Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

28 de mai. de 2009

29-05-2009 - Idem idem, aspas aspas (ao cubo...)!




O tempo passa os planos multiplicam-se

Ou antes desaparecem nos segundos

Onde devia haver segundos planos

Como já se escreveu e desejou

Jogando às escondidas com os mundos

Vemos passar pelo passar dos anos

As sombras do que somos e sorrimos

Ao corpo viajante e pressentimos

Que as palavras apenas ficam se

Quem as disse com sede as procurou

Por oceanos nascentes e canais

Caminhos na montanha a despontar

Ou ao sol dos lugares mais banais

Onde se encontram as letras de amar





20 de mai. de 2009

Comparando...

Chico Buarque canta "Geni e o Zepelim", da peça teatral "Ópera do Malandro".

Lotte Lenya canta "Seeräuber Jenny" ("Jenny Pirata"), da "Ópera de Três Vinténs" (Dreigroschenoper"), de Bertolt Brecht e Kurt Weil - na qual a "Ópera do Malandro" foi nitidamente inspirada (e não o digo apenas por esta canção).

Prefiro outras versões alemãs, como a de Gisela May ou a de Hildegard Knepf, mas esta tem a vantagem de apresentar uma tradução para Inglês (não a adaptação de algumas versões, como a de Nina Simone, mas uma tradução mais conforme com a letra original).

A comparação é, no mínimo, interessante.

Em futuro post, talvez coloque frente a frente "Die Moritat von Mackie Messer", mais conhecida apenas por "Mackie Messer" (com várias versões em Inglês, incuindo a de Louis Armstrong), e a "Homenagem ao Malandro", de Chico Buarque, da peça que acima referi. Esta "homenagem" é a única canção da "Ópera..." não composta por Chico Buarque.













10 de mai. de 2009

Uma pequena homenagem a um grande homem... a um homem bom.




Retirado do Público de 4/05/09:

"Foi o primeiro a usar o termo "banda desenhada"
Vasco Granja morreu esta madrugada em Cascais
04.05.2009 - 16h04 Carlos Pessoa
Vasco Granja, divulgador de banda desenhada e do cinema de animação em Portugal, morreu esta madrugada em Cascais. Tinha 83 anos.

Autodidacta e com múltiplos interesses culturais ao longo da sua vida, Vasco Granja nasceu em Campo de Ourique (Lisboa) a 10 de Julho de 1925. Começou a trabalhar, ainda muito novo, nos antigos Grandes Armazéns do Chiado, e depois ao balcão da Tabacaria Travassos, na baixa lisboeta, que consideraria, anos mais tarde, a sua universidade. O seu interesse pelo cinema surge na adolescência e aos 16 anos chegaria a ser admitido como segundo assistente de fotografia no filme “A Noiva do Brasli”, de Santos Neves.

No início da década de 50 envolve-se no movimento cineclubista, tendo desempenhado funções directivas no Cine-Clube Imagem. Granja foi preso pela primeira vez pela polícia política do Estado Novo em Novembro de 1954, quando militava clandestinamente no PCP. Esteve preso sem julgamento seis meses e quando foi libertado voltou às suas actividades cineclubísticas e à divulgação cultural na imprensa. Datam de 1958 os seus primeiros artigos sobre o cinema de animação, nomeadamente na sequência da descoberta dos filmes experimentais do canadiano Norman McLaren.

No início da década de 60 arranja trabalho na Livraria Bertrand, onde se manteve até à reforma.
É preso de novo em 1963, julgado e condenado a 18 meses de prisão. Quando foi libertado, em 1965, Vasco Granja retoma a sua actividade cultural, com artigos nos “media” sobre cinema e literatura.
O seu nome é habitualmente associado à divulgação da banda desenhada em Portugal. O termo “banda desenhada” é, aliás, utilizado pela primeira vez por Granja num artigo publicado pelo “Diário Popular” em 19 de Novembro de 1966.

Integra a equipa fundadora da revista francesa de crítica e ensaio de banda desenhada “Phénix”, nos anos 60 e participa regularmente no Salone Internazionale dei Comics, em Lucca (Itália), o mais importante encontro do género nos anos 70.

Em Portugal, a sua actividade de divulgação da banda desenhada intensifica-se a partir do aparecimento da edição portuguesa da revista “Tintin”, em Junho de 1968, onde escrevia e traduzia artigo, além de ter a responsabilidade da secção de cartas aos leitores. Foi director da segunda série da revista “Spirou” (edição portuguesa) e coordenador da edição de banda desenhada da Bertrand. Animou o “Quadrinhos”, um dos primeiros fanzines surgidos em Portugal, em 1972. Esteve ligado à fundação da primeira livraria especializada de BD em Lisboa, O Mundo da Banda Desenhada, em 1978.

Em 1974 e 1975 integra o júri do Salão Internacional de BD de Angoulême. Depois de 25 de Abril de 1974, Vasco Granja mantém um programa regular sobre cinema de animação na RTP, que teve mais de 1000 emissões e divulgou sistematicamente as grandes escolas internacionais do género. Estava reformado desde 1990.
"



1 de mai. de 2009

Do 25 de Abril ao Primeiro de Maio...






Um bom 1º. de Maio para todos!


17 de abr. de 2009

FRAGMENTOS: Cafés e afins por onde passei, convenientemente suspensos no tempo e no espaço para que possa visitá-los quando me apetecer.

Café, snack-bar e restaurante Mandarim & outros que vêm a propósito


- Ó pá, viste o Mário? – perguntava o Rogério.

- Qual Mário? - retorquia o Zé Manel.

- O das Cadeiras!

- Ah, esse! Saíu daqui há uma meia hora. Deve ter ido estudar.

- E que tal? Vamos lá desencaminhá-lo?


Geralmente, iam.



Passava-se esta cena no Café, Snack-Bar e Restaurante Mandarim, com alguma frequência e por razões diversas, a mais rara das quais não seria a procura de outro parceiro para a habitual sessão de póquer sintético. O Mário passara a ser “o das Cadeiras” porque, na época dos exames, declarava solenemente: “Vou fazer cinco cadeiras” (ou seis, ou as que fossem) - e fazia-as! Com o tempo, o Rogério tratou de lhe refinar a alcunha para “Marriô des Chaises”, em consonância com a influência político-filosófico-linguístico-cinematográfica dominante, e com mais algum tempo ficaria conhecido apenas por “Des Chaises”.


Estava então uma noite o Des Chaises não no Mandarim, mas no Et Coetera, uma espécie de boîte polivalente, quando viu o Dinis, encorajado por uns uísques precedidos de outras tantas cervejas, dirigir-se à Carlinha, calmamente sentada ao balcão, de copo na mão e completamente desprevenida, e declarar:


- Carlinha, da próxima vez que nos encontrarmos, vamos para a horizontal!


A Carlinha olhou-o nos óculos e sorriu. Não cinicamente, nem de forma sarcástica, nem com desprezo ou sequer ironia. Simplesmente, sorriu e, com aquele sorriso, apagou as intenções, as ideias, os sonhos e a enfática declaração do Dinis. Para todo o sempre.


Convém esclarecer que a Carlinha era uma sextanista de Medicina dotada de invulgar beleza e elegância, uma morenaça que, geralmente contra a sua vontade, despertava desejos e arrasava corações. O Dinis, gordito, óculos muito graduados, já tinha acabado a licenciatura, e nunca se lhe vira semelhante atrevimento, nem pouco mais ou menos. Mas a Carlinha, além da beleza, tinha uma qualidade que hoje raramente se encontra nas respostas àquelas perguntas que se fazem na televisão ou nas revistas, que qualidades prefere nos homens, ou nas mulheres, tanto faz, e lá vêm a inteligência (a Carlinha não teria muita, mas...), honestidade, lealdade, beleza, sinceridade, ambição e mais sei lá o quê, mas a bondade parece primar pela ausência. Dir-se-ia uma qualidade desvalorizada, esquecida, preterida. Seja pelo que for, quase nunca é mencionada. Ora a Carlinha era uma pessoa bondosa, e daí aquele sorriso eficaz dedicado às inusitadas pretensões do Dinis.


No Et Coetera, a música calava-se invariavelmente às quatro da manhã, logo depois de o disc-jockey passar o célebre “Vamos dormir” com que a RTP mandava a pequenada para a caminha por volta das nove da noite. Depois ficava-se por lá, a “acabar as bebidas”, e a conversa rendia até quando se quisesse. À saída, despedíamo-nos do porteiro, o Sr. Américo, homem de idade, afável e perfeitamente informado, ou não tivesse certa noite abordado muito discretamente o Zé Manel, que ia a saír:



- Olhe, Senhor Doutor, aquele seu amigo de barbas esqueceu cá ontem este livro, que por sinal é um livro “pribido”. Será que quer levá-lo para lho entregar, ou quer que eu o guarde bem guardado?


Chegávamos ao Et Coetera depois de uma passagem pelo Atenas e pela bica do jantar no já referido Mandarim, um café de dois andares onde se entrava descendo dois ou três degraus e se encontrava um enorme balcão de snack-bar, em L, e umas dez mesas onde raramente se jantava, já que pareciam estar destinadas a acolher os grupos que vinham tomar o café e, sendo caso disso, o digestivo. No snack almoçava-se mais do que se jantava. A ementa era quase sempre a mesma, os combinados da praxe, bife, prego no prato, bitoque, filetes de pescada, linguado “au meunier”, carne de porco à alentejana, jaquinzinhos em devido tempo, lulas à sevilhana, um cozido ou uma feijoada de vez em quando e, raramente, uma ou outra surpresa gastronómica. Vinhos razoáveis, preços médios e confecção satisfatória.


Subindo uma escada interior alcançava-se o primeiro andar, unicamente preenchido por mesas e respectivas cadeiras. Este nível do Mandarim tinha a interessante particularidade de servir clientelas e propósitos diferentes conforme a hora do dia ou da noite. De manhã, os comerciantes da Praça vinham ao pequeno-almoço, tal como os empregados dos estabelecimentos próximos, muito poucos estudantes e algumas senhoras da noite, tendo esta última freguesia, conjugada com a relativa abundância de mesas, valido, aliás injustamente, ao Mandarim o epíteto de Mesoputâmia. Logo a seguir, as mesas do pequeno almoço transformavam-se em mesas de estudo individual ou colectivo. À hora do almoço, pouca clientela, maioritariamente constituída por homens de negócios. Estudantes e um ou outro professor preferiam o snack do piso inferior. Logo a seguir, a malta da bica, variada q.b., mas com predominância de universitários, alguns dos quais iam ficando durante a tarde. Mais estudo. Ao lanche apareciam senhoras para o chá, e à noite, aí sim, havia mais afluência, diversa e variada, para o jantar e bica subsequente, até à meia-noite, hora de fecho impreterível.



O Anselmo, o proprietário, tinha uma política comercial interessante: Quando alguém partia acidentalmente o copo da imperial que estava a beber, imediatamente lhe era servida outra, por conta da casa. Hábito simpático e raro de encontrar, que acabou bruscamente numa noite em que o Jopan, um latagão caboverdiano de quem se dizia que tinha arrancado à mão algumas placas daquelas que indicam os nomes das ruas (seriam de latão, mas mesmo assim...) e que detinha o recorde de 56 canecas de cerveja emborcadas numa só noite, de seguida, não no Mandarim mas no Aeminium, célebre pelos pregos no prato bem temperados e com muito molho... o Jopan, dizia, já bastante entornado, trepou para cima de uma cadeira e começou a “deixar caír” imperial atrás de imperial, depois de as ter bebido quase até ao fim.. E lá se foi a estratégia de marketing do Anselmo e consequentes baldas. A vida é injusta!


A partir da meia-noite subia-se uma ruazita até ao Atenas, o café do Quadros, frequentado principalmente por alunos dos últimos anos da Universidade. O Quadros era um porreiraço, fazia facilmente amizade com a clientela regular, e tinha sempre em cima do balcão um tabuleiro de xadrez. Sem problemas, desafiava os melhores jogadores, e perdia sistematicamente com um garbo imparável:


- Ó Quadros, olhe que assim fica sem a torre!

- Mas para que é que eu quero a torre?

- Ó Quadros, vai perder a raínha!

- Mas para que é que eu quero a raínha?


Realmente...


Jogo em que nunca perdia era a moedinha, que ainda congregava bastantes parceiros. Se o Quadros ganhava, recolhia as moedas, e pronto. Se perdia, o vencedor da ronda, como era de regra, pagava uma rodada aos companheiros de jogatana – e o Quadros facturava...


No Atenas começavam frequentemente as conversas que iriam, depois das duas da manhã, desaguar no Et Coetera ou no 007, um pequeno restaurante descoberto na “baixinha”, que tinha a particularidade de servir bons petiscos até às quatro, além de um queijo da serra excelente e de uma garrafeira à altura.

O Fernando era quem mais falava, fosse de política, cinema ou filosofia. Passavam-se os “Cahiers du Cinéma” e os últimos filmes a pente fino, entre goladas de um Dão Caves Velhas Juta que estava em voga e com bom preço.


- O Bataille não diz nada disso, pá, não compreendes a essência do internacional-situacionismo... - Ó Carlos, traz aí mais uma garrafinha de Juta, por favor, que ainda sobrou queijo... – lê o Deborde, que só te faz bem!

- Espectacular, este “serra”! Onde é que o homem irá arranjar isto?

- Mas o Barthes, a Kristeva e o Todorov são essenciais para... Olha, Carlos, se não te importas, mais umas fatias deste pão, ok?... – uma abordagem séria da Linguística...

- E que tal se lessem Marx e Lenine, em vez desses teóricos da treta do não sei quantos situacionismo, hein?

- E porque não Gramsci? Porque não Althousser? “Pour lire Le Capital”, pá, está lá tudo! E ... – Falta aqui queijo, Carlos!

- Não me lixes! O que move o mundo não é a luta de classes coisa nenhuma, é a angústia do homem perante a morte! Basta ler o Morin, porra!

- Digam lá, alguém aqui conseguiu ver “O Último Ano em Marienbad” até ao fim?


E assim se evocavam ou invocavam os velhos e novos teóricos do marxismo de diferentes tendências, sobretudo as heterodoxas, e os de outras correntes ideológicas, sem falar nas literárias, artísticas, e por aí adiante. Naturalmente, a situação política do país não podia escapar, tanto mais que, para além da conversa, havia naquele grupo gente que também era de acção, gente que já tinha “estado dentro” e outra que viria a estar.


Predominantemente masculino, o grupo, que variava consoante as noites, incluía mulheres, facto pouco frequente nesse tempo e, em particular, a essas horas. Mas lá estavam, por exemplo, a Docas, que cozinhava um rim espectacular, e a Eugénia, que não cozinhava coisa nenhuma. A Carlinha é que não. Chegava até ao Mandarim, mas depois abandonava o grupo, porque se deitava relativamente cedo, exceptuando, é claro, as noites de Et Coetera.


Foi do Mandarim que partiu o Ernesto rumo à Dinamarca, no NSU de um amigo, que o pôs lá em cerca de 24 horas, para escapar à guerra colonial, isto uns meses antes do 25 de Abril... O Ernesto frequentava o quarto ano de Medicina e estes cafés e afins todos, e passava muitas vezes por dificuldades económicas, que ia resolvendo pelo velho método do cravanço de amigos com maior disponibilidade conjuntural. Munido de uma pequena agenda, anotava religiosamente as verbas que lhe emprestavam e os nomes dos benfeitores. Ainda ficou uns dois anos pela Dinamarca, apaixonado pelo país e possivelmente também por algumas das suas habitantes, e lá arranjou trabalho, o que lhe permitiu, ao regressar, procurar um por um os amigos a quem devia dinheiro e acertar as contas até ao último centavo.


O Des Chaises foi um dos muitos financiadores que ficaram atónitos com o inesperado reembolso. É justo que se diga que nunca contou a ninguém o episódio do Dinis e da Carlinha – mas alguém mais o terá testemunhado, porque a história correu de boca em boca. E, conforme um refrão da época, “Não vale a pena dizer nada, que amanhã sabe-se tudo!”




4 de abr. de 2009

Aproxima-se a Páscoa... é um pretexto como qualquer outro...

A fonte e a autoria desta receita, que me parece... enfim... de experimentar JÁ, vão indicadas no fim do post.


Anho da Festa de S. João (O S. João ainda vem longe, mas isto deve ser bem melhor do que o Cordeiro Pascal, por isso...)


Ingredientes

* 1 anho

* 400 gr de cebola
* 5 dl de vinho branco
* 1 colher de sopa de colorau
* 1 colher de chá de pimenta branca
* 4 dentes de alho esmagados
* sal grosso
* 4 folhas de louro
* 100 gr de salpicão
*100 gr de toucinho
*100 gr de chouriço de carne
* 2 kg de grelos
* 600 gr de arroz
* 3 kg de batatinhas novas pequenas
* 2 cenouras médias
* 200 gr de banha
* 3 dl de azeite




Confecção:

Depois de cortado o anho, tempere com o sal, pimenta, o vinho branco, os alhos, as folhas de louro e o colorau e deixe marinar de um dia para o outro.
Retire da marinada e barre com a banha de porco no tabuleiro de ir ao forno.
Coloque 2 cebolas e as cenouras cortadas em rodelas.
Leve ao forno durante uma hora a 200 graus e vá virando para que fique louro de todos os lados.
Regue com a marinada, junte as batatinhas e deixe cozinhar mais 30 minutos.
Leve ao lume, numa panela, 3 lt. de água com a restante cebola, o salpicão, o chouriço e o toucinho, a cabeça e o cachaço do anho, tempere de sal e pimenta e deixe cozer cerca de 1 hora.
Retire as carnes, corte os enchidos em rodelas e o toucinho em tiras, deite fora o cachaço e a cabeça.
Junte então o arroz ao caldo a ferver e coloque num alguidar de ir ao forno.
Enfeite com as rodelas e as tiras de toucinho e leve ao forno durante 30 minutos.
Sirva o anho acompanhada com os grelos cozidos e salteados em azeite e alho, as batatinhas e o arroz de forno no alguidar.


Fonte: Câmara Municipal do Porto - Turismo
Autor: Chef Hélio Loureiro


Bom apetite! E biba a Inbicta, carago!


Citação do dia: "E sobremesa? Não se arranja um semi-frio?" (Lizzie).
Hmmm... será que se arranja?


A resposta da Prof:



Está a chegar a época dos figos lampos.

Cortam-se os figos em oitavos (quartos na verical, divididos ao meio, na horizontal)- sem pele, se esta for muito grossa.
Numa taça, mistura-se iogurte magro, natural, com natas ( a dosagem fica ao critério de cada um(a).
Deita-se uma camada de figos; cobre-se com a mistura de iogurte e nata, polvilha-se com açúcar amarelo.
Repete-se a operação, as vezes necessárias até acabar os ingredientes; a quantidade destes, depende do número de convivas.
Vai ao frigorífico a arrefecer.


A resposta do Legível:



Arroz doce bem legível:

A) Ingredientes:

.Arroz que encha uma chávena almoçadeira das mais pequenas.
.1 litro de leite.
.200 gramas de açúcar.
.Casca de limão.
.4 ovos.
.Canela.

B) Execução:

.Depois do arroz ferver (de preferência em tacho de barro e sem esquecer a casaca do limão*) e bem aberto, juntar o leite (previamente fervido) e o açúcar.
.Em lume brando, ir mexendo (com colher de madeira de preferência) até ficar consistente.
.Juntar "em pingo" e ir mexendo bem, as quatro gemas dos ovos, batidas previamente, até o arroz ganhar a cor amarelada por inteiro.

.Sem deixar arrefecer, distribuir o arroz em pires e polvilhá-lo com a canela ao gosto artístico de cada um. Nesta quadra, costumo desenhar (com o bico do adaptador da canela**) cordeiros e amêndoas. Para os menos habilidosos sugiro os dizeres "Uma doce Páscoa na Companhia de Quem Mais Gostarem".

*A casca do limão e não a casaca, que nestes casos o limão está vestido o mais casual possível...

**Os virtuosos do futebol acham que é com o peito do pé. Quem sou eu para os contrariar...

OBRIGADO A AMBOS! E PARECE QUE AINDA VAI HAVER MAIS...




Pois vai. Faltava cá o vinho, e eis que a Arabica passou do café ao Reguengos Reserva
2002 tinto. Obrigado! Vem a calhar, que já estava com uma certa sede.

OOPS! A primeira pessoa a falar em vinhos foi a MJF, e esqueci-me completamente de aqui pôr a sugestão que deu, conforme prometi. Com as minhas desculpas, e o meu agradecimento, fica a sugestão do Alvarinho!


18 de mar. de 2009

Interlúdio muito simples

Momentos de um cidadão preocupado





Contemplo a crise que passa nas ruas

Por entre a chuva que bate às janelas:


- Se ao menos conseguisse acender a lareira...!


Ligo o aquecedor e a televisão,

Vou à cozinha em busca de um petisco:


- Se ao menos houvesse pão saloio e presunto...!


Volto com uma cerveja e azeitonas.

Nas notícias só há sangue e tragédias:


- Se ao menos desse o Dr. House ou o Seinfeld...!


Vou picando e bebendo devagar,

Sentado no sofá, já meio ausente:


- Se ao menos a Académica ganhasse hoje...!




8 de mar. de 2009

Epílogo do epílogo...

Afazeres inadiáveis impediram-me de mais cedo vos dar conta da sequência da minha conversa telefónica com Poirot. Procurei fazê-lo de forma clara e o mais sucinta possível, mas sem perda do colorido original. Agora que acabei a narrativa, constato que ficou muito mais longa do que desejaria. No entanto, resumir a história tirar-lhe-ia todo o sabor, toda a riqueza e pitoresco do conteúdo, proporcionados pelos protagonistas, entre os quais se contam as minhas comentadoras e os meus comentadores (golpe baixo!) e, evidentemente, a extraordinária personagem que é Hercule Poirot. Portanto, heróicos e hipotéticos leitores, não desistam! :)

* * *
Tinha acabado de tomar o meu café da manhã quando Poirot me bateu à porta. Foi direito ao assunto, apesar do seu reconhecido gosto pelos circunlóquios e explicações teatrais.

- Caro Alien, como lhe disse ontem à noite, o seu raciocínio foi realmente brilhante. Esqueceu-se, porém, da pista que lhe ofereci ao sublinhar a palavra início, associada à inscrição na pedra. Considerando a mensagem do larápio, início de quê? Vou explicar-lhe a forma como abordei a pedra quando a vi aqui em sua casa, no dia em que descobri o autor da façanha. Já agora, sempre acrescento que, dos seus três suspeitos não eliminados, rapidamente percebi qual correspondia perfeitamente ao perfil psicológico adequado à proeza e ao gesto de soberba materializado na gravação feita na pedra e deixada à sua atenção. Porém, isso não me bastava. Perguntei, portanto, a mim próprio se não existiria nesse gesto mais do que uma simples gabarolice, ou tentativa de o humilhar, ou sensação de impunidade... Enfim, se não existiria, digamos, uma prosápia dentro da prosápia. Ao ler o texto, pareceu-me ele um tanto estranho, um tanto forçado. Comecei, por isso, a olhá-lo de outra perspectiva, deixando de lado o sentido das palavras para as considerar em si mesmas, reparando na forma e na disposição. E foi assim que cheguei. E agora pergunto-lhe, referindo-me à pista que lhe deixei: Tendo em conta a inscrição, o que poderia
ser o início?


A primeira palavra? "Ruínas"? Nada nos diz. A primeira linha? Também não é conclusiva, e o mesmo se pode dizer das duas primeiras linhas. Mais do que isso já não pode ser considerado início, não é verdade?
- Concordo, Poirot! Também analisei a inscrição dessa forma, mas não me veio à ideia nada de útil!
- Deveria ter persistido, Alien! Se não se tratava da primeira palavra, nem da primeira linha ou linhas, não poderia ser a primeira letra de cada linha?

- Talvez se surpreenda, caro Poirot, mas também pensei nisso, e cheguei à "palavra" RFEVA. A mim, nada me disse. E a si?
- Também não, claro! E ficou por aí?
- Fiquei, Poirot, desisti, vencido pelo cansaço...
- Pois olhe que o mesmo não aconteceu com a sua amiga Prof! Veja o que ela escreveu num comentário:

"Rumo ao blog
fus
tigada pela curiosidade mas
foi
-se a esperança, lido
o
último post;
la
mento ter de esperar mais um dia. Nem na
dio isto acontecia. E fico à espera e nem
pio!"


E acontece, caro Alien, que Rufus era o meu eleito, e foi também a sua assinatura que encontrei na pedra, quando considerei as primeiras sílabas de cada linha! O resto veio por acréscimo. Conhecendo o mau carácter do General Rufus e a sua manifesta tendência para a charlatanice e para a batota, percebi que poderia muito bem não respeitar a regra das sílabas. Ou então, como afirmou o narrador, ou seja, a sua amiga Teresa, a fluência de Rufus na leitura é muito fraca! E não passa de um gabarola sem limites. Faço aqui uma pequena pausa para lhe lembrar que todas as pessoas que comentaram os seus posts acerca do roubo do prémio lhe deram ajudas preciosas e se inclinaram, de um modo geral, para a culpabilidade do General Rufus.

Poirot encheu o peito de ar e continuou:


Olhando atentamente para as linhas seguintes, eis o que vi (aqui Poirot sacou de um papelinho muito bem dobrado, abriu-o com todo o vagar e pôs-mo diante dos olhos):

"Ru ínas serão em breve o que deste blog restará, a começar pelo estandarte.
Fus
tigado pela cólera dos deuses, o impostor receberá o devido castigo.
Este prémio não é para qualquer ser vindo das profundas, um profano alienígena, um hereje!
Ve rde, ainda por cima! Como é doce o sabor da vingança, e justo ter nas mãos o que mereço!
Aqui o declaro, para quem venha testemunhar a razão da minha ira e rir-se do usurpador."

Estarrecido, considerei a claríssima assinatura do ladrão: "Rufus esteve aqui."

- É notável, Poirot, notável! Foi, então, Rufus...?
- Claro, mon ami, claro! Palavra de Hercule Poirot!


A princípio entusiamei-me com a revelação, mas em breve o meu cepticismo veio ao de cima:


- Mas, Poirot, não poderia ter outra pessoa feito a inscrição e deixado a pedra para incriminar Rufus?

- Ah, mon ami, mas quem, de entre os suspeitos que ficaram, poderia ter cometido tal acto? A Condessa? A sua amiga Teresa Durães? Acha mesmo possível...?
- Na verdade, Poirot, não acho... mas, mesmo assim, faltam aqui provas...


Poirot indignou-se e gesticulou, como que a apontar os alvos do seu desagrado:

- Ah, caro Alien, sempre as provas, os inúteis indiciozinhos materiais, as pontas de cigarro, os copos com restos de bebida e marcas de bâton... e as celulazinhas cinzentas, para que servem? Sim, para quê? - Poirot abriu os braços e prosseguiu: - Mas quer provas? Pois bem, Hercule Poirot lhe dará as provas que tanto aprecia, e ainda algo mais! Tem a sua nave por aqui estacionada?

- Tenho...
- Então vamos, que não há tempo a perder!


Levantámos voo sem demora, e fui seguindo as indicações de Poirot sobre o rumo a tomar.

- Desça aqui! - exclamou o meu amigo, depois de uma olhadela discreta ao relógio de bolso.

Aterrei e escondi a nave entre umas árvores que ali estavam mesmo a calhar. A uns trezentos metros, avistei uma construção de um só piso. Interroguei Poirot com o olhar, mas o meu companheiro de viagem não se descoseu. À medida que nos aproximávamos, cada vez mais estranhava o local, até que, já próximo do edifício, identifiquei nitidamente a placa de um restaurante.

- Poirot? Um restaurante? Aqui é que estão as provas?
- Mais non, mon ami, aqui não!
- Mas... não me disse que não havia tempo a perder?
- Não seja impaciente, Alien, não seja impaciente! Isto é tudo menos perder tempo! Há que respeitar o horário das refeições, e estamos na hora do almoço... e acontece que neste restaurante, perdido no meio de nada, servem o melhor prato de moules et frites que já provei fora da Bélgica!

Já vencido e convencido, confidenciei:

- Não sei se sabe, Poirot, que já tive ocasião de me banquetear com essa deliciosa especialidade, algures nos arredores de Antuérpia!
- Ah, Anvers, mon ami, Anvers! Que saudades!

Apesar de todas as pressas, saboreámos lentamente o petisco, regado por um excelente branco da casa, continuámos com uma fatia de cheesecake e rematámos com um caffè espresso que estava mesmo no ponto. Já mais bem disposto, encaminhei-me para a nave, com Poirot ainda a elogiar a refeição e o chef.

Conhecendo Poirot como conheço, não me dei ao trabalho de lhe perguntar onde me levava, limitando-me uma vez mais a seguir a sua orientação. Não tinham ainda decorrido duas horas de voo quando o meu amigo finalmente falou:

- Ali, Alien, poise o seu veículo ali naquela clareira!

Obedeci e, ao descer, apercebi-me de que nos aproximávamos de um bosque bastante denso. Da clareira partia um único trilho estreito que começámos a percorrer logo que abandonámos a nave. Andámos uns bons quinhentos metros até darmos com uma espécie de muralha - e digo espécie porque me pareceu muitíssimo sofisticada e ostentando grande profusão de elementos decorativos. Para além dela, nada se via. Acercámo-nos de um portão blindado onde se materializaram dois guardas, estranhamente equipados com espadas. Interroguei Poirot com o olhar.

- Caro Alien, eis o acampamento do General Rufus!

Confesso que, nesse momento, senti alguma apreensão, ao contrário da confiança que Poirot parecia revelar. Um dos guardas perguntou-nos quem éramos e ao que íamos. Poirot respondeu sem a mínima hesitação, em tom autoritário:

- Sou Hercule Poirot! Acompanha-me o meu amigo Alien, e pretendemos falar com o General Rufus!

Para minha surpresa, o guarda inclinou-se respeitosamente perante o meu companheiro. Em seguida dispensou-me igual tratamento, e não pude deixar de pensar que, em boa verdade, o nome e a fama de Hercule Poirot chegavam aos lugares mais recônditos e às pessoas menos prováveis...

O portão abriu-se silenciosamente, como se alguém tivesse, do interior, accionado um telecomando - e percebi que o sistema de vigilância não se limitava àqueles dois guardas...

Entrámos, e logo estaquei, mudo de espanto.

Desenho do "acampamento" do General Rufus que compus de memória

- Ac.... acampamento, Poirot? Chama a isto acampamento???

De facto, perante os nossos olhos estendia-se um lugar paradisíaco, um autêntico resort de luxo, com espaços verdes, lagos, pequenas quedas de água, construções de elegantíssima arquitectura, ruas pavimentadas a mármore ou a calçada lusitana - e nem um só elemento militar visível. Ao fundo, um mar sereno, de um azul espantoso. Mas não preciso de me alongar na descrição: A imagem diz tudo!

- Alien, não me surpreende que Rufus tenha trocado a vida austera dos acampamentos militares por este luxo, que creio ser rodeado da maior segurança. Afinal, as chacinas e os saques foram-no enriquecendo, fizeram-no almejar outro estilo de vida, acentuaram a sua natureza vil e corrupta - e aqui tem outro exemplo da sua megalomania... Ou o produto das pilhagens lhe permitiu construír do nada este domínio, ou simplesmente o conquistou pela força das armas. Ah, mas eu já lhas canto!

Mau grado o estado de tensão em que me encontrava, não pude deixar de sorrir perante a prosápia de Poirot e a sua escolha de palavras...

O guarda guiou-nos até àquela que parecia ser a maior construção, uma espécie de pequeno palacete, e pediu-nos que aguardássemos numa sala ricamente mobilada e decorada, onde ficámos a apreciar quadros dignos da melhor galeria de arte.

Decorridos poucos minutos, o General Rufus fez a sua entrada majestosa, acompanhado por um subalterno que imaginámos ser o seu braço-direito.

- Que o traz por cá, Monsieur Poirot?
- A Verdade, General! A Justiça! O castigo do criminoso e a reparação devida à vítima do crime! - declarou solenemente Poirot, com largos gestos à mistura.
- Ora essa, Monsieur! E que tenho eu a ver com isso? - perguntou Rufus em tom altivo.
- Tudo! - retorquiu secamente Poirot. Sei que roubou o Prémio do Melhor Blog Intergaláctico ao meu amigo Alien, aqui presente (só então Rufus se dignou deitar-me um olhar de soslaio) e venho, como lhe disse, clamar por justiça! Suponho que já conhece Monsieur Alien...?
- Ah... um dos Verdes - rosnou o general - ... tenho uma vaga ideia...
- Mais do que vaga, General! - acusou Poirot. - Na verdade, entrou ilegalmente no blog do meu amigo e roubou-lhe o galardão!

A cara de Rufus ficou vermelha de cólera.

- Como se atreve a acusar-me nos meus próprios domínios? Olhe que...

Mas Poirot não o deixou continuar.

- Olhe que, digo-lhe eu, Hercule Poirot nunca fala de cor! Acuso-o, sim, General, porque sei!
- Ah, e sabe como? - perguntou Rufus, cada vez mais encolerizado.

Pormenor da sala onde decorreu a conversa com o General Rufus

O meu amigo levou a mão à algibeira e, num gesto dramático, sacou da pedra gravada e do papelinho que me mostrara nessa mesma manhã, e colocou-os diante dos olhos do General Rufus.

- Foi assim que soube, General. E agora, que tem a dizer? Que se deu à basófia de assinar o roubo como quem assina um quadro? Que foi vencido pela sua vaidade? (A esta última interrogação achei alguma piada...)

A cara de Rufus começou a passar do vermelho ao branco. Gaguejou:

- R... Rufus es... esteve aqui???? -N... n... não ff... fui eu! Não fui eu!
- Foi! - excalmou peremptório o meu amigo. E não adianta negá-lo. O que lhe mostro é prova bastante!

Rufus ia-se recompondo, mas, apesar disso, a sua palidez acentuava-se.

- Monsieur, fala muito e fala de alto, mas não tem provas! Como sabe que algum vulgar bandido não deixou a inscrição com essa frase para me incriminar? Tenho, como sabe, muitos inimigos!

- Et pourtant, - proferiu enfaticamente Poirot - essa assinatura é mesmo sua! É própria da sua personalidade. Mas não percamos mais tempo. Quer provas? Pois saiba que vai dar-me a melhor das provas possíveis: a sua confissão!
- Ora, ora, Monsieur Poirot, por quem me toma? Crê mesmo que eu, General Rufus, confessaria tal acto, mesmo que o tivesse cometido?
- Ah, sim, creio... Sabe, General, é perigoso subestimar Hercule Poirot!

Juntando o gesto às palavras, Poirot voltou a levar a mão ao bolso do sobretudo, e de lá extraíu algo de forma rectangular que não identifiquei, e que colocou frente aos olhos do General. Rufus examinou o objecto e a sua face começou então a adquirir um tom esverdeado - o que, admito, me preocupou um bocadinho...

- Então, General, reconhece alguém nesta fotografia? - perguntou Poirot, com um sorrisinho de triunfo.

Tratava-se, então, de uma fotografia! Rufus olhou-a e vacilou, cada vez mais verde.

- Eu... eu...

(No momento em que vos narro estes factos, tenho na minha posse uma cópia da foto, que Poirot entretanto me cedeu. Por muito que me agradasse publicá-la aqui como testemunho do ocorrido e para vosso divertimento, é evidente que o não posso fazer, sob pena de traír a confiança do meu amigo Poirot e a sua promessa ao General Rufus.)

Poirot prosseguiu, implacável:

- Quem é o sujeito que enverga essa estranha indumentária e, citando uma testemunha presencial, liga na perna, sentado em frente a uma garrafa de whisky quase vazia e, afirma outra testemunha presencial,
acompanhado de duas meninas esbeltas? Quem será, General? E o local, lembra-se do local? Será, e de novo recorro à palavra de quem tudo viu, uma casa de alterne onde passou tempos memoráveis? Então, General, confessa? Ou prefere ver a sua reputação para sempre arruinada, e os seus vícios alvo de chacota pública?

Poirot enfrenta Rufus com cara de poucos amigos

O meu amigo viera, afinal, fortemente armado... e a perturbação do general era evidente. No entanto, com um gesto brusco, arrancou a foto comprometedora das mãos de Poirot e rasgou-a em mil pedaços.

- E agora, Monsieur, que é feito da sua arma? Queria chantagear-me? Menosprezou Rufus - e isso, sim, é perigoso!
- Já vamos ver quem menosprezou quem, General. Saiba que, neste preciso momento, o meu amigo Capitão Hastings tem na sua posse uma dúzia de cópias da fotografia que destruiu, com instruções expressas para as enviar à Imprensa, a começar pelo Times, caso eu, Hercule Poirot, não me encontre com ele, são e salvo, dentro de duas horas, em local que combinámos! Saiba também que não tenho forma de comunicar com Hastings, pelo que seria inútil concretizar a ideia que passa neste instante pela sua torpe cabeça: Torturar-me!

Poirot pôs-se em bicos de pés.

- Confessa ou não?
- Eu... eu... Pronto, eu confesso! - sibilou Rufus, vencido. E agora saia dos meus domínios!
- Mais non, General! A sua confissão talvez baste ao meu amigo Alien, que tanto queria as provas (Poirot deitou-me um olhar de esguelha) - mas, para mim, não é suficiente!
- Que mais quer, então? - gritou Rufus, quase alucinado.
- Como lhe disse, vim aqui em busca da Verdade. Já a temos. Mas também o avisei de que vinha igualmente pela Justiça, pela reparação do dano causado ao meu amigo Alien e pelo castigo do criminoso. Assim sendo, exijo-lhe que, aqui e agora, devolva a Monsieur Alien o que lhe roubou! Ou isso ou a foto vai...
- Muito bem, Monsieur. Ganhou. Por agora.

O general dirigiu-se aio seu presumível braço-direito:

- Sem Nome, traz-me aquilo que te dei a guardar!

Sem Nome desapareceu nas entranhas do palacete. Após alguns segundos de hesitação, Rufus perguntou a Poirot:

- Como obteve essa fotografia?

- Ah, General, é bem certo que os pecados antigos projectam longas sombras! Acontece que este seu pecado nem sequer foi muito antigo. Eu explico-lhe - Poirot esfregou as mãos e lançou-se num discurso que me ia deixando cada vez mais atónito:

- Há apenas algumas semanas, um interessante grupo reuniu-se à volta de uma mesa do Mini Bar Boca de Pano
.

Dele faziam parte a Senhora Dona Teresa Durães, acompanhada pelo Sr. Narrador, por uma Caturra que lhe poisava no ombro, pela D. Ingrácia e marido e pela Senhora Condessa D'Aqui e D'Além; a Senhora Dona Lizzie, que não largava da mão um pato de plástico branco e conversava animadamente com a Senhora Dona Lili Malveira e com o Sr. Engº. Phil Collins da Conceição; o compadre Manel das Cabras Ruivas, que não largava da vista a Dona Lizete das limpezas e a copeira Ofélia, enquanto trocava pilhérias com o compadre Zé Zarolhe; a Professora Prof, em animada cavaqueira com a menina Andreia Vanessa e a Madame de La Palissa; a Senhora Dona Bettips, o Sr. Legível e a sua Ovelha Anónima, a Senhora Dona AlienDS; a Senhora Dona Wind, o Sr. Spartakus, a Senhora Dona Justine e o Sr. Mocho Falante; a Senhora Dona Emma Larbos, a Senhora Dona Mariatuché, a menina Beatriz, uma Senhora soit-disant Coxa e Marreca, a Professora Mar, a Professora Rosalina, a Senhora Dona Arabica Das Perguntas Difíceis e a E.T. Senhora Dona Lola; as poetisas Afonsa Lapa da Videira e Luísa dos Camiões, rodeadas pelo dramaturgo Gil Vicente e pelos poetas José Régio, Augusto Gil, Bocage, Fernando Pessoa, António Aleixo e Mário de Sá-Carneiro; os elementos de um grupo coral alentejano que volta e meia desatavam a cantar "Eu ouvi um passarinhôôôô..."; o gato Alá - e que me perdoe alguém que de momento não me ocorra. Lá do alto, velavam pelo estranho grupo Santa Lizzie (de evidente origem!) e S. Miguel Arcanjo, convocado pela já citada Senhora Dona Emma Larbos. A conversa ia animada, uns atiravam-se às minis e aos salgadinhos, outros ao vinho quente com canela, enfim, uma autêntica festa! Ora acontece que, paredes meias com o Mini Bar, funciona uma discreta casa de alterne, facto que - quero crer! - aquela distinta companhia ignorava... mas que se tornou evidente quando uma larga porta de comunicação, convenientemente disfarçada na parede, se abriu para deixar saír alguns fregueses da dita casa, apostados certamento em terminar a noite no Boca de Pano. Tendo a porta permanecido aberta, fosse por incúria ou por operação de marketing, os convivas tiveram ocasião de apreciar uma cena digna de registo: Um indivíduo manifestamente alcoolizado, envergando um traje esquisito e liga na perna, tentava cantar a Lusitana Paixão acompanhando uma máquina de Karaoke, enquanto ia escorregando pela mesa abaixo, apesar de amparado por duas belas funcionárias do estabelecimento. O grupo dividiu-se entre a estupefacção, o escândalo, a gargalhada e a curiosidade. Porém, duas das senhoras, que obviamente não vou nomear, General, para que não caia na tentação de sobre elas exercer furtivamente represálias, mantiveram um sangue-frio admirável e registaram a cena. Foi assim que...

Poirot calou-se quando viu reaparecer Sem Nome transportando uma pequena caixa que me era muito familiar, e da qual, emocionado, não tirei os olhos. Entregou-a ao General Rufus, que a abriu, perguntando a Poirot:

- Está tudo?

Hercule consultou-me com o olhar.

- Tudo, Poirot. O galardão, a dedicatória, o estandarte... não falta nada - respondi louco de alegria.

- Faça-se então Justiça! - exclamou Poirot encarando Rufus, que, manifestamente contrariado, me entregou a caixa. Segurei-a com mãos trémulas, e o meu amigo concluiu:

- General, foi feita Justiça e o dano reparado. Falta o castigo do criminoso. Vou ser benevolente... por esta vez. Conservarei na minha posse as cópias da fotografia, e ai de si se alguma vez voltar a cometer proeza semelhante! Ai de si se tentar vingar-se de alguma das pessoas que mencionei, e que são absolutamente inocentes! A cólera de Hercule Poirot abater-se-à sobre a sua cabeça, General! Lembre-se das minhas palavras!

Retirámo-nos, acompanhados pelo mesmo guarda que nos facultara a entrada. Cerrado o portão, enveredámos pelo trilho de regresso à clareira. Não me cansei de agradecer a Poirot e de lhe tecer merecidos louvoures. Recebeu-os com naturalidade, alisando significativamente o bigode e sorrindo, satisfeito.

- Caro Poirot, compreendo perfeitamente que não tenha querido revelar ao General Rufus quem imortalizou a cena da casa de alterne, mas... não mo dirá a mim, Alien?
- Mais oui, mon ami, claro que lhe digo! A sua amiga Arabica registou-a com o auxílio de um aparelho a que chamam câmara digital; e a sua amiga Lizzie gravou-a através de um engenho conhecido por memória fotográfica. Aí tem!
- Bom, confesso que não fico surpreendido...

Durante o voo de regresso, ofereci:

- Poirot, sei que não é agradecimento bastante, mas estamos na hora do chá e, como muito bem disse, é necessário respeitar o horário das refeições. Convido-o, com todo o gosto, a beber em minha casa uma nova tisana que tenho andado a experimentar!

Pelo olhar de Poirot perpassou - pareceu-me! - um lampejo de ironia...

- Mon ami, sinto-me muito honrado, mas, como sabe, tenho de me encontrar com o Capitão Hastings dentro do prazo acordado... A palavra de Hercule Poirot é sagrada!
- Seja, então, Poirot. Ficará talvez para outro dia...

O local combinado era, afinal, a residência de Hastings. Estávamos já perto quando a pergunta me ocorreu de súbito:

- Poirot, desculpe a minha curiosidade... bem sei que contou a Rufus as circunstâncias em que a sua comprometedora visita à casa de alterne foi fixada, e até me disse há pouco por quem... mas... parece-me que não chegou a revelar como obteve as fotografias...?

- Ah, mon ami... achará certamente natural que, no dia seguinte ao da reunião no Mini Bar, já algumas cópias da foto e da memória fotográfica andassem de mão em mão entre as pessoas de que falei. Decerto calculará que, na minha breve investigação, tive ocasião de ler atentamente as suas caixas de comentários, que se revelaram um auxílio precioso. Finalmente, haverá de imaginar que contactei algumas das testemunhas... mas sabe, caro Alien, quando estão em causa les dames, um cavalheiro tem que ser discreto... compreende, não é verdade, mon ami?


Compreendi perfeitamente. Saíra-me fresco, este Poirot! Chegados ao ponto de encontro, despedi-me, demonstrando efusivamente a minha gratidão, e segui viagem, contemplando com satisfação e orgulho o meu galardão, e jurando que nunca mais o exporia no blog, desprotegido e sujeito à cobiça de qualquer patife. Porque, é bem verdade, Rufus há muitos! Rufus há muitos!


25 de fev. de 2009

Epílogo

Ontem à noite telefonei a Poirot. Farto de dar voltas à cabeça e de, em vão, esperar ajuda na descoberta do autor do roubo do prémio, não resisti a dar-me por vencido. O meu amigo atendeu-me com afabilidade, manifestamente bem disposto. Teria certamente acabado de beber o seu precioso cacau quente.



- Então, caro Alien, não chegou a conclusão nenhuma a partir das pistas que lhe dei? Não excluiu sequer alguns dos suspeitos, considerando a vertente dos perfis psicológicos?
- Excluí, sim, claro que excluí! Aliás, a minha grande tentação foi a de os eliminar a todos, por não acreditar que os meus comenta
dores e amigos fossem capazes de invejar, cobiçar e roubar o meu galardão. Depois pensei melhor...
- E...?
- E mantive como suspeitos a Caturra, a Santa Lizzie, a Condessa, o General Rufus e a Teresa Durães.
- Ah, e porquê, mon ami?
- Bem... os quatro primeiros por não os conhecer suficientemente bem - e, no caso da Santa Lizzie, ainda havia a agravante de ter semi-usurpado a identidade da Lizzie, que já lhe expliquei ser um dos elementos de uma trindade de duas.
- E a última?

- A Teresa Durães... enfim, pedia-me o coração que a excluísse, mas não mo permitiu a razão. É um facto que se fez passar por Criador - e aqui temos a megalomania de que me falou! Além disso, também assumiu o papel de narrador e fez uma alusão ao facto de não passarmos de marionetas manipuladas por um autor qualquer...
- Bien, bien, e desses...?
- Desses, acabei por não considerar a Caturra, por entender que não fazia sentido ter-me dado o prémio para logo mo tirar. Não é uma ave assim tão maléfica! Além disso, alguém me apontou a impossibilidade de a Caturra gravar a inscrição na pedra com o bico. Para ser justo, Poirot, usei todas as indicações que os meus comentadores e amigos me foram dando. Se alguma c
oisa consegui, o mérito não é só meu!


- Também reparei no interesse e na preciosa colaboração das suas amigas e amigos, Alien. Épatant! Olhe que poucos se podem gabar de ter amigos assim! E não ilibou mais ninguém?
- Tive que ilibar a Santa Lizzie. Afinal, é Santa, c'os
diabos, se me permite a expressão!
- Ficaram então a Condessa, o General e a sua amiga Teresa Durães...
- Exactamente. Apesar do que lhe disse sobre a Teresa, e não obstante a Condessa me ter parecido uma senhora de bem, refinada e de elevadíssima educação...
e até de me ter apoiado contra algumas pérfidas insinuações. E, finalmente, mesmo tendo em conta o meu apreço pelo General Rufus, que, é justo dizê-lo, ficou um pouco ensombrado depois de certas atitudes que tomou...
- Sei ao que se refere, caro Alien. E felicito-o pelo raciocínio. Foi quase brilhante!
- Ah, muito obrigado, caríssimo Poirot, mas não mereço! E há sempre o quase...
- E a inscrição na pedra, Alien? Lembra-se de lhe ter dito que a chave do mistério estaria também na sua intuição, que lhe segredava conter o texto gravado a "assinatura" do criminoso ou criminosa? E de ter sublinhado a expressão "no início"?
- Claro, Poirot... mas, por mais que olhasse para a pedra, nada de decisivo me vinha à ideia. E continua a não vir. Desespero, caro amigo, desespero!
- Mais non, mais non! Hercule Poirot sabe e vai ajudá-lo! Durma descansado. Amanhã de manhã passarei por sua casa, se mo permitir, e juntos resolveremos o enigma.

Despedimo-nos.

E temos assim que o Epílogo, afinal, ainda o não foi... Daí mais uma...


CONTINUAÇÃO