Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

17 de jun de 2007

Palavras...


À procura das palavras


I

Subi então até à raíz do poema

e aí encontrei uma flor petrificada.

Olhei em volta, à procura das palavras

que pudesse comprar a minha sede:

- Era um deserto de nervos

Com margens de sangue

A paisagem na raíz do poema - eu.

Murmurei vagamente uma oração antiga

E quase me desfiz em pó de tanto olhar

E me arder a vista atroz, incendiada, no crepúsculo

inigualável. Silêncio e mais silêncio.


II

A água corria, corria por entre as pedras,

levava no corpo destroços de cidades,

laranjas esquecidas na penumbra,

raparigas ironicamente vestidas, vestidas de verde,

raparigas-água impressionantes, sorridentes.

A água corria e era muita e era bela. Levava

A palavra procurada, a palavra do poema

algures no corpo, recatada e mansa, talvez adormecida.

Eu sabia apenas que entretanto amanhecera.


III

Tenho sede. Ergo-me de repente e abandono

o amável leito de todos os dias. Veloz como

o navio que sabe seguro o porto, ganho

o espaço ritual que me separa de mim.

Tenho sede. O meu pulso é algo de concreto e latejante,

assim me sinto e reconheço, à procura das palavras

na raíz incandescente do poema - eu.

São de pedra as cidades, são enormes e movem-se

no ritmo lógico em torno dos meus ombros.

A flor petrificada olha-me heroicamente, meigamente,

o seu espanto é de carne rigorosa. Tem cinco pétalas

azuis emocionadas, inscritas pouco a pouco nos meus olhos

maravilhosos de ironia, incrivelmente densos.


(1978)