Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

22 de jul. de 2008

The Underground Railroad ou os blues da liberdade

No OVERandOUT, com data de 20 de Julho, está um excelente post sobre a história dos BLUES.


Como introdução ao que se vai seguir, recomendo vivamente a leitura desse texto, já que este post é uma espécie de sequência.


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Já leram? Então posso prosseguir.


Ao lê-lo, lembrei-me de ter aprendido há tempos que muitas das canções entoadas pelos escravos trazidos de África nas plantações de algodão e outras explorações agrícolas, ou ao longo das vias férreas em construção, se destinavam a orientar e ajudar os que, tentando escapar à escravidão, fugiam em direcção ao Norte e à liberdade. Nas suas letras escondiam-se conselhos, nomes, locais, indicações preciosas para quem empreendia a fuga e queria chegar ao fim.


Procurei na net documentação, e obtive alguns resultados.


É imprescindível referir, a este propósito, a organização que ficou conhecida como The Underground Railroad, formada por pessoas de várias origens, e destinada a proteger e facilitar a fuga dos escravos.


Sobre essa organização, há um bom texto AQUI (em Inglês, mas curto e claro) e uma definição neste local da Wikipédia.


Podemos fazer, no site da National Geographic, uma interessante viagem rumo à liberdade, talvez iniciada com a ajuda de Harriet Tubman (nome de código Moses), e ao longo da qual outras figuras destacadas do movimento abolicionista vão surgindo.


Mas voltemos aos blues.


Entre as músicas cantadas pelos escravos, “Follow the Drinking Gourd” foi seguramente a mais conhecida, desde logo pela extrema clareza da letra.

Senão, vejamos:




When the sun comes back,

and the first quail calls,

Follow the drinking gourd,

For the old man is waiting

for to carry you to freedom

If you follow the drinking gourd.

Chorus:

Follow the drinking gourd,

Follow the drinking gourd,

For the old man is waiting

for to carry you to freedom

If you follow the drinking gourd.

The riverbank will make a very good road,

The dead trees show you the way.

Left foot, peg foot travelling on,

Following the drinking gourd.

The river ends between two hills,

Follow the drinking gourd,

There's another river on the other side,

Follow the drinking gourd.

When the great big river meets the little river,

Follow the drinking gourd.

For the old man is waiting

for to carry you to freedom

If you follow the drinking gourd.


A partir deste esclarecedor vídeo do You Tube, podemos encontrar outras interpretações da canção, a maior parte delas por coros escolares. Parece que a música ficou.


E ficou também a evidente associação dos BLUES à liberdade.


ADITAMENTO (Sim, este post também tem um :)

Recomendo vivamente a leitura deste texto da Lizzie, a história atrapalhada do homem que mudou a cor no palco ou seja, Alvin Ailey

E passo a transcrever o comentário da Tia Adoptada, excelente complemento a este post:

Os blues provêm, alegadamente, das «working songs». Estas eram cantadas na língua materna dos escravos, lingua(s) essa(s) que era(m) desconhecidas) dos capatazes e outros colonizadores. Como sabemos, (e os donos de escravos também sabiam), a aculturação é uma forma de dominação bastante eficaz. Como se explica, então, que permitissem que os escravos entoassem as SUAS melodias, nas SUAS línguas?! A resposta é simples: as work songs faziam aumentar o ritmo do trabalho e impediam muitos acidentes laborais. (Por exemplo, se estavam a cavar, não haveria o perigo de um baixar a enxada quando o outro a estava a erguer, porque cavavam ao ritmo da música).
Então os escravos começaram a aproveitar as work songs para enviar mensagens, ao longo dos campos e mesmo «nas barbas» dos patrões e capatazes» que, já nessa altura, não se davam ao trabalho de aprender outra língua que não fosse o rudimentar inglês KKKKKKK.
Podiam, por exemplo, estar a cantar, na frente do capataz, «digam à Maria que o marido conseguiu fugir e está à espera dela no celeiro da fazenda do irmão deste barrigudo deslavado»
Fascinante, não é?

Interessante, também, é a etimologia do jazz; esta música nasceu na rua das lanternas vermelhas, em New Orleans; eram «casas de meninas», onde os homens iam «to jazz»; a dada altura, a música tornou-se mais importante que a actividade sexual... :-)

Em ambos os casos, com os devidos agradecimentos.

17 de jul. de 2008

Caldeirada de chocos "mistério"

Graças a alguém que teve a gentileza de me passar esta receita, que muito agradeço, hoje temos uma bela caldeirada de chocos. Faz-se assim:

Ingredientes (para 4 pessoas)
2 cebolas
4 dentes de alho
1 malagueta
1 folha de louro
4 tomates maduros
4 tiras de pimento vermelho e 2 tiras de pimento verde
qb de azeite
qb sal
1 raminho de coentros
1 kg de choco congelado
8 Batatas -mas podem ser 10 ;)




Preparação

Coze-se o choco em água e sal (+/- 30 minutos).

Reserva-se a água da cozedura para a confecção posterior da caldeirada.

Preparam-se as cebolas em rodelas finas, o louro, a malagueta e os alhos, que devem ir a lume brando, com azeite, num recipiente suficientemente grande...

Logo que a cebola aloure e fique macia, acrescenta-se o tomate (previamente cortado em pedaços) e o pimento, deixando cozinhar sem água, apenas por breves momentos.

Acrescenta-se a água do choco, os coentros e as batatas em rodelas.

Acrescenta-se um pouco de sal.

Ao fim de 5 minutos de fervura, adicionamos o choco já partido em quadradinhos e ao fim de 10 minutos, apaga-se o lume.

(Para servir a crianças, não uso malagueta e acrescento um lombo de pescada.

Se aparece mais um, à ùltima hora, acrescento uns camarões e umas delicias do mar...)

Acompanhamento: salada de alface, rabanetes e agrião.

Vinho: Verde, gelado, Vilarinho se possivel :)


Bom apetite e, desde já, bom fim de semana para todos!

Quem quiser acompanhar com o sol do Bob Marley a brilhar, faça o favor de clicar na setinha :)


Aditamento

Desta vez, os aperitivos vêm no fim. Sugestões da Lizzie, que agradeço: Azeitonas e queijo de ovelha mal curado. Evidentemente!















E aqui está a esperada sobremesa, oferecida pela Lola (obrigado!):

Uma mousse de manga bem fresquinha e fácil de fazer...

Ingredientes:

6 ovos

1 lata de 400 gr. de polpa de Manga

100 gr. d
e açúcar
6 folhas de gelatina
1 pacote e meio de natas



Preparação:
Batem-se as gemas com o açúcar até formar um creme esbranquiçado. Junta-se a manga e mexe-se. Vai ao lume em banho-maria, mexendo sempre, ou ao microondas por um bocado, mexe-se e volta lá. Quando estiver bem quente, juntam-se as folhas de gelatina previamente demolhadas, até derreterem bem. Pôr a arrefecer, mexendo de vez em quando. Juntar as natas e, depois de envolver bem, juntar as claras em castelo. Vai ao frigorifico pelo menos por 3 horas.

8 de jul. de 2008

Um post perfeitamente idiota. Por favor, considerem apenas o "perfeitamente"...

A QUADRA NATALÍCIA



Passou-se o Natal, Alícia,

E tu sem natas nem netos,













Nem notas na tal estrelícia

Que vai dos chãozes aos tectos!



Alternativas ao último verso da quadra natalícia:

a) Para adeptos do "Acordo Ortográfico": " Que vai dos chãozes aos tetos!"
b) Para tias de Cascais: "Que vai dos chãozes aos têetos!"
c) Para puristas e ortodoxos que não gostaram da palavra "chãozes": "Que sobe dos chães aos tectos!"

Disse.

3 de jul. de 2008

Leo Ferré - La solitude e Carmen Amaya no filme Maria de la O, de 1939

Ok, Teresa, eu sei que o Francês, etc. e tal... mas o Leo Ferré é essencial.
Podes sempre ligar o Bowie, aqui ao lado:)




À Lizzie, agradeço a ideia que o texto no "...e, já agora..." me deu para acrescentar este segundo vídeo.

22 de jun. de 2008

Finalmente, uma receita...

... Há muito prometida, e que já tardava, digo eu... Parece-me simples e creio que quem experimentar ficará cliente. Vamos a isto!


PEITO DE PERU COM COGUMELOS

Ingredientes para 2 pessoas:

* 200 g de peito de peru em bifes
* 150 g de cogumelos
* 1 cebola pequena
* 1 tomate maduro
* 1 dente de alho
* 1/2 colher de sopa de óleo
* 1/2 colher de sopa de margarina vegetal (ou manteiga)
* 1 colher de sopa de xerez seco
* orégãos, sal e pimenta



Preparação:

1.
Lavar os cogumelos e cortá-los em lâminas finas. Descascar e picar a cebola, o tomate e o dente de alho.
2. Fritar os bifes no óleo; reservá-los quentes.
3. Juntar a manteiga ao óleo de fritar os bifes e refogar os cogumelos, a cebola e o alho. Quando estiverem dourados, juntar a colher de sopa de xerez e deixar evaporar um pouco. Deitar em seguida o tomate picado e orégãos.
4. Temperar com sal e pimenta e deixar cozer uns minutos.
5. Deitar o conteúdo da frigideira sobre os bifes.
6. Servir imediatamente.

E o mais importante:
7. Comer. Saborear. :)

Como sempre, aceito e agradeço sugestões de vinhos e sobremesas, alterações e opções vegetarianas...

Que vos saiba bem, pelo menos na foto!

Bom domingo!

--------------------- SUGESTÕES --------------------

Teresa Durães: Opção vegetariana: retirar o perú e seguir o resto da ementa ;)

Bettips: Só uma sugestão: haja companhia e divertimento para o deguste ser perfeito.

Mariatuché:
Porque estamos no Verão e sabe bem um vinhinho fresco eu deixo como sugestão um vinho verde da marca "Pingo Doce" portanto só se vende no Pingo Doce, é um vinho de 1 euro e 50 cêntimos aproximadamente, garanto-vos que bem fresco, na temperatura ideal bebe-se muito bem e é bem baratinho já que se fala tanto em "crise", na sobremesa e para alegria dos VEGAS e do pessoal a dieta que tal uma bela salada de fruta?? 1 papaia, 1 pêssego, abacaxi a gosto, 1 maçã, uvas. Regado com sumo de 1 limão para a fruta não oxidar e sumo de 1 ou 2 laranjas, frigorifico 1 hora antes de servir e voilá.

Lola: Como sugestão calórica, acompanhar com fettucinne al dente com azeite e alho. A opção de acrescentar queijo seco de Castelo Branco ralado fica bem. Sobremesa: um bom gelado para juntar à salada da Mariatuché.

Mar:
Tb sugiro gelado para a sobremesa.

Nnannarella:
(...) o video da Ana Moura, que, entre outras peças de diferentes géneros, poderia fazer parte da banda sonora do repasto que nos propões. Sobretudo, na altura em que se desenrolhasse uma bela garrafa de tinto!

Vanda:
Gelado de yogurte e mel, ao qual se adicciona pedaços de morango, pessego e meloa. Povilha-se de seguida de chocolate em pó e....bom apetite!!! :)

Muito obrigado a todas! Assim, a refeição fica mesmo melhorada, e é uma alegria para mim ter a vossa ajuda. E mais que venha, que também vai para o post!


-------------------------------------------------

Como não me apetece fazer já outro post, estando, ao que parece, em curso a actualização e beneficiação deste, aproveito este bocadinho para dar os PARABÉNS à ROSA MOTA pelos seus 50 anos, que completa no domingo, dia 29.
E bem merece que a felicitemos, esta mulher simples, simpática e generosa, que foi apenas uma das melhores, senão a melhor atleta portuguesa de todos os tempos. A salientar (via Wikipédia, link acima):



Maratona

Outros

  • Vice campeã mundial de estrada (15 Km) em 1984 e 1986
  • Ex-detentora do melhor tempo mundial de 20.000 metros em pista (1.06.55,5) em 1983
  • Ex-recordista de Portugal dos 1000, 1500, 3000 e 5000 metros.
  • Oito títulos de campeã de Portugal em corta-mato/cross-country
É obra, Rosinha!

13 de jun. de 2008

Pessoa, Santana e a Beleza...

Segundo a Lola, neste magnifíco post de homenagem.




Estou inteiramente de acordo.


Claro que a Beleza terá forçosamente de ser representada pelo grande:) Vasco Santana!

4 de jun. de 2008

Pequeno post nocturno, modesto mas de inegável amplitude, muitos furos, quiçá buracos, acima do que se pratica no estrangeiro, na Europa e em Espanha!

HERÓI É O QUE NÃO TEVE TEMPO DE FUGIR!

(Millôr Fernandes)



Para consolar os que porventura tenham ficado desanimados, e para desanimar os que ficaram consolados mas gostariam de tocar como este senhor, aqui fica o baixo de Victor Wooten.

São uns minutinhos que valem a pena. Espantoso o Amazing Grace, tocado com recurso frequente a harmónicas, e com afinação e reafinação de cordas em plena execução, a fim de ultrapassar as limitações da escala do baixo.

Divirtam-se!

29 de mai. de 2008

29 de Maio de 2008. Sem cubos. Sem tambores nem cornetas. Com dedicatória óbvia implícita. Com um beijo. Ou vários. Por seres.


COMO SE COME UM GORAZ (Oitava década do século XX)


Um goraz nem sempre é um goraz.
Ainda que tenha forma de peixe,

e se coma à mesa, de garfo e faca e conforto,

mesmo assim indefeso, objecto consumível,

o goraz é mais que o peixe morto
que sobra ou não, con
forme for
menos ou mais apetecível.

Que pode então ser um goraz?

- Aquilo que te pedimos - e não dás,
aquilo que te pedimos - e nos dás.

No goraz que nos serves está o peixe,
estão os temperos, o mais que for preciso,

mas sobretudo os gestos que dele fazem

um produto acabado, pronto a ser comido,

mas sobretudo a vontade de dizeres:

Faço-vos o goraz. Aquilo em que pensaste

ao transformares matéria prima em alegria.

E convém não esquecer a força de trabalho:

Do processo de produção faz parte a simpatia,

o carinho posto em cada peça que juntaste,

o amor escondido num simples dente de alho.

(Perdoa-me o marxismo-leninismo,
heróica militante da cozinha!)

Assim o goraz é cada vez menos um goraz,
cada vez mais algo de ti que tu nos dás.

Se te pedíssemos uma estrela, um arco-íris,
o mais recente país da tua criação,
olhar-nos-ias sorrident
e, e por certo nos darias
algo assim como um prémio
de consolação.

Mas pedimos-te um goraz, um vulgaríssimo,
materialíssimo goraz. E ao comê-lo,
em cada pedaço que passa a
ser-nos corpo
entra em nós algo de ti, dos gestos, das ideias,

das mãos com que, solene, o cozinhaste.

Sabê-lo
É saber que nós somos os outros,
que a química em ti,
por interposto goraz, agora
é também a que, por exemplo, nos comove.

E olha: deixa que os gulosos de sempre comam mais...

Tudo isto te é, creio, fa
miliar.

Vês? Um goraz nem sempre é um goraz:
Pode ser estrela, arco-íris ou país,
e pode mesmo ser mais eficaz.

É preciso, pois, merecer o teu sorriso,
devolver-te em pedaços de nós o que nos deste,

que a corrente dos corpos tem
sempre dois sentidos,
e tu ganhaste o mar, a música e a cor.

Por isso, só por isso, deve o goraz ser comido
com garfo e faca, com vinho
e com amor.



SIGAMOS O GORAZ (Primeira década do século XXI)

Quem diria que um goraz bem cozinhado

Durasse tantos anos ou tão poucos.

Fomos tolos e agora

Somos loucos?

O tempero ganhou em qualidade,

Parece o vinho de que canta a lenda.

Já lá vão vinte e três,

Sem emenda!

A arte é dom de quem lhe espeta a faca,

O peixe é rei de quem lhe mete o dente:

Cuidado com o prato

Que está quente...

Quem quiser seguir o cherne, faz favor,

Mas não lhe invejo a sorte. Sou capaz

De apostar no cavalo

Do goraz.

Em que assados o assado nos meteu

Só nós dois é que sabemos afinal.

Siga a marinha que ainda,

Por sinal,

Enverga farda de gala e coisa e tanto,

Que os anos pesam a quem só se atrasar

E a música e a neve

E o luar

Acompanham as caras com que rimos,

Apimentam iguarias inesperadas.

Ah goraz d’um carago,

Já marchavas!

Tudo isto é de um requinte absoluto,

De uma lei, mais que justificada, justa.

E às vezes, é verdade,

Também custa...

Isso que importa, se ao virar a esquina

Aparecem o rapaz e a menina?

E depois, surpresa das surpresas,

Para nossa inenarrável confusão,

O goraz ultrapassa

O camarão!

Porque, sabes, o camarão é simples:

Mais alho ou menos sal, frito ou grelhado,

Não encara o goraz,

Olha-o de lado...

Enquanto o peixe assado armadilha

Anos de culinária abandalhada,

Transforma em linhas garfos,

Abre a estrada,

Escroques croquetes, risonhos rissóis,

Pastéis palacianos, fios de ovos

Rebentam por ficarem

Como novos.

Mas dá-me vinho branco e aquelas coisas

Que ainda não me entraram no radar,

Vamos a ele, que é tempo

De explorar

Vinte e três anos e por isso apenas

Não me calava nem à lei da bala.

Mas quanto mais se escreve,

Mais se cala...

Devia assim mostrar a folha em branco,

P´ra te dar chances de interpretação.

Mas entretanto aprendi

A lição:

Há que ser sempre in finis positivo,

Há que ter sempre corda e ameaças,

Senão de que valiam

As cenaças?

Há quem invoque os deuses e os diabos,

Há quem aroma(n)tize à boticário.

Não farei nada disso,

P’lo contrário,

Quero uma data simbólica e real,

Quero um dia sem espinhas nem surpresa,

Além da que é forçoso

Pôr na mesa,

Com cuidado, que a porcelana é nova

E há muito campeonato p’ra jogar.

Por isso ainda podemos

Divagar

Devagar.

Refilar,

Regritar,

Penetrar

No lugar

Onde se diz, onde se vê, onde se faz,

“Com garfo e faca, com vinho e com amor”

O famoso goraz.


17 de mai. de 2008

Nomeações, prémios e companhia

Não sendo adepto dos (inúmeros) prémios que circulam pela blogosfera, reconheço, por outro lado, que eles representam muitas vezes demonstrações de amizade, que, quando me tocam, agradeço e de modo algum enjeito.

Vem isto a propósito de uma nomeação que a GI me conferiu, e de uma "árvore" de que me servi, porque a estimo :)




A nomeação foi para o prémio BLOG DAS NUVENS. Nas palavras da GI, "Blog das Nuvens, o que se lê e ouve por aqui realmente de vez em quando leva-nos até elas :)" :))))))))

Obrigado, GI! Garanto-te que posso dizer o mesmo e ainda mais do teu blog.




E agradeço-te igualmente a oportunidade que me deste de recolher do teu blog a "Árvore da Felicidade".

Em qualquer dos casos, e como vem sendo meu hábito, passo a nomeação e a "árvore" a todos os autores dos blogs que tenho lincados. Esta é uma regra minha, que há anos adoptei, e da qual não me desvio, por muito que as regras dos prémios me convidem a isso.


Bom fim de semana a todos.

6 de mai. de 2008

Für Teresa

Prometi à Teresa Durães "uma coisinha em Alemão", por causa da minha mania das canções francesas, e etc. e tal, e hoje vou cumprir. Escolhi uma canção dos Rammstein, Seemann, da qual gosto muito, por diversas razões. Por exemplo, o suporte da voz pelo baixo melódico nas estrofes; a doçura, solidão, abandono, desejo, busca... que elas transmitem; o contraste entre a melodia suave das estrofes e a barragem de fogo musical do refrão, também ele, no entanto, construído sobre versos onde se prolongam, desenvolvem e acentuam os sentimentos presentes nas estrofes, até àquele final de solidão, desespero e frio, frio, frio....


Rammstein - Seemann - teledisco




Escolhi duas interpretações diferentes. A do videoclip pelo melhor som, a do concerto de Berlim pela interacção com o público. Vale a pena ver e ouvir ambas.

Ao vivo em Berlim, 1998



Seemann

Komm in mein Boot
ein Sturm kommt auf
und es wird Nacht

Wo willst du hin
so ganz allein
treibst du davon

Wer hält deine Hand
wenn es dich
nach unten zieht

Wo willst du hin
so uferlos
die kalte See

Komm in mein Boot
der Herbstwind hält
die Segel straff

Jetzt stehst du da an der Laterne
mit Tränen im Gesicht
das Tageslicht fällt auf die Seite
der Herbstwind fegt die Straße leer

Jetzt stehst du da an der Laterne
hast Tränen im Gesicht
das Abendlicht verjagt die Schatten
die Zeit steht still und es wird Herbst

Komm in mein Boot
die Sehnsucht wird
der Steuermann

Komm in mein Boot
der beste Seemann
war doch ich

Jetzt stehst du da an der Laterne
hast Tränen im Gesicht
das Feuer nimmst du von der Kerze
die Zeit steht still und es wird Herbst

Sie sprachen nur von deiner Mutter
so gnadenlos ist nur die Nacht
am Ende bleib ich doch alleine
die Zeit steht still
und mir ist kalt
kalt kalt kalt kalt


Deparei na net com algumas traduções para Inglês. Porém, este parece-me um dos tais casos em que a tradução estraga quase tudo. Mal por mal, meti-me a traduzir directamente do Alemão para o Português, sem grandes preocupações de literalidade, mas com alguma atenção à métrica - ou, melhor dito, à "música da letra"... Aceito, evidentemente, e agradeço, sugestões e correcções!

Marinheiro (Homem do Mar)

Vem
para o meu barco
Levanta-se uma tempestade
e anoitece

Aonde queres ir
que assim tão só
andas à deriva

Quem te agarra a mão
quando és puxado(a)
para o fundo

Aonde queres ir
tão infinito
o frio mar

Vem para o meu barco
O vento outonal mantém
a vela firme

E eis-te agora junto à lanterna
com lágrimas na face
A luz do dia desaparece
O vento outonal varre e limpa a rua

E aqui estás junto à lanterna
tens lágrimas na face
A luz crepuscular persegue as sombras
o tempo pára e chega o Outono

Vem para o meu barco
a busca será
o homem do leme

Vem para o meu barco
o melhor marinheiro
era afinal eu

E eis-te agora junto à lanterna
com lágrimas na face
Recolhes o fogo do castiçal
o tempo pára e chega o Outono

Falaram só da tua mãe
Apenas a noite é tão cruel
No final permaneço só
O tempo pára
e tenho frio
frio frio frio frio


Espero que gostem. Especialmente a Teresa, claro! :)))

5 de mai. de 2008

Prémios...

A LOLA recebeu estes dois prémios e, surpreendentemente :))) passou-mos :)))

Muito obrigado, Lola! Espero merecê-los.

Fica o link para os "blogueiros que sabem comentar", conforme regra do prémio.





http://blogueirosquesabemcomentar.blogspot.com/






Especial para mim é a amizade de TODOS os que visito e me visitam, cujos blogs estão indicados ali à direita. Como habitualmente, é para TODOS ELES que passo os prémios.

1 de mai. de 2008

Um bom Dia do Trabalhador para todos!

O Zeca Afonso foi muitas vezes preso pela PIDE nas vésperas do dia 1º de Maio, para que não pudesse cantar em comemorações necessariamente clandestinas, quer no meio operário, quer no meio estudantil. Por isso, hoje, 1º de Maio de 2008, faço questão de o pôr aqui a cantar. Tragam outro amigo também e tenham um bom Dia do Trabalhador.


25 de abr. de 2008

25 de Abril - 34 anos depois




Podem chamar-lhe golpe de Estado, Revolução, golpe de Estado que passou a Revolução, Revolução incompleta ou traída, o que quiserem – os factos serão sempre os mesmos.

Quem me faz companhia neste espaço conhece perfeitamente o que era o ANTES e o que foi, e é, o DEPOIS. Por isso, dispenso-me de enumerar factos e mudanças, avanços e recuos.

Em vez disso, apetece-me HOJE, dia em que se cumpre mais um aniversário do 25 de Abril, pensar (e convidar-vos a pensar) no que será o AMANHÃ. Esta questão levanta uma série de perguntas que não posso deixar de fazer. Assim, por exemplo:

- A democracia em que vivemos tem conteúdo real?

- A justiça social está a ser, de facto, construída?

- Estamos a dar o nosso melhor ao país que é o nosso? Estamos, ao menos, a dar “qualquer coisinha”?

- A economia portuguesa é saudável? Viável? Está a caminho do crescimento, ou do abismo?

- A corrupção e as fraudes financeiras de toda a ordem são fenómenos passageiros?

- Estamos, como sociedade, mais preocupados com a solidariedade ou com o individualismo, ou seja, com as nossas próprias pessoas e bens? E como pessoas, como indivíduos, o que nos preocupa?

- Aonde nos conduzirá (e aos nossos filhos, e aos filhos dos nossos filhos...) o caminho que estamos a seguir?

- Em que lugar nos inserimos no espaço europeu e na “aldeia global” de que tanto se fala? E onde queremos inserir-nos?


Chega de perguntas. De acordo com a reflexão de cada um, que cada um actue para conseguir a mudança que achar conveniente. Que actue muito, pouco, o que puder e quiser, se o achar necessário. Que o faça pelas inúmeras formas possíveis.


Por mim, estou convencido de duas coisas essenciais:


- A mudança é necessária e urgente.

- Somos perfeitamente capazes de a assumir e de a concretizar, por muito que não dependa apenas de nós.



A todos, um bom 25 de Abril.

14 de abr. de 2008

Regressando devagar...

... Deixo à vossa consideração este excerto do filme de 1951 "Paris é sempre Paris", de Luciano Emmer. "Les feuilles mortes", com música de Vladimir Cosma, poema de Jacques Prévert e interpretação de Yves Montand.

Boa semana!


27 de mar. de 2008

A Mancha Azul (outra versão)



A mancha azul



Altamiro olhou-se ao espelho, confirmou o penteado e ajeitou o nó da gravata de seda cinza. Gostou do resto que viu: o fato escuro de bom corte, a camisa de alvura imaculada. Estava já a voltar-se quando reparou que algo não batia certo. Passeou o olhar pelo espelho, e por fim descobriu: uma pequeníssima mancha azul no limite direito do espelho, situada exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro desviou o olhar para a camisa e observou-a com atenção. Não viu mancha nenhuma. Considerou de novo o espelho, afastando-se ligeiramente para a direita. A mancha continuava no mesmo sítio, mas parecia-lhe agora um minúsculo sorrizo azul. Disfarçado de mancha. Já um tanto irritado, recuou três passos e fitou o espelho. O sorriso lá estava. Girou cento e oitenta graus sobre o pé direito, fez uma pausa de três segundos e completou o círculo. Quando levantou os olhos, lá estava a mancha. No mesmo ponto rigoroso.

Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.

Altamiro levantou-se e saíu. A paragem ficava quase em frente. Atravessou a rua mesmo a tempo de apanhar o quarenta e seis e sentou-se no primeiro lugar vago que se lhe deparou. Notou ao lado a presença de um companheiro de viagem habitual, com quem nunca falara. Provavelmente, era também uma pessoa reservada. Deixando-se embalar pelo movimento sincopado do autocarro, Altamiro recostou-se no assento e suspirou. Fechou os olhos e concentrou-se na escuridão, preparado para o trajecto até à baixa. Não excessivamente longo, aliás.

No escritório, o dia correu normalmente. Já perto da hora de saída, foi lavar as mãos e dar a penteadela do costume. E tudo voltou. No limite direito do espelho. Ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro considerava a possibilidade de verificar a camisa quando viu entrar o Bráulio, da Contabilidade. Arriscou uma olhadela furtiva à camisa do colega, através do espelho. Era azul, a camisa. Altamiro desesperou. Ficou a olhar para dentro, e quando o outro já saía, ainda arriscou:

- Ó Bráulio...
- Sim?
Altamiro hesitou.
- Nada, não é nada. Deixa estar...

O colega desapareceu pela porta, com um sorriso que lhe pareceu de piedade. Ou talvez escarninho. Altamiro respirou fundo, esperou cinco segundos e seguiu-o, passou pela secretária, confirmando que deixara tudo em ordem para o dia seguinte, e correu pelas escadas abaixo, evitando o espelho do elevador. Lá fora chovia a cântaros, e foi um Altamiro bastante molhado que entrou no 46, agora em sentido inverso, rumo ao conforto da casa.

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Acordou no sofá da sala, banhado em suor e com a cabeça latejante de dor. O que primeiro viu foram os sapatos. Pretos, evidentemente. O olhar de Altamiro subiu lentamente pelas calças, pelo casaco, pela camisa branca... e foi aí que a mancha azul lhe veio à memória ainda enublada. Algo incomodado, demorou o olhar na camisa, mas da mancha nem sinal. Nada de que se admirar. Nunca estivera na camisa, recordou.

A dor de cabeça clamava insistentemente por café e aspirinas. Com alguma dificuldade, Altamiro levantou-se e quase cambaleou até à cozinha. A preparação do café era uma espécie de ritual feito de gestos maquinais, por isso não teve qualquer dificuldade em colocar a água na parte inferior da velha cafeteira italiana, depositar o pó de café no filtro na medida exacta, enroscar a cafeteira e colocá-la ao lume. Minutos depois, saboreava um café forte e generosamente açucarado, e o dia começava a desanuviar-se-lhe no cérebro. No pequeno visor iluminado do rádio-relógio colocado sobre o frigorífico leu distintamente MAY 26 SUN 17:28. Era, então, domingo?

Desenrolou-se-lhe naturalmente, como se fosse um filme a preto e branco, a memória da noite anterior, e Altamiro percebeu que dormira umas boas doze horas. E que sonhara. Começou então quase inconscientemente a separar o sonho da realidade, como quem separa as claras das gemas: Não os preparativos para o trabalho, mas o aprontar-se para uma saída nocturna; não o quarenta e seis para o escritório, mas o táxi para o restaurante; não a jornada de trabalho, mas a noitada nos bares; não o Bráulio da Contabilidade, mas os amigos dos copos; não o autocarro de regresso a casa, mas o carro de alguém que o trouxera e o deitara no sofá, presumivelmente por ter bebido demais. O Ezequiel, era isso, fora o Ezequiel que o trouxera a casa. Por isso adormecera no sofá, de fato e gravata e tudo. Altamiro apenas se permitia aquelas farras aos sábados à noite, o que lhe confirmou que, de facto, era domingo. Recordou depois a manhã do dia anterior, passada a dormir, a tarde a ver futebol na televisão... Precisamente! Nada de mancha azul, apenas um sonho, um estúpido pesadelo! Qual mancha azul sorridente, qual história! Por falar em história, até que era uma bem interessante para contar aos amigos no sábado seguinte.

Bebeu um longo gole de café, aliviou o nó da gravata e considerou que, realmente, dormira demais. Coisas da ressaca. Altamiro sorriu, mas a dor de cabeça continuava a pedir-lhe aspirina. Com a caneca na mão e um sorriso nos lábios, dirigiu-se à casa de banho. O sorriso foi-se-lhe abrindo cada vez mais, enquanto estendia a mão para a porta do armário onde guardava medicamentos, artigos de higiene e miudezas diversas.

Estranhamente, no rosto que a porta espelhada lhe devolveu não havia sorriso algum. Altamiro estremeceu, e o olhar desceu-lhe, lenta mas inexoravelmente, pela superfície do espelho, até encontrar uma pequeníssima mancha azul, no seu limite direito, exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca.

A mão esquerda de Altamiro continuou a segurar a caneca de café, mas o punho direito saíu-lhe disparado, como se tivesse vontade própria, em direcção ao espelho, perfurando-o e fazendo saltar estilhaços e gotas de sangue em todas as direcções. Só parou quando encontrou o fundo do armário, onde se quedou prisioneiro da fúria e de cacos brilhantes. Enraivecido, Altamiro nem sentiu a dor. Os olhos procuraram-lhe instintivamente um certo fragmento do espelho. Estava intacto, e revelava-lhe agora uma série de manchas vermelhas, que começavam a escorrer pela alvura da camisa. No meio delas, exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa que fora branca, a mancha azul permanecia, incólume e sorridente.

- Boa tarde, Altamiro! – disse a mancha azul.

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Leontino abriu os olhos, desligou o televisor com um gesto de enfado, acendeu um cigarro e estendeu a mão direita para o copo de uísque convenientemente colocado na mesinha de apoio ao sofá. Verificou que ainda tinha gelo suficiente. Essa agora! Um filme sobre um idiota com o estranho nome de Altamiro, que até metia manchas azuis que sorriam e falavam!? Ou ter-se-ia deixado vencer momentaneamente pelo sono, e sonhara tudo aquilo? Ou teria sonhado o filme? Fosse como fosse, não iria perder mais tempo com disparates! Sacudiu as dúvidas e a cinza do cigarro com o mesmo gesto decidido, bebeu um bom gole e encetou a agradável tarefa de escolher o restaurante onde jantaria nessa noite. Enquanto pesava prós e contras, no gostoso exercício de antecipar iguarias e vinhos de boas colheitas, ergueu o copo contra a lâmpada do candeeiro, deliciando-se, como sempre, com o pequeno e cintilante espectáculo dos cubos de gelo no meio do líquido dourado, num contra-luz esbatido pelo fumo do cigarro, que nunca se cansava de admirar. Pareceu-lhe notar, no meio de um dos cubos de gelo, um reflexo azulado. Sem pensar duas vezes, Leontino engoliu de um trago o resto da bebida, apagou o cigarro, levantou-se e caminhou apressadamente em direcção à casa de banho, a fim de dar os últimos retoques ao visual.


19 de mar. de 2008

Dia do Pai



Feliz Dia do Pai!!

Querido Pai:
Decidimos repetir a graça e deixar-te esta pequena surpresa no teu Blog.

Pelas tuas mãos continuamos a descobrir o Mundo...

Dia a dia... passo a passo... música a música...





Esperamos que tenhas gostado.
Muitos beijinhos dos teus filhos,

Luis e Renata.