Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

Mostrando postagens com marcador gambozinos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gambozinos. Mostrar todas as postagens

16 de mai. de 2006

Gambozinos à vista?

Lembram-se do post em que convidei a detectar e caçar os bichos? Pois aqui dou um modesto contributo, e sempre que me pareça e me ocorra, sem qualquer pretensão de sistematizar, reincidirei.



Depois de conhecida a lista de convocados para a selecção nacional de futebol AA e da birra com o seleccionador dos sub-21, Agostinho Oliveira, Luiz Felipe Scolari, cá para mim, anda a parecer-se cada vez mais com um gambozino.





Com a publicação do livro de desagravo em que culpa tudo e todos pela perda da eleição para a Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Maria Carrilho, o novo homem da teoria da conspiração, é outro sério candidato à distinção.



Que ninguém diga que não avisei...

29 de abr. de 2006

Gambozinos e Cª:


Estou como o Mário-Henrique Leiria: não me venham dizer que não há gambozinos. O O'Neill preferiu referir-se a macacos, mas os gambozinos remetem para o fantástico e o onírico, saltam do imaginário e do fabuloso, passam pela infância e, suprema ironia, conseguem transportar alguma inocência.

Ainda por cima, o nome cheira a petisco.

Há uns muito engraçados na Televisão. Disfarçam-se de comentadores e explicam-nos as coisas, que é como quem diz ensinam-nos a pensar. Ou pensam que ensinam.

Se por acaso metem o pé na argola, dizem logo que não disseram. Ou que disseram, mas. Matam-nos de tédio muito lentamente, e gostam. Já quase não adianta o zapping: eles estão em todo o lado, invadem tudo, alastram com política correcção pelo nosso quotidiano.

No dirigismo desportivo também se encontram exemplares notáveis. O que eles gambozineiam, meu Deus! O que eles se lambuzam, reviram, atropelam na voragem delirante do pequeno poder! Dizem as maiores barbaridades com o ar mais sério deste mundo, e esperam que acreditemos. E não é que, às vezes, acreditamos? Distraídos no meio da poluição dos dias, escapa-se-nos a capacidade crítica e vamos por ali abaixo sem nos darmos conta.

E na política? Passeiam por lá, misturam-se com os políticos sérios, que também os há, e esforçam-se por saltar para a ribalta. É aí que se tramam, porque às tantas se lhes percebe a gambozinice.

A evolução da tecnologia trouxe-nos uma nova classe: os gambozinos da blogosfera. Os que vêm dizer-nos que tipo de blogues devemos fazer, quais os que não são para ler, que posts devem ser evitados. Os que estão realmente convencidos de que os blogues deles é que são bons. Os que assaltam as caixas de comentários e lá deixam lixo e complexos de todo o tipo. E por aí adiante.

O problema é que este povo foi ensinado a acreditar que não existem gambozinos. Mas a treta das partidas pregadas aos ingénuos não passa, na verdade, de um disfarce. Acreditamos em bruxas, oráculos, leaders de opinião, nulidades da TV, da Rádio, dos jornais, chicos-espertos e estúpidos, sacripantas, fala-baratos, analistas económicos, satélites do futebol e até mesmo no professor Karamba. Mas em gambozinos, não. Nem os cheiramos. Não acreditamos neles, mas engolimos o que eles pregam, desde que sejam discretos e eficazes na camuflagem.

É por isso que os gambozinos são perigosos. Há que caçá-los. Vamos a isso?