chocolate com 2 colheres de manteiga ou em banho maria ou no microondas, à parte separar as gemas das claras e bater as claras em castelo, depois juntar ao chocolate já derretido com a manteiga.
Levar à forma untada e com farinha, o segredo é levar ao forno bem quente mas não deixar mais de 15 minutos e a forma tapada com prata.

Depois fazer a Mousse conforme a receita existente, cada pessoa tem o seu jeito de fazer mousse de chocolate, tem é que estar bem fresca.
Serve-se com o bolo bem quente, mousse em cima e gelado de baunilha ao lado.


***

É da Lola a salada fresquinha que se segue. Obrigado, Lola!

Ingredientes para 4 pessoas


.1 toranja grande e sumarenta (250 g limpos)
.2 abacates (250g limpos)
.2 kiwis (200g limpos)
.100g de cogumelos
.1 pé de aipo (só a parte branca)
.4 rábanos
.folhas de alface
.molho vinagrete para temperar

Preparação:

1. Lavar e cortar a alface e o aipo
2. Descascar a toranja, tirando toda a pele branca; cortá-la em pedaços pequenos. Descascar o kiwi e fazer o mesmo.
3. Descascar os abacates e cortá-los em rodelas finas.
4. Lavar os cogumelos e os rábanos e cortar em laminas finas.
5. Colocar todos os ingredientes numa saladeira, regar levemente com molho vinagrete e mexer delicadamente. Servir imediatamente.


A fechar o post, uma entrada que agradeço à Nnannarella:

Metadinhas de pêssego em calda, bem escorridas, que serão recheadas com atum (enlatado, do que consideremos melhor ao nosso paladar), previamente esmigalhadinho, de tal forma que quase parece paté.
Por cima, cubra-se de maionaise e, finalmente, polvilhe-se de salsa q.b.
Deverão repousar as metadinhas no frigorífico algum tempo, para serem degustadas frescas.
Além de saborosa (bem... logo me dirás, se te atreveres...), é uma entrada bonita de olhar, por causa das cores.
Não sei o nome, mas inventa-se já. Por exemplo: "frutos de atum, aconchegados de maionaise e salsa".

Como já passaram alguns dias, digo novamente: Bom apetite!

18 de jan. de 2008

Divirtam-se!

Bom fim de semana!





E fiquem com esta verdade de Einstein:


"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta."


* * *



ADITAMENTO: Muito obrigado à MJF, do blog "Em Banho Maria", por me ter gentilmente agraciado (hehe) com o prémio que aqui orgulhosamente mostro!

E muito obrigado à Vanda, do Over and Out, pela pérola da pulseira com que me distinguiu, prémio que me comoveu.

Como é meu hábito, atribuo estes prémios aos meus companheiros de blogagem, que todos os merecem.

11 de jan. de 2008

Para um bom começo de ano,

a "You", dos Neverend.

E um poema para a Lola, com um beijo, porque este ano começou bem e vai continuar ainda melhor :)




O indizível

Não há como dizer o indizível.
Mais do que gastas, estão ocas as palavras,
Ricocheteiam, riem-se de mim,
Secam-me os lábios, estalam-me no peito.
Abro os braços de impotência e de ternura,
Fecho os olhos, procuro... e sinto o sal
Marcando a ferro quente um rosto estranho,
Um eu que não sou eu nem sei quem é,
E seja quem for, que importa? Nada importa
Até que do silêncio obscuro a tua voz
Me envolve o corpo em música de luz,
Da poeira nascem minúsculas estrelas
E eu estendo os braços, alcanço-te e respiro,
E em ti me sei, me reconheço, vivo.

(9 de Janeiro de 2008)

7 de jan. de 2008

Para Luiz Pacheco

Chamaram-me cigano (José Afonso, versão dos Resistência)






"Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves... Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira estranha, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!"

in "Comunidade" (Ed. Contraponto, 1964)

28 de dez. de 2007

Como o Natal já lá vai....



Feliz Ano Novo, Cristina, que me pegaste o vício da blogagem :) !
Feliz Ano Novo, Capricórnia, que desapareceste, mas que andarás por aí!
Feliz Ano Novo, Cila "a la long" das simbologias!
Feliz Ano Novo, mana Alien DS!
Feliz Ano Novo, Bandida, e mais bons poemas!
Feliz Ano Novo, Easy, raramente visto :)
Feliz Ano Novo, Nnannarella di Napoli :) e Senhora Musashi!
Feliz Ano Novo, Mar!
Feliz Ano Novo, MJF "em banho maria"...!
Feliz Ano Novo, EMN, também raramente vista!
Feliz Ano Novo, Figas, ex-Futbloguês e sempre "nephew"!
Feliz Ano Novo, Parrot, também quase desaparecido, mas que não esqueço!
Feliz Ano Novo, Mariatuché, e muita força!
Feliz Ano Novo, Mocho Falante das viagens!
Feliz Ano Novo, Pérola raríssima de se ver :) !
Feliz Ano Novo, Belzebu, infernal humorista!
Feliz Ano Novo, Rosalina "porque me pediram" :) !
Feliz Ano Novo, Vanda, que não há meio de voltar de vez!
Feliz Ano Novo, José das paletes!
Feliz Ano Novo, Gi, dos Pequenos grandes Nadas!
Feliz Ano Novo, Isabel, que escreves num piano :) !
Feliz Ano Novo, Pêndulo, sempre regular - ou talvez não :) !
Feliz Ano Novo, Caracolinha e restante bicharada :) !
Feliz Ano Novo, Sónia, Pinto Ribeiro e Bernardo Kolbl!
Feliz Ano Novo, Teresa, David, Chip, Rufus :) e demais pessoal de 2 ou 4 patas!
Feliz Ano Novo, Wind dos fotopoemas!

Se omiti alguém da minha lista ali da direita, é como se também aqui estivesse referido.

Feliz Ano Novo a todos os que visitaram e comentaram este blog.

Que continuemos juntos na blogosfera durante o próximo ano, e que ele nos traga paz, saúde, alegria e inspiração, entre muitas outras coisas que podemos e devemos desejar :)

23 de dez. de 2007

A todos...




FELIZ NATAL!!!

18 de dez. de 2007

PARABÉNS, RENATA!!!

Feliz Aniversário,

com tudo e todos os que quiseres!




E muitos beijinhos.

14 de dez. de 2007

FRAGMENTOS: Cafés e afins por onde passei, convenientemente suspensos no tempo e no espaço para que possa visitá-los quando me apetecer.

Este texto é hoje especialmente dedicado à LOLA. Hoje, dia do seu aniversário. Por completar mais um aninho, mas também por várias outras razões que ela bem conhece, algumas das quais, curiosamente, se prendem com o dia seguinte :)

Parabéns, LOLA! Feliz aniversário, um óptimo ano e muitos beijos!




CAFÉ EUROPA

Pá, topa-me a Car a rachar lenha, a gaja está p’ráli há mais de meia hora e parece que cada vez dá mais força ao machado,

era um espectáculo a partir lenha, a Carmelinda, Car por diminutivo carinhoso, rapariga dos seus 15 anos, baixinha e forte, vinda lá das serranias

Aquilo é só saúde, pá, mas é um bocadito p'ró gordo, não

Jorge, de gorda não tem ela nada, é mas é forte,

a Car tinha realmente uma força impressionante, quando as bolas ficavam presas nos matraquilhos chamávamos a Car e ela levantava a mesa em dois pés e aplicava-lhe um tal safanão que a traquitana cuspia as bolas como se tivesse sido atingida por um raio

E olha que andava lá perto, olha que andava lá perto,

e ficava depois a mirar-nos vitoriosa, consciente da proeza e da nossa admiração, como se dissesse quatro gajos, ou dois gajos e duas gajas, que elas também jogavam, e nem sempre à defesa como era costume, e não são capazes de fazer o que eu fiz,

E olha que não éramos,

ali no pátio onde rachava a lenha, onde jogávamos matraquilhos, onde passávamos para chegar à sala das flippers

Lembras-te das horas que conseguíamos jogar à pala dos bónus,

Se me lembro, pá, se me lembro, suma bónus, éramos verdadeiros profissionais das flippers,

ali no Café Europa, que também tinha salão de bilhares e pensão no primeiro andar, que tanto dava para veraneantes como para caixeiros de passagem como para encontros de uma ou mais horas, que tinha sido casino nos tempos áureos, com mesas de póquer e jogadores da casa e tudo, que congregava ainda gente de diferentes naipes à volta das mesas com tampo marmoreado, bica e serração, que é como quem diz conversa pelo simples gosto da conversa, falar sobre tudo e nada, um pouco de má-língua à mistura, sem más intenções, claro, e conhecermo-nos cada vez melhor, aquilo a que também se chamava rendimento, o pessoal ficava a render por dentro das noites e pronto

Olha, lá vem o Lobão com os Três Porquinhos,

o Lobão era na realidade o Corvo-Mor, rapaz para os seus vintes que vestia invariavelmente de preto, a condizer com o cabelo, autêntico precursor do estilo gótico de vestir, donde o Corvo-Mor, os porquinhos três irmãs de nariz assim para o arrebitado, digamos piggy nose, ora o Corvo-Mor namorava uma das manas e andava sempre com as três, logo a promoção a Lobão passando no picadeiro provavelmente em direcção à praia

Vai um snooker?

que era como chamávamos ao jogo do eight-ball, apesar dos cartazes afixados mesmo acima dos marcadores, Regulamento do Jogo de Bilhar Eight-Ball, e ia um snooker sim, ou um bilhar francês ou até mesmo um sargento, em que uma das bolas de bilhar era substituída por um pino com que se tinha de carambolar

O Xavier é que joga disto, caraças,

Pois o Xavier,

mas o isto era já o bilhar às três tabelas, havia uma única mesa, grande, bem tratada, às vezes apareciam uns craques a nível nacional, só que o Xavier era da casa e podíamos admirá-lo quando vinha a terra, andava nos barcos e era genro do Daniel, o dono do Café Europa, o Daniel que tinha um olho de vidro e por isso dizia o Duarte

O Daniel tem olho para o negócio,

o Duarte encostado à ombreira exterior da porta do Europa, a perna direita flectida e a sola do sapato clássico apoiada na parede

Então, Duarte, sempre preparado para qualquer eventualidade

Sempre preparado,

Podia imaginar quais fossem as eventualidades, mas nunca consegui perceber em que consistiria a preparação, não certamente o preparado de que anos mais tarde falaria o Teixeira, no terceiro andar do prédio do Imperial, e tinha mesmo olho para o negócio, o Daniel, conseguia manter o complexo café-restaurante-pensão-bilhares-matraquilhos & flippers com algum lucro, até deu para renovar a fachada, e tudo isso com o gigante Nicola ali ao lado, que não tinha pensão mas sim a finesse da Albergaria onde ficavam as bailarinas e turistas de mais posses, não tantas que dessem para os grandes hotéis e coisas assim, o complexo Café Europa onde ainda se jogava póquer, mas de dados

Fúlen outra vez, pá, que mijado

Mijado o caraças, é preciso saber atirá-los

os dados, nove pintas pretas, dez pintas vermelhas, valete J verde, dama Q azul, rei K vermelho e mais os Ases iguais aos ases de espadas dos baralhos de cartas que já não se jogavam no Europa, onde entretanto

Chegou o Django, lá vem o gajo direito à nossa mesa,

Django por causa do chapéu preto e do poncho preto, Django e não Zorro, poncho e não capa, diferenças significativas, o Django sentava-se à mesa, avaliava os circunstantes, escolhia a vítima e

Pá, alinhas em me pagar um prego,

e alinhava, sim, alinhávamos a meias ou a três ou a quatro e, acabado o prego no prato, com o resto da imperial em curso o Django lançava-se numa espectacular tirada filosófica

Que é que o gajo 'tá p'ráli a dizer,

e o gajo impávido e sereno, sem perder o fio à presumível meada do discurso, convicto e assertivo entre goladas de cerveja e miradas de soslaio para controlo da audiência, e quando já poucos aguentavam a atenção, concluía o Django

E assim se prova, meus amigos, que uma vez não são vezes,

Os risos contidos e o homem de negro levantava-se, cumprimentava e saía até à próxima

Até à próxima,

Onde parará agora o Django, onde pararão o Viegas, o Teixeira, o Paulino e outros loucos dos cafés e afins, desses tempos, que não pudemos viver juntos, o Europa no Verão, a esplanada cheia, o Gabriel sem mãos a medir para os finos

Ó Esgrabiel, então nunca mais saem as imperiais,

Reclamavam o Jota Que Se Fica, o Catrapana, o Cachapim, o Chaga, o Baptista-Leninista alias Classe Operária, o Campos alias Campesinato, o Cenoura, o Chico-Bomba, a Formiga, a Pratinho de Arroz Doce, o LTS ou Luta dos Trabalhadores Socialistas, hipotético partido de um único militante, logo a verdadeira aproximação da cúpula às bases, o China, o Faca, os Corvos Gémeos, a Nita, o Luis por ser corvo Corvalán e outros

e o Gabriel que costumava dizer Sibéria, quílheche, nem as focas lá páram esforçava-se, mas nem assim, o ar quente e a maresia e os espanhóis a fazerem piscinas no picadeiro

Têm mesmo cara de espanhóis, os sacanas

Não enganam ninguém,

e levantava-se o grupo da mesa, inspirava-se e media-se o ar nocturno, acendia-se um cigarrito, e às primeiras passas

Está uma bela noite,

e sorríamos, porque

nesses tempos, que podemos reviver juntos,

está uma bela noite significava tudo menos um convite a gozar a noite em passeios sem destino, às vezes andávamos e andávamos, calados, que falar agora não fazia falta apesar dos prazeres da serração, assomávamos à esplanada sobranceira ao mar, descíamos as escadas, atravessávamos a marginal, e nem havia pares nem casais, havia elas e eles conforme a noite e a disposição, amigas e amigos calados e pensativos, cigarro atrás de cigarro, invadíamos finalmente a praia, surgiam violas e vozes do nada ou do escuro da noite, acendia-se talvez uma fogueira e à volta dela canções e risos, mas nunca quando

Está uma bela noite,

aí sentíamo-nos incrivelmente unidos, nesse instante de aspirar o fumo e a ligeira brisa, em uníssono, cúmplices supremamente serenos, guardávamos momentos mágicos e sabíamos perfeitamente que íamos jogar póquer ou às máquinas ou mais tarde petiscar a casa de alguém e nunca apreciar a noite lá fora, não nessas ocasiões, porque estava uma bela noite e aparecia o Ruivo

Então, pessoal

Então, Ruivo

Aquela gaja está a olhar p'ra mim

E daí Ruivo

Daí que quer festa, quando uma gaja olha p'ra mim é porque quer festa,

o Ruivo tinha uma ideia um bocadito arcaica das relações entre pessoas de sexo diferente, isto para não falar nas do mesmo sexo, e tinha pouca sorte à lerpa

Porra, sou sempre o mesmo cristo,

mas desistir nunca, o Ruivo nunca desistia, lerpava até às quinhentas, e não tinha fera, que é como quem diz namorada ou mulher, alguém se lembrou de chamar feras às que não alinhavam nas andanças da noite, as feras ficavam portanto em casa por opção, porque não tinham pedalada, e isso às que a tinham dava-lhes uma certa pena, mas que fazer nesses tempos que podemos viver agora juntos,

de tomar a bica e render e tudo no Café Europa e acender fogueiras na praia e guitarras e cantos e jogar matraquilhos e flippers e dados e bilhar e snooker

O pessoal quer é jogar jogos,

Ou dar um salto a casa da Dona Alice, viúva trabalhadora que parava pouco em casa, que era grande e tinha vários quartos, grupinho de pares comandado pelo filho da Dona Alice, que até era uma senhora progressista, mas uma tarde foi a casa inesperadamente e ouviu uns ruídos vindos do quarto da filha, ora a filha estava a estudar fora, não podia ser ela, e não era, descobriu a viúva quando abriu a porta e o Carlos saltou da cama em cuecas, e impávido e sereno cumprimentou a dona da casa e informou

Estava aqui a ter uma conversa com uma amiga,

e apontou vagamente a Branca, paralizada na cama em trajes bastante menores

Ó Carlos, na cama da minha filha, na cama da minha filha,

e o Carlos com aquele sorriso simpático e sincero, sem se desfazer, e mais tarde no Europa

reafirmando convicto perante a Luísa, a Guida, a Ana, a Linda, a própria Branca

Pois, o pessoal quer é jogar jogos,

e ainda mais tarde em casa de alguém disponível, duas cartas na mão, cinco a caírem uma a uma na mesa, cerveja ou uísque ou brandy e petiscos, ceias requintadas às vezes, preparadas por uma anfitriã realmente espectacular, que até fazia uma perninha no póquer, tudo isto a atravessar a madrugada, as madrugadas

Corre os estores que já é quase dia, porra,

Porque era preciso prolongar a noite, a dimensão da noite, a espessura da noite, aproveitar o riso que já é amanhã mas

Quero lá saber, caraças, é noite, és tu a dar.

7 de dez. de 2007

Segundo Plano

I

Devia haver uma linha

Um traçado

Lógico honesto prático

Rápido

Uma margem de coisas distintas

Distantes

Uma regra segura um sorriso

Uma nuvem

Uma tarde inesperada um concerto

Um conceito

O lugar de uma escrita bastante

Um anel

Que se ouvisse uma fonte um rumor

Uma voz

Haver o plano de todos

Os planos

Das coisas rigorosas porém

Sem limites

O espectro da cor a palavra

Que nasce

A cidade que fosse e viesse

E vivesse

O mar que adivinha o salgado

O azeite

A ternura ondulante o silêncio

Absoluto

Como coisa guardada

Na mais antiga ponte

História extraordinária

Do futuro

Como pedra rasgada

Pela bruma

Jardim real

Partidas e chegadas

Braços em ângulo recto

Farolins


II

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26 de nov. de 2007

L'appuntamento - Ornella Vanoni

Ouvi esta canção pela primeira vez na Alemanha, mais precisamente em Leipzig, cantada por uma estudante argentina que se acompanhava à viola. Fiquei imediatamente apaixonado pela música, talvez também porque a cantora era linda e tinha uma excelente voz...

Mais tarde vim a conhecer a versão da Ornella Vanoni, que viria a ser incorporada na banda sonora do filme Ocean's Twelve e, recentemente, este vídeo que aqui deixo à vossa consideração.



Boa semana!