
Palavras para ti que fui escrevendo
Nos dias de papel que atravessámos
Ténues vestígios do que construímos
De olhos dados no mundo que inventámos
Do sonho em que calados descobrimos
Novas palavras para te ir escrevendo
Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.








Dá-me um cavalo uma alma uma nave
Algo que voe ou galope ou navegue
E seja azul ou de outra cor mas leve
No seu vagar qualquer coisa que lave
Dá-me uma curva um espelho uma pausa
Algo que brilhe e demore e seduza
E se transforme ao ar em luz difusa
Ou nada ou coisa que não tenha causa
Dá-me um comboio um apito um berlinde
Algo que parta ou que role ou decida
E ao passar perto da hora perdida
Nos traga a rima precisa de brinde
Dá-me um baloiço um esquadro uma vez
Algo que meça que oscile que seja
Uma surpresa o gesto que se beija
A última loucura que se fez
Dá-me um segredo uma cor uma uva
Algo que importe ou se cheire ou escorregue
(Mas não tropece nem ceda nem negue)
Por entre dedos ou gotas de chuva
Dá-me uma febre um papel uma esquina
Algo que rasgue ou se dobre ou estremeça
E que se esconda e mais tarde apareça
Sombra de vulto subindo a colina
Dá-me um arco que seja íris
Dá-me um sonho que seja doce
Dá-me um porto que tenha barcos
Dá-me um barco que nunca fosse
Dá-me um remo
Dá-me um prado
Dá-me um reino
Dá-me um verso
Dá-me um cesto
Dá-me um cento
Dá-me só
Um universo
Dinis Machado deixou-nos no dia 3. O Dennis McShade dos policiais, o autor do inesquecível "O que diz Molero" :
a, acendeu-a um tio chamado Gustavo, a outra também branca, embora de outro tom, é a estrela de César, também chamada Boné de Neve ou Torrão de Alicante, vê aquela ali que tem um brilho alegre?, é a estrela James Corbett, um homem que dançava boxe, a outra é a estrela de um médico de aldeia chamado João-Semana, a outra, de cristal, é a Joaninha dos Olhos Verdes, aquela é a estrela dos Três Cow-boys, também chamada de Cooper, de Fonda ou de Wayne, é uma estrela de lata, de pôr ao peito, patrulha a cerca da constelação a que pertence, atenta aos movimentos de Xântila, a outra é a estrela do Mar, encontrou-a uma criança numa praia, olhou para ela e iluminou-a, aquela é a estrela Ray Bradbury, tem um cintilar muito dela, íntimo de vastidões, não lhe parece?, olhe ali, aquela é a estrela Mãe, lança uma luz pálida, casta, familiar, tem uma forma estranha de mão em rosto, não tem por acaso outro cigarrinho? (...)


tropas da NATO deveriam intervir e entrar em confronto com a Rússia, porque era para isso mesmo que a NATO servia, as sondagens apontam McCain como favorito na corrida à Casa Branca. Fui só eu que reparei na convocação da Terceira Guerra Mundial? Ouvi mal? Os americanos andam distraídos ou querem mesmo entrar em guerra com a Rússia (e a China e por aí adiante...) ? Arranjem-me um buraco onde me meta, por favor! O Obama também não ouviu? Não respondeu? Ou será que está de acordo com a senhora Palin? Nesse caso, quero um buraco mais fundo, por favor...
vice-presidência relançou a campanha dos republicanos, mas quinta-feira poderá ter falado demais à televisão ABC. Na primeira grande entrevista, a candidata à vice-presidência pelos republicanos deixou uma frase surpreendente. A governadora do Alasca admitiu a hipótese dos Estados Unidos declararem guerra à Rússia, caso esta insista em invadir a Geórgia.")
Os cinco vértices foram também usados pelos neo-pitagorianos para representarem os cinco elementos
ύδωρ, Hydor, Água
Em Roma foi originalmente símbolo da deusa romana Vénus
O símbolo é encontrado na natureza, como a forma que o planeta Vénus faz durante a aparente retroacção de sua órbita (Vénus descreve um pentagrama quase perfeito com a sua rota pelo Zodíaco de 8 em 8 anos).
Também representava Lúcifer, que era Vénus na pele de Estrela da Manhã, aquele que trazia a luz e o conhecimento
O Pentagrama vê-se ainda figurado como fazendo parte de muitas construções Cristãs, como sejam o Templo Nauvoo de Illinois e o Templo de Salt Lake entre outros.
- Templo de Nauvoo -
Heinrich Cornelius Agrippa e outros perpetuaram a popularidade do pentagrama como símbolo de magia, mantendo os atributos dos cinco elementos originalmente decretados por Pitágoras.
E há mais, muito mais :))) Mas escolhi só algumas imagens que achei interessantes. O texto não passa de legendagem.
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Rosa também, como as outras, pela vereda ladeada de silvas, urzes, matagal, uma ou outra flor dispersa, pontos inusitados de cor que não o verde, os vários tons de verde. Trilho acima, no crepúsculo do dia, no crepúsculo de Rosa, à hora do cansaço maior, os pés descalços, gretados, o alguidar da roupa lavada à cabeça, o dia perto do fim, o caminho até à pequena aldeia pendurada no monte, quase no cimo, as casas de granito espesso, frio, o chamamento de Rosa e a recolha das roupas, Rosa enfim de regresso ao lar.
Em breve a sopa pronta, a panela fumegante, o odor inconfundível, o marido já à mesa tosca, à espera, cansado, gasto pela terra, muitos anos, muitos anos nas rugas no rosto de Rosa, nos gestos da preparação da sopa, as batatas, a hortaliça, um pouco de chouriço às vezes, mais por causa do gosto, o jantar solitário, os filhos há muito na cidade, sem tempo, sem tempo.
De manhã bem cedo o percurso inverso, a descida do trilho, a roupa suja, os olhos ainda atentos a uma ou outra flor, por vezes mesmo no Inverno, e nesse caso o frio por dentro da roupa e do xaile quase sempre negros, quase sempre o orvalho matinal nas ervas de ambos os lados do atalho, Rosa, como as outras, caminho abaixo até ao ribeiro, a roupa na pedra da margem, as mãos diligentes, o sabão, a roupa na água, a roupa batida, novamente na água limpa, lavada.
Todos os dias menos ao domingo, tempo de pouco descanso, de missa, de lida da casa, de limpeza, do almoço do marido cansado, de Rosa ao fogão, um cozido simples, sempre as batatas, a couve, um pouco de carne, um naco de chouriço, o sol no Verão, o degrau da porta, dois dedos de conversa às vezes, Rosa como as outras.
Nos domingos de festa, Rosa com a mesma roupa, no adro da igreja sem gambiarras de luz, apenas dois holofotes de circunstância e uma aparelhagem rudimentar, cortesia do showman, fornecedor habitual de romarias e festividades avulsas das aldeias, a carrinha cheia de festas e música e mistérios equipada com um altifalante adequado à função, os foguetes antes do som da aparelhagem do showman por cima do toque dos sinos da pequena igreja, e depois o baile também já com músicos e cantores, o velho Cardoso do violino, desde sempre o artista local, uma viola-baixo eléctrica um tanto surpreendente a par do harmónio e da viola beiroa, os imprescindíveis ferrinhos, guitarras de vários tamanhos e formatos, um bombo e uma tarola, e demais instrumentos avulsos e variáveis, as vozes e, durante o descanso da banda, novamente a música da aparelhagem sonora, mas sempre, sempre o baile.
Rosa como as outras, mas diferente, desde miúda com todo o corpo ao sabor da dança, agora com a saia escura ao vento, os pés gretados mas velozes, o ritmo exacto, os movimentos de uma elegância aparentemente inesperada naquela idade, os braços sonhadores, as pernas ainda fortes, ágeis, incansáveis, Rosa imparável até ao fim do baile, a dança no sangue até ao fim da noite.
De regresso a casa, a carrinha do showman aos solavancos na estrada coleante, as luzes ainda visíveis nos altos e baixos, a carrinha com a festa lá dentro, embrulhada, silenciosa, à espera de outro dia, de outra noite, de outra aldeia, Rosa finalmente presa do cansaço, de um cansaço agradável, feliz, não o da subida do caminho com a carga de roupa lavada, e o degrau da porta ali mesmo a jeito, o marido já com um bom par de horas de cama, Rosa de olhos fechados no degrau de pedra, de olhos lentamente abertos em direcção a um céu de lua nova, de estrelas nítidas, a Ursa Maior, sete vezes a direito a distância entre as guardas e eis a Estrela Polar, última estrela da cauda da Ursa Menor, e ainda as Três Marias de Orion, o W da Cassiopeia, os olhos líquidos de Rosa no percurso do acastelamento de constelações, do acasalamento de galáxias, ou apenas de anónimos pontos luminosos, lá muito em cima, brilhantes, brilhantes como o olhar de Rosa antes de amanhã.
No OVERandOUT, com data de 20 de Julho, está um excelente post sobre a história dos BLUES.
Como introdução ao que se vai seguir, recomendo vivamente a leitura desse texto, já que este post é uma espécie de sequência.
Já leram? Então posso prosseguir.
Ao lê-lo, lembrei-me de ter aprendido há tempos que muitas das canções entoadas pelos escravos trazidos de África nas plantações de algodão e outras explorações agrícolas, ou ao longo das vias férreas em construção, se destinavam a orientar e ajudar os que, tentando escapar à escravidão, fugiam em direcção ao Norte e à liberdade. Nas suas letras escondiam-se conselhos, nomes, locais, indicações preciosas para quem empreendia a fuga e queria chegar ao fim.
Procurei na net documentação, e obtive alguns resultados.
É imprescindível referir, a este propósito, a organização que ficou conhecida como The Underground Railroad, formada por pessoas de várias origens, e destinada a proteger e facilitar a fuga dos escravos.
Sobre essa organização, há um bom texto AQUI (em Inglês, mas curto e claro) e uma definição neste local da Wikipédia.
Podemos fazer, no site da National Geographic, uma interessante viagem rumo à liberdade, talvez iniciada com a ajuda de Harriet Tubman (nome de código Moses), e ao longo da qual outras figuras destacadas do movimento abolicionista vão surgindo.
Mas voltemos aos blues.
Entre as músicas cantadas pelos escravos, “Follow the Drinking Gourd” foi seguramente a mais conhecida, desde logo pela extrema clareza da letra.
Senão, vejamos:
When the sun comes back,
and the first quail calls,
Follow the drinking gourd,
For the old man is waiting
for to carry you to freedom
If you follow the drinking gourd.
Chorus:
Follow the drinking gourd,
Follow the drinking gourd,
For the old man is waiting
for to carry you to freedom
If you follow the drinking gourd.
The riverbank will make a very good road,
The dead trees show you the way.
Left foot, peg foot travelling on,
Following the drinking gourd.
The river ends between two hills,
Follow the drinking gourd,
There's another river on the other side,
Follow the drinking gourd.
When the great big river meets the little river,
Follow the drinking gourd.
For the old man is waiting
for to carry you to freedom
If you follow the drinking gourd.
A partir deste esclarecedor vídeo do You Tube, podemos encontrar outras interpretações da canção, a maior parte delas por coros escolares. Parece que a música ficou.
E ficou também a evidente associação dos BLUES à liberdade.


