Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

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18 de abr. de 2006

E porque hoje são 18 de Abril...

PARABÉNS, GUIDA!




Lembras-te disto?


Vejo-te.
Como se tivesses um lenço azul de renda,
um tempo nas mãos e um caminho.
Uma voz de dizer as coisas mais dolorosas e contudo
mais vivas.
Como se fosses para além de seres,
ou não fosses, antes desejasses ser.
(Muitos rios passam ainda na palidez da tua
face).
Como se partisses a meio da noite
e nunca mais chegasses, exausta, sim,
exausta mas serena ao ponto imaginado - ao ponto
imaginário.
Como se sorrisses no Outono, entre as folhas,
as maravilhosas, amarelas folhas, dissesses
muito baixo qualquer coisa ocasional e eterna
ou pelo menos necessária.
Como se cantasses lentamente, um pouco distraída,
as canções que amanhã juntos diremos,
as remotas imagens projectadas num futuro implacável,
que é nosso.