Querido Pai:
Decidimos repetir a graça e deixar-te esta pequena surpresa no teu Blog.
Pelas tuas mãos continuamos a descobrir o Mundo...
Dia a dia... passo a passo... música a música...
Muitos beijinhos dos teus filhos,
Luis e Renata.
Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.
Sócrates, o filósofo que nada sabia: "Só sei que nada sei".
P.S.: Segundo as últimas notícias, as negociações entre a FENPROF e a Ministra da Educação já recomeçaram... Afinal, parece que a força dos números convenceu... ou terá sido a força da razão? Ou ambas? :)
Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.
Se eu fosse um mês seria... Abril
Se eu fosse um dia da semana seria... sábado
Se eu fosse um número seria... de circo
Se eu fosse um planeta seria... distante
Se eu fosse uma direcção seria... Geral
Se eu fosse um móvel seria... uma escrevaninha
Se eu fosse um liquido seria... água
Se eu fosse um pecado seria... original
Se eu fosse uma pedra seria... leve
Se eu fosse um metal seria... prata
Se eu fosse uma árvore seria... uma micaia
Se eu fosse uma fruta seria... oferecido em cestas
Se eu fosse uma flor seria... um cravo
Se eu fosse um clima seria... de inquietação
Se eu fosse um instrumento musical seria... uma guitarra
Se eu fosse um elemento seria... perturbador
Se eu fosse uma cor seria... vermelho
Se eu fosse um animal seria um... um gato
Se eu fosse um som seria... o da guitarra de Jimi Hendrix ou de Paco de Lucia
Se eu fosse uma canção seria... Song for the asking
Se eu fosse um estilo de musica seria... difícil de escolher
Se eu fosse um perfume seria... discreto
Se eu fosse um sentimento seria... impossível
Se eu fosse um livro seria… um tratado
Se eu fosse um lugar seria ... imaginário
Se eu fosse um gosto seria... a sal
Se eu fosse um cheiro seria… a chuva
Se eu fosse uma palavra seria… palavra
Se eu fosse um verbo seria... no princípio
Se eu fosse um objecto seria… infeliz
Se eu fosse uma peça de roupa seria... sobretudo
Se eu fosse uma parte do corpo seria… as mãos
Se eu fosse uma expressão seria… algébrica
Se eu fosse um desenho animado seria… o Papa-Léguas
Se eu fosse um filme seria… de Fellini
Se eu fosse uma forma seria… a de juntar palavras
Se eu fosse uma estação seria… ferroviária
Se eu fosse uma frase seria… “O fortunatos nimium, sua si bona norint, agricolas!”, logo seguida por “Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é este castelo?”
Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.
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Pá, topa-me a Car a rachar lenha, a gaja está p’ráli há mais de meia hora e parece que cada vez dá mais força ao machado,
era um espectáculo a partir lenha, a Carmelinda, Car por diminutivo carinhoso, rapariga dos seus 15 anos, baixinha e forte, vinda lá das serranias
Aquilo é só saúde, pá, mas é um bocadito p'ró gordo, não
Jorge, de gorda não tem ela nada, é mas é forte,
a Car tinha realmente uma força impressionante, quando as bolas ficavam presas nos matraquilhos chamávamos a Car e ela levantava a mesa em dois pés e aplicava-lhe um tal safanão que a traquitana cuspia as bolas como se tivesse sido atingida por um raio
E olha que andava lá perto, olha que andava lá perto,
e ficava depois a mirar-nos vitoriosa, consciente da proeza e da nossa admiração, como se dissesse quatro gajos, ou dois gajos e duas gajas, que elas também jogavam, e nem sempre à defesa como era costume, e não são capazes de fazer o que eu fiz,
E olha que não éramos,
ali no pátio onde rachava a lenha, onde jogávamos matraquilhos, onde passávamos para chegar à sala das flippers
Lembras-te das horas que conseguíamos jogar à pala dos bónus,
Se me lembro, pá, se me lembro, suma bónus, éramos verdadeiros profissionais das flippers,
ali no Café Europa, que também tinha salão de bilhares e pensão no primeiro andar, que tanto dava para veraneantes como para caixeiros de passagem como para encontros de uma ou mais horas, que tinha sido casino nos tempos áureos, com mesas de póquer e jogadores da casa e tudo, que congregava ainda gente de diferentes naipes à volta das mesas com tampo marmoreado, bica e serração, que é como quem diz conversa pelo simples gosto da conversa, falar sobre tudo e nada, um pouco de má-língua à mistura, sem más intenções, claro, e conhecermo-nos cada vez melhor, aquilo a que também se chamava rendimento, o pessoal ficava a render por dentro das noites e pronto
Olha, lá vem o Lobão com os Três Porquinhos,
o Lobão era na realidade o Corvo-Mor, rapaz para os seus vintes que vestia invariavelmente de preto, a condizer com o cabelo, autêntico precursor do estilo gótico de vestir, donde o Corvo-Mor, os porquinhos três irmãs de nariz assim para o arrebitado, digamos piggy nose, ora o Corvo-Mor namorava uma das manas e andava sempre com as três, logo a promoção a Lobão passando no picadeiro provavelmente em direcção à praia
Vai um snooker?
que era como chamávamos ao jogo do eight-ball, apesar dos cartazes afixados mesmo acima dos marcadores, Regulamento do Jogo de Bilhar Eight-Ball, e ia um snooker sim, ou um bilhar francês ou até mesmo um sargento, em que uma das bolas de bilhar era substituída por um pino com que se tinha de carambolar
O Xavier é que joga disto, caraças,
Pois o Xavier,
mas o isto era já o bilhar às três tabelas, havia uma única mesa, grande, bem tratada, às vezes apareciam uns craques a nível nacional, só que o Xavier era da casa e podíamos admirá-lo quando vinha a terra, andava nos barcos e era genro do Daniel, o dono do Café Europa, o Daniel que tinha um olho de vidro e por isso dizia o Duarte
O Daniel tem olho para o negócio,
o Duarte encostado à ombreira exterior da porta do Europa, a perna direita flectida e a sola do sapato clássico apoiada na parede
Então, Duarte, sempre preparado para qualquer eventualidade
Sempre preparado,
Podia imaginar quais fossem as eventualidades, mas nunca consegui perceber em que consistiria a preparação, não certamente o preparado de que anos mais tarde falaria o Teixeira, no terceiro andar do prédio do Imperial, e tinha mesmo olho para o negócio, o Daniel, conseguia manter o complexo café-restaurante-pensão-bilhares-matraquilhos & flippers com algum lucro, até deu para renovar a fachada, e tudo isso com o gigante Nicola ali ao lado, que não tinha pensão mas sim a finesse da Albergaria onde ficavam as bailarinas e turistas de mais posses, não tantas que dessem para os grandes hotéis e coisas assim, o complexo Café Europa onde ainda se jogava póquer, mas de dados
Fúlen outra vez, pá, que mijado
Mijado o caraças, é preciso saber atirá-los
os dados, nove pintas pretas, dez pintas vermelhas, valete J verde, dama Q azul, rei K vermelho e mais os Ases iguais aos ases de espadas dos baralhos de cartas que já não se jogavam no Europa, onde entretanto
Chegou o Django, lá vem o gajo direito à nossa mesa,
Django por causa do chapéu preto e do poncho preto, Django e não Zorro, poncho e não capa, diferenças significativas, o Django sentava-se à mesa, avaliava os circunstantes, escolhia a vítima e
Pá, alinhas em me pagar um prego,
e alinhava, sim, alinhávamos a meias ou a três ou a quatro e, acabado o prego no prato, com o resto da imperial em curso o Django lançava-se numa espectacular tirada filosófica
Que é que o gajo 'tá p'ráli a dizer,
e o gajo impávido e sereno, sem perder o fio à presumível meada do discurso, convicto e assertivo entre goladas de cerveja e miradas de soslaio para controlo da audiência, e quando já poucos aguentavam a atenção, concluía o Django
E assim se prova, meus amigos, que uma vez não são vezes,
Os risos contidos e o homem de negro levantava-se, cumprimentava e saía até à próxima
Até à próxima,
Onde parará agora o Django, onde pararão o Viegas, o Teixeira, o Paulino e outros loucos dos cafés e afins, desses tempos, que não pudemos viver juntos, o Europa no Verão, a esplanada cheia, o Gabriel sem mãos a medir para os finos
Ó Esgrabiel, então nunca mais saem as imperiais,
Reclamavam o Jota Que Se Fica, o Catrapana, o Cachapim, o Chaga, o Baptista-Leninista alias Classe Operária, o Campos alias Campesinato, o Cenoura, o Chico-Bomba, a Formiga, a Pratinho de Arroz Doce, o LTS ou Luta dos Trabalhadores Socialistas, hipotético partido de um único militante, logo a verdadeira aproximação da cúpula às bases, o China, o Faca, os Corvos Gémeos, a Nita, o Luis por ser corvo Corvalán e outros
e o Gabriel que costumava dizer Sibéria, quílheche, nem as focas lá páram esforçava-se, mas nem assim, o ar quente e a maresia e os espanhóis a fazerem piscinas no picadeiro
Têm mesmo cara de espanhóis, os sacanas
Não enganam ninguém,
e levantava-se o grupo da mesa, inspirava-se e media-se o ar nocturno, acendia-se um cigarrito, e às primeiras passas
Está uma bela noite,
e sorríamos, porque
nesses tempos, que podemos reviver juntos,
está uma bela noite significava tudo menos um convite a gozar a noite em passeios sem destino, às vezes andávamos e andávamos, calados, que falar agora não fazia falta apesar dos prazeres da serração, assomávamos à esplanada sobranceira ao mar, descíamos as escadas, atravessávamos a marginal, e nem havia pares nem casais, havia elas e eles conforme a noite e a disposição, amigas e amigos calados e pensativos, cigarro atrás de cigarro, invadíamos finalmente a praia, surgiam violas e vozes do nada ou do escuro da noite, acendia-se talvez uma fogueira e à volta dela canções e risos, mas nunca quando
Está uma bela noite,
aí sentíamo-nos incrivelmente unidos, nesse instante de aspirar o fumo e a ligeira brisa, em uníssono, cúmplices supremamente serenos, guardávamos momentos mágicos e sabíamos perfeitamente que íamos jogar póquer ou às máquinas ou mais tarde petiscar a casa de alguém e nunca apreciar a noite lá fora, não nessas ocasiões, porque estava uma bela noite e aparecia o Ruivo
Então, pessoal
Então, Ruivo
Aquela gaja está a olhar p'ra mim
E daí Ruivo
Daí que quer festa, quando uma gaja olha p'ra mim é porque quer festa,
o Ruivo tinha uma ideia um bocadito arcaica das relações entre pessoas de sexo diferente, isto para não falar nas do mesmo sexo, e tinha pouca sorte à lerpa
Porra, sou sempre o mesmo cristo,
mas desistir nunca, o Ruivo nunca desistia, lerpava até às quinhentas, e não tinha fera, que é como quem diz namorada ou mulher, alguém se lembrou de chamar feras às que não alinhavam nas andanças da noite, as feras ficavam portanto em casa por opção, porque não tinham pedalada, e isso às que a tinham dava-lhes uma certa pena, mas que fazer nesses tempos que podemos viver agora juntos,
de tomar a bica e render e tudo no Café Europa e acender fogueiras na praia e guitarras e cantos e jogar matraquilhos e flippers e dados e bilhar e snooker
O pessoal quer é jogar jogos,
Ou dar um salto a casa da Dona Alice, viúva trabalhadora que parava pouco em casa, que era grande e tinha vários quartos, grupinho de pares comandado pelo filho da Dona Alice, que até era uma senhora progressista, mas uma tarde foi a casa inesperadamente e ouviu uns ruídos vindos do quarto da filha, ora a filha estava a estudar fora, não podia ser ela, e não era, descobriu a viúva quando abriu a porta e o Carlos saltou da cama em cuecas, e impávido e sereno cumprimentou a dona da casa e informou
Estava aqui a ter uma conversa com uma amiga,
e apontou vagamente a Branca, paralizada na cama em trajes bastante menores
Ó Carlos, na cama da minha filha, na cama da minha filha,
e o Carlos com aquele sorriso simpático e sincero, sem se desfazer, e mais tarde no Europa
reafirmando convicto perante a Luísa, a Guida, a Ana, a Linda, a própria Branca
Pois, o pessoal quer é jogar jogos,
e ainda mais tarde em casa de alguém disponível, duas cartas na mão, cinco a caírem uma a uma na mesa, cerveja ou uísque ou brandy e petiscos, ceias requintadas às vezes, preparadas por uma anfitriã realmente espectacular, que até fazia uma perninha no póquer, tudo isto a atravessar a madrugada, as madrugadas
Corre os estores que já é quase dia, porra,
Porque era preciso prolongar a noite, a dimensão da noite, a espessura da noite, aproveitar o riso que já é amanhã mas
Quero lá saber, caraças, é noite, és tu a dar.
I
Devia haver uma linha
Um traçado
Lógico honesto prático
Rápido
Uma margem de coisas distintas
Distantes
Uma regra segura um sorriso
Uma nuvem
Uma tarde inesperada um concerto
Um conceito
O lugar de uma escrita bastante
Um anel
Que se ouvisse uma fonte um rumor
Uma voz
Haver o plano de todos
Os planos
Das coisas rigorosas porém
Sem limites
O espectro da cor a palavra
Que nasce
A cidade que fosse e viesse
E vivesse
O mar que adivinha o salgado
O azeite
A ternura ondulante o silêncio
Absoluto
Como coisa guardada
Na mais antiga ponte
História extraordinária
Do futuro
Como pedra rasgada
Pela bruma
Jardim real
Partidas e chegadas
Braços em ângulo recto
Farolins
II
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