
Estou inteiramente de acordo.
Claro que a Beleza terá forçosamente de ser representada pelo grande:) Vasco Santana!
Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

HERÓI É O QUE NÃO TEVE TEMPO DE FUGIR!
(Millôr Fernandes)

COMO SE COME UM GORAZ (Oitava década do século XX)
Ainda que tenha forma de peixe,
e se coma à mesa, de garfo e faca e conforto,
mesmo assim indefeso, objecto consumível,
o goraz é mais que o peixe morto
que sobra ou não, conforme for
menos ou mais apetecível.
- Aquilo que te pedimos - e não dás,
aquilo que te pedimos - e nos dás.
estão os temperos, o mais que for preciso,
mas sobretudo os gestos que dele fazem
um produto acabado, pronto a ser comido,
mas sobretudo a vontade de dizeres:
Faço-vos o goraz. Aquilo em que pensaste
ao transformares matéria prima em alegria.
E convém não esquecer a força de trabalho:
Do processo de produção faz parte a simpatia,
o carinho posto em cada peça que juntaste,
o amor escondido num simples dente de alho.
(Perdoa-me o marxismo-leninismo,
heróica militante da cozinha!)
cada vez mais algo de ti que tu nos dás.
o mais recente país da tua criação,
olhar-nos-ias sorridente, e por certo nos darias
algo assim como um prémio
de consolação.
materialíssimo goraz. E ao comê-lo,
em cada pedaço que passa a ser-nos corpo
entra em nós algo de ti, dos gestos, das ideias,
das mãos com que, solene, o cozinhaste.
Sabê-lo
É saber que nós somos os outros,
que a química em ti, por interposto goraz, agora
é também a que, por exemplo, nos comove.
E olha: deixa que os gulosos de sempre comam mais...
Tudo isto te é, creio, familiar.
Vês? Um goraz nem sempre é um goraz:
Pode ser estrela, arco-íris ou país,
e pode mesmo ser mais eficaz.
É preciso, pois, merecer o teu sorriso,
devolver-te em pedaços de nós o que nos deste,
que a corrente dos corpos tem sempre dois sentidos,
e tu ganhaste o mar, a música e a cor.
Por isso, só por isso, deve o goraz ser comido
com garfo e faca, com vinho
e com amor.

SIGAMOS O GORAZ (Primeira década do século XXI)
Durasse tantos anos ou tão poucos.
Fomos tolos e agora
Somos loucos?
O tempero ganhou em qualidade,
Parece o vinho de que canta a lenda.
Já lá vão vinte e três,
Sem emenda!
A arte é dom de quem lhe espeta a faca,
O peixe é rei de quem lhe mete o dente:
Cuidado com o prato
Que está quente...
Quem quiser seguir o cherne, faz favor,
Mas não lhe invejo a sorte. Sou capaz
De apostar no cavalo
Do goraz.
Em que assados o assado nos meteu
Só nós dois é que sabemos afinal.
Siga a marinha que ainda,
Por sinal,
Enverga farda de gala e coisa e tanto,
Que os anos pesam a quem só se atrasar
E a música e a neve
E o luar
Acompanham as caras com que rimos,
Apimentam iguarias inesperadas.
Ah goraz d’um carago,
Já marchavas!
Tudo isto é de um requinte absoluto,
De uma lei, mais que justificada, justa.
E às vezes, é verdade,
Também custa...
Isso que importa, se ao virar a esquina
Aparecem o rapaz e a menina?
E depois, surpresa das surpresas,
Para nossa inenarrável confusão,
O goraz ultrapassa
O camarão!
Porque, sabes, o camarão é simples:
Mais alho ou menos sal, frito ou grelhado,
Não encara o goraz,
Olha-o de lado...
Enquanto o peixe assado armadilha
Anos de culinária abandalhada,
Transforma em linhas garfos,
Abre a estrada,
Escroques croquetes, risonhos rissóis,
Pastéis palacianos, fios de ovos
Rebentam por ficarem
Como novos.
Mas dá-me vinho branco e aquelas coisas
Que ainda não me entraram no radar,
Vamos a ele, que é tempo
De explorar
Vinte e três anos e por isso apenas
Não me calava nem à lei da bala.
Mas quanto mais se escreve,
Mais se cala...
Devia assim mostrar a folha em branco,
P´ra te dar chances de interpretação.
Mas entretanto aprendi
A lição:
Há que ser sempre in finis positivo,
Há que ter sempre corda e ameaças,
Senão de que valiam
As cenaças?
Há quem invoque os deuses e os diabos,
Há quem aroma(n)tize à boticário.
Não farei nada disso,
P’lo contrário,
Quero uma data simbólica e real,
Quero um dia sem espinhas nem surpresa,
Além da que é forçoso
Pôr na mesa,
Com cuidado, que a porcelana é nova
E há muito campeonato p’ra jogar.
Por isso ainda podemos
Divagar
Devagar.
Refilar,
Regritar,
Penetrar
No lugar
Onde se diz, onde se vê, onde se faz,
“Com garfo e faca, com vinho e com amor”
O famoso goraz.
Não sendo adepto dos (inúmeros) prémios que circulam pela blogosfera, reconheço, por outro lado, que eles representam muitas vezes demonstrações de amizade, que, quando me tocam, agradeço e de modo algum enjeito.
Komm in mein Boot
ein Sturm kommt auf
und es wird Nacht
Wo willst du hin
so ganz allein
treibst du davon
Wer hält deine Hand
wenn es dich
nach unten zieht
Wo willst du hin
so uferlos
die kalte See
Komm in mein Boot
der Herbstwind hält
die Segel straff
Jetzt stehst du da an der Laterne
mit Tränen im Gesicht
das Tageslicht fällt auf die Seite
der Herbstwind fegt die Straße leer
Jetzt stehst du da an der Laterne
hast Tränen im Gesicht
das Abendlicht verjagt die Schatten
die Zeit steht still und es wird Herbst
Komm in mein Boot
die Sehnsucht wird
der Steuermann
Komm in mein Boot
der beste Seemann
war doch ich
Jetzt stehst du da an der Laterne
hast Tränen im Gesicht
das Feuer nimmst du von der Kerze
die Zeit steht still und es wird Herbst
Sie sprachen nur von deiner Mutter
so gnadenlos ist nur die Nacht
am Ende bleib ich doch alleine
die Zeit steht still
und mir ist kalt
kalt kalt kalt kalt

Podem chamar-lhe golpe de Estado, Revolução, golpe de Estado que passou a Revolução, Revolução incompleta ou traída, o que quiserem – os factos serão sempre os mesmos.
Chega de perguntas. De acordo com a reflexão de cada um, que cada um actue para conseguir a mudança que achar conveniente. Que actue muito, pouco, o que puder e quiser, se o achar necessário. Que o faça pelas inúmeras formas possíveis.
Por mim, estou convencido de duas coisas essenciais:
- A mudança é necessária e urgente.
A todos, um bom 25 de Abril.
A mancha azul
- Ó Bráulio...
- Sim?
Altamiro hesitou.
- Nada, não é nada. Deixa estar...
O colega desapareceu pela porta, com um sorriso que lhe pareceu de piedade. Ou talvez escarninho. Altamiro respirou fundo, esperou cinco segundos e seguiu-o, passou pela secretária, confirmando que deixara tudo em ordem para o dia seguinte, e correu pelas escadas abaixo, evitando o espelho do elevador. Lá fora chovia a cântaros, e foi um Altamiro bastante molhado que entrou no 46, agora em sentido inverso, rumo ao conforto da casa.
Leontino abriu os olhos, desligou o televisor com um gesto de enfado, acendeu um cigarro e estendeu a mão direita para o copo de uísque convenientemente colocado na mesinha de apoio ao sofá. Verificou que ainda tinha gelo suficiente. Essa agora! Um filme sobre um idiota com o estranho nome de Altamiro, que até metia manchas azuis que sorriam e falavam!? Ou ter-se-ia deixado vencer momentaneamente pelo sono, e sonhara tudo aquilo? Ou teria sonhado o filme? Fosse como fosse, não iria perder mais tempo com disparates! Sacudiu as dúvidas e a cinza do cigarro com o mesmo gesto decidido, bebeu um bom gole e encetou a agradável tarefa de escolher o restaurante onde jantaria nessa noite. Enquanto pesava prós e contras, no gostoso exercício de antecipar iguarias e vinhos de boas colheitas, ergueu o copo contra a lâmpada do candeeiro, deliciando-se, como sempre, com o pequeno e cintilante espectáculo dos cubos de gelo no meio do líquido dourado, num contra-luz esbatido pelo fumo do cigarro, que nunca se cansava de admirar. Pareceu-lhe notar, no meio de um dos cubos de gelo, um reflexo azulado. Sem pensar duas vezes, Leontino engoliu de um trago o resto da bebida, apagou o cigarro, levantou-se e caminhou apressadamente em direcção à casa de banho, a fim de dar os últimos retoques ao visual.
Sócrates, o filósofo que nada sabia: "Só sei que nada sei".
P.S.: Segundo as últimas notícias, as negociações entre a FENPROF e a Ministra da Educação já recomeçaram... Afinal, parece que a força dos números convenceu... ou terá sido a força da razão? Ou ambas? :)
Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.
Se eu fosse um mês seria... Abril
Se eu fosse um dia da semana seria... sábado
Se eu fosse um número seria... de circo
Se eu fosse um planeta seria... distante
Se eu fosse uma direcção seria... Geral
Se eu fosse um móvel seria... uma escrevaninha
Se eu fosse um liquido seria... água
Se eu fosse um pecado seria... original
Se eu fosse uma pedra seria... leve
Se eu fosse um metal seria... prata
Se eu fosse uma árvore seria... uma micaia
Se eu fosse uma fruta seria... oferecido em cestas
Se eu fosse uma flor seria... um cravo
Se eu fosse um clima seria... de inquietação
Se eu fosse um instrumento musical seria... uma guitarra
Se eu fosse um elemento seria... perturbador
Se eu fosse uma cor seria... vermelho
Se eu fosse um animal seria um... um gato
Se eu fosse um som seria... o da guitarra de Jimi Hendrix ou de Paco de Lucia
Se eu fosse uma canção seria... Song for the asking
Se eu fosse um estilo de musica seria... difícil de escolher
Se eu fosse um perfume seria... discreto
Se eu fosse um sentimento seria... impossível
Se eu fosse um livro seria… um tratado
Se eu fosse um lugar seria ... imaginário
Se eu fosse um gosto seria... a sal
Se eu fosse um cheiro seria… a chuva
Se eu fosse uma palavra seria… palavra
Se eu fosse um verbo seria... no princípio
Se eu fosse um objecto seria… infeliz
Se eu fosse uma peça de roupa seria... sobretudo
Se eu fosse uma parte do corpo seria… as mãos
Se eu fosse uma expressão seria… algébrica
Se eu fosse um desenho animado seria… o Papa-Léguas
Se eu fosse um filme seria… de Fellini
Se eu fosse uma forma seria… a de juntar palavras
Se eu fosse uma estação seria… ferroviária
Se eu fosse uma frase seria… “O fortunatos nimium, sua si bona norint, agricolas!”, logo seguida por “Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é este castelo?”
Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.
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