30.11.09

Gerúndio


Reivindicando farpas descontínuas
palavras que assassinam de repente
delírios que sucedem sem sentirmos
montanhas que se viram para a gente

onde as coisas que sim onde os palácios
os amanhãs que nunca mais emergem
onde os lilases da atlântida esquecida
os desejados que não são mas parecem

semelhanças eléctricas guardadas
nos violentos armários de nogueira
espaços alternativos para o nada
silêncio e folhas e sombras e poeira

onde os metros de verde onde a coragem
as tintas como laços como nós
onde os espelhos sem o outro lado
partidos requebrados como a voz

Afugentando espécies magoadas
nocturnos afogados nas barcaças
corrimãos secos curvos agarrados
vestígios de janelas onde passas

onde as canções com claves de cristal
os paraísos vulgares essenciais
onde a sirene a sereia a sensação
de ser crepuscular ou estar a mais

comboios sem família nem destino
em movimento verde-azul visível
rasgões no espaço-tempo onde termino
a busca elementar do impossível
  
onde o sépia nas caixas de memórias
os ossos triturados pela espera
onde os cavalos de várias cores que não
o fantástico segredo da quimera

Reinventando sonhos ao quadrado
Componentes de casas interditas
Gestos ocultos no mar do meu telhado
Mapas de estradas-ondas infinitas


13.11.09

Para variar, e porque referi o autor, e porque talvez venha a propósito...

"Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo."

Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'



O Tempo


Que terá sonhado o Tempo até agora, que é, como todos os agoras, o ápice?

Sonhou a espada, cujo melhor lugar é o verso.
Sonhou e lavrou a sentença, que pode simular a sabedoria.
Sonhou a fé, sonhou as atrozes Cruzadas.
Sonhou os gregos que descobriram o diálogo e a dúvida.
Sonhou o aniquilamento de Cartago pelo fogo e pelo sal.
Sonhou a palavra, esse grosseiro e rígido símbolo.
Sonhou a sorte que tivemos ou que agora sonhamos ter tido...

Sonhou a primeira manhã de Ur.
Sonhou o misterioso amor da bússola.
Sonhou a proa do norueguês e a proa do português.
Sonhou a ética e as metáforas do mais estranho dos homens, aquele que morreu uma tarde numa cruz.
Sonhou o sabor da cicuta na língua de Sócrates.
Sonhou esses dois curiosos irmãos, o eco e o espelho.
Sonhou o livro, esse espelho que nos revela sempre outro rosto...

Sonhou o espaço.
Sonhou a música, que pode prescindir do espaço.
Sonhou a arte da palavra, ainda mais inexplicável do que a música, porque inclui a música.
Sonhou uma quarta dimensão e a forma singular que a habita.
Sonhou o número da areia.
Sonhou os números transfinitos, a que não se chega contando.
Sonhou o primeiro que no trono ouviu o nome de Thor.
Sonhou os opostos rostos de Jano, que não se verão nunca.
Sonhou a lua e os dois homens que caminharam sobre a lua.
Sonhou o poço e o pêndulo.
Sonhou Walt Withman, que decidiu ser todos os homens, como a divindade de Espinoza...

Sonhou o jasmim, que não pode saber que o sonham.
Sonhou as gerações das formigas e as gerações dos reis.
Sonhou a vasta teia que tecem todas as aranhas do mundo.
Sonhou o arado e o martelo, o caranguejo e a rosa, as badaladas da insónia e o xadrez.
Sonhou a enumeração a que os tratadistas chamam caótica e que, de facto, é cósmica, porque todas as coisas estão unidas por vínculos secretos...

Sonhou que nas batalhas os tártaros cantavam.
Sonhou a mão de Hokusai, traçando uma linha que depressa será uma onda.
Sonhou Yorick, que vive para sempre numas palavras do ilusório Hamlet.
Sonhou os arquétipos.
Sonhou que ao longo dos verões, ou num céu anterior aos verões, há uma única rosa...

Sonhou os rostos dos teus mortos, que agora são esmaecidas fotografias.
Sonhou a primeira manhã de Uxmal.
Sonhou o acto da sombra.
Sonhou as cem portas de Tebas.
Sonhou os passos do labirinto.
Sonhou o número secreto de Roma, que era a sua verdadeira muralha...

Sonhou a vida dos espelhos.
Sonhou os signos que o escriba sentado traçara.
Sonhou uma esfera de marfim que encerra outras esferas.
Sonhou o caleidoscópio, grato aos ócios do doente e da criança.
Sonhou o deserto.
Sonhou a madrugada que espreita.
Sonhou o Ganges e o Tamisa, que são nomes de água.
Sonhou mapas que Ulisses não teria compreendido.
Sonhou Alexandre da Macedónia.
Sonhou o muro do Paraíso, que deteve Alexandre.
Sonhou o mar e a lágrima.
Sonhou o cristal.
Sonhou que Alguém o sonha...



(Jorge Luis Borges, in "Os Conjurados", 1985. )

* * *

Realmente magnífico, Jorge Luis Borges. Ainda por cima, actual e penetrante: Atente-se no 13º. (não acredito em bruxas, mas...) verso do poema...

16.10.09

"Amanhã é sábado e a noite hoje pode ser longa!"

Por isso, agradecendo à Uf! a gentileza, começo já com o frango na púcara, iguaria cheia de ingredientes e requintes, que muito aprecio. A receita vai "tal e qual".

As quantidades são para 1 frango; depois, acrescenta-se, a olho, para mais convivas.

Ingredientes:
1 fio de azeite (uma espiral aberta no fundo do tacho)
1 frango partido aos bocados (eu tiro-lhe a pele)
150g de bacon aos cubinhos (ou rectangulozinhos)

8 a 12 cebolas pequeninas ou 1/4 da dose de cebolas grandes, cortadas em quartos

4 dentes de alho esmagados

1l de vinho tinto

5 paus de canela

1 embalagem de tâmaras, sem caroço e picadas grosseiramente

1 embalagem de passas pretas

100g de cogumelos às lâminas

100g de caju ou amendoim

2 colheres de chá de sementes de coentros em pó

1 colher de sopa de erva-doce em pó

2 colheres de chá de canela em pó

1 colher de café de tomilho em pó

1 colher de chá de cominhos em pó

4 grãos de pimenta preta moída

2,5dl de vinho do porto

2 colheres de sopa de mel de alfarrobeira

1 cálice de medronho ou de aguardente de figo

1/2 ramo de salsa fresca picada

qb. de sal
1 cravinho
2 folhas de louro
1 malagueta, se toda a gente gostar. (Eu prefiro ter tabasco e quem quer acrescenta)

1dl de natas (facultativo)

Espero não me ter esquecido de nada. (Era o que faltava, digo eu em aparte :)



Desenha-se a espiral de azeite, no fundo do tacho, e colocam-se por cima os bocados de frango, as cebolas (deixar uma para o fim), os alhos, as lâminas de cogumelos, os cubinhos de bacon, os amendoins ou cajus, as passas, as tâmaras, as folhas de louro, em metades (eu costumo tirar o veio e as pontas), e a malagueta. Rega-se com o vinho tinto (deve ficar praticamente coberto de líquido).
Numa malga, misturam-se o vinho de porto, meio cálice de aguardente (medronho ou figo), uma pitada pouca de sal (depende de quanto sal têm já o caju e o bacon) e as especiariais em pó. Verte-se sobre o restante preparado. Deixa-se correr o mel em fio (uma espiral por cima do preparado). Espeta-se um pau de canela nos 4 pontos cardeais e um no centro. Polvilha-se com a salsa picada, espeta-se um cravinho na cebolinha ou quarto de cebola e coloca-se por cima, de forma a encontrar facilmente no fim, para retirar o cravinho (eu não gosto de o encontrar no meio da comida). Tapa-se e deixa-se cozer em lume brando (para aí uma hora ou mais). Quando a carne já estiver cozida, destapa-se e deixa-se cozer mais um pouco, para apurar. Retira-se o cravinho, rega-se com o resto da aguardente e flambeia-se, dando 2 ou 3 voltas suaves com a colher de pau. Para quem goste e não esteja a dieta, pode acrescentar-se umas colheres de natas batidas e envolver delicadamente, para engrossar um pouco o molho. Serve-se acompanhado de arroz branco, feito pela Lizzie.

Mas há mais, e da mesma fonte, mesmo apenas em imagem comentada:

"Vou ali preparar uns rolinhos de sushi com camarão e outros vegetarianos, para o caso de a Emma Larbos aparecer por cá. Amanhã é sábado e a noite hoje pode ser longa!"


E ainda uma original sobremesa LIP (ver foto...), que também agradeço à Uf!:


Faz-se uma «cercadura» com chantilly light do Lidl; em lume brando, descongela-se uma porção de frutos vermelhos Adèlie, do Intermarché, com um pouco de açúcar amarelo e um pouco de água (também à venda em qualquer um destes supermercados); coloca-se um petit gâteau pingo doce (secção de congelados) no mw por 30''. Retira-se o bolo, coloca-se no meio da «cercadura» de chantilly e cobre-se tudo com os frutos vermelhos.

É o que se arranja, para já, e confessem que não é nada mau! Obrigado, Uf! E que mais virá? :)

Para já, pão e sopa. Confesso que gosto de ambas as coisas... Assim, com os meus agradecimentos à Uf! (pão) e ao Legível (sopa), aqui ficam:


SOPA SEM NOME

Para 10 pessoas:

- 4 batatas médias
- 1 fatia de abóbora
- 1 nabo pequeno (sem ramagem)
- 1 repolho pequeno
- 1 alho francês (compridote)
- 1 colher de sopa de azeite virgem (aditamento fundamental)

Descascam-se, lavam-se e cortam-se aos quartos as batatas e o nabo, metade do alho francês e metade do repolho.
Tudo para a panela de pressão, com os ingredientes cobertos de água e sal a gosto.
Depois da panela ter feito o seu trabalho (apitos da ordem incluidos), passam-se os ingredientes pelo passevite até a textura dos mesmos atingir o ponto cremoso.
Com esse novo visual, os ingredientes voltam à panela, adicionando-se-lhe água suficiente para tornar o creme mais líquido, juntando ao mesmo, as metades do alho francês e do repolho, cortados em pedacinhos pequenos que irão "enfeitar" o "caldinho".
Deixar ferver e quinze minutos depois, a coisa está pronta.

Observação do "contribuinte": "Baptizei esta sopa de "Sem nome" mas diz quem já a provou que não precisa de ser chamada: come-se e está a andar de mota..."


28.9.09

A propósito de bifes... porque não recomeçar com um clássico?

Bife à Marrare




Ingredientes:

* 1 bife do pojadouro (150 grs);
* 2 colheres de sopa de manteiga;
* Sal grosso;
* Pimenta;
* 2 colheres (sopa) de nata.

Preparação:

1. Numa frigideira com o fundo pesado derreta sobre lume vivo metade da porção da manteiga.
2. Quando estiver bem quente introduza o bife e deixe alourar ligeiramente de um dos lados. Vire-o sem picar e aloure-o do outro lado (esta operação, que deve ser relativamente rápida, tem por fim evitar que o suco da carne saia). Tempere com sal grosso e pimenta moída na altura.
3. Retire a gordura da frigideira (conservando lá o bife) e junte a restante manteiga. Reduza o lume, deixe cozer o bife durante uns minutos e, agitando a frigideira, adicione as natas. Deixe engrossar o molho agitando sempre.
4. Coloque o bife num prato aquecido e regue com o molho. Sirva acompanhado com batatas fritas em palitos colocadas num prato coberto com um guardanapo.

Dica: Se quiser pode juntar ao bife um fio de limão na altura de servir.


Simples, eficiente, delicioso! Uma simpática variante do "Bife à Café". Bom apetite, e tragam vinho e sobremesa se vos aprouver!

E trouxeram! Quanto a bebidas, a MJF sugere um Mouchão Tinto de 1998, e quem se atreverá a discordar? :) Já a Arabica prefere uma cervejinha, concretamente uma imperial Superbock bem gelada, por causa do calor. E também marcha!

Em matéria de sobremesas, agradeço os figos da Justine e o Arroz Doce da Lola, com receita e tudo, que aqui se transcreve:

Arroz doce

6 Gemas
Canela
Casca de limão
1Lt Leite
água
1 caneca de arroz carolino
1 colher de manteiga
+-350gr açucar

Cozer uma caneca de arroz em 3 ou 4 de água. Quando o arroz estiver bem cozido junta-se o leite, a manteiga, as cascas de limão e deixa-se ferver, deitando-se depois o açúcar. Tira-se do lume, junta-se um pouco de leite às gemas e adiciona-se depois tudo ao arroz. Pôe-se numa travessa e enfeita-se com canela moida.


E terminamos a refeição com um
Mokachino, também receita da Lola:

Ingredientes:
Amêndoas
Xarope de chocolate
Café
Leite condensado

Preparação:
Deitar num recipiente 2 a 3 colheres de xarope de chocolate, 1 a 2 colheres de amêndoas , ou avelãs moídas, acrescentar 1 chávena de café expresso, já preparado, encher com leite evaporado ou leite condensado (para os mais gulosos) e polvilhar com canela e raspas de chocolate.

E que mais? :)

Bom, mais isto, que vem da Lizzie:

- happening de flamenco com lavagem de louça em simultâneo (a não perder!)
- whisky do Kentucky ou Grant's 12 ou 16 anos.
- conhaque
- luz barroca conspirativa
- Mesa Toledana de madeira e sofás orelhudos
- E o mais que consta do comentário :)


E ainda....

Uma sobremesa proposta pela Uf! :

Marmelos cortados aos bocados e cozidos em água, com umas colheritas de açúcar (é ao gosto d@s convivas), raspas de casca de limão, laranja e lima, canela, sementes de coentros, de salsa e de mostarda, grãos de pimenta branca e um cravinho da índia.

Também da Uf!, esta

Sugestão:
Fazer o pão na máquina, com farinha comprada no Lidl (eu uso a que tem sementes de girassol e acrescento sementes de linhaça, de papoula e de sésamo) e acrescentar-lhe azeitonas pretas e dentes de alho picados grosseiramente e orégãos, que são envolvidos na massa do pão antes de esta começar a levedar.
Acompanha bem com tinto Versátil (Casa de Santa Vitória), conserva de cenouras e queijos de pasta mole ou meia cura.

E porquê o pão?

- Porque a Lizzie protestou contra o facto de ninguém se lembrar de começar com PÃO E AZEITONAS. Aqui fica a rectificação dessa tremenda falha! E, já agora :), "
bolinhos de coco com limão e gengibre, adoçados só com uma sugestão de melaço de cana".

Quem pensava que a refeição estava completa, enganou-se!

A Arabica contribuiu com mais esta deliciosa sobremesa: Petits fours de coco.

Ingredientes
1 1/2 xícara(s) de chá de açúcar
250 gr de coco ralado(s)
2 colheres de sopa de farinha de trigo
1 gota de essência de baunilha
5 ovos

Preparação
Misture o açúcar com o coco e a farinha. Adicione a baunilha e junte os ovos mexidos. Depois de tudo bem envolvido, deixe repousar por 15 minutos.
Unte as formas com manteiga e farinha. Coloque a massa num saco de confeitar e disponha-a sobre as formas, fazendo pequenos bolinhos. Leve ao forno bem quente e deixe assar até ficarem bem douradinhos. Assim que estiverem mornos, retire-os da forma.

Observação
A receita encontrada diz ainda que se devem guardar em potes bem fechados :)) mas...espero que não sobre nenhum!! :)


14.8.09

Endless game - versão (quase...) final

Tenho vindo a pôr ali ao lado várias fases de evolução de uma música da responsabilidade de uma banda em formação e início de carreira. Aqui fica a versão (quase) final, gravada em estúdio caseiro.

A banda: Parasomnia Noise. Os membros: Dywas, pSi e Mercedes.

Música: Dywas Letra: Mercedes Guitarra: Dywas Voz: Mercedes Baixo: pSi

Programação da bateria, produção e mistura: Dywas

A música:






A letra:


Endless Game

Swallowing what's on your mind
You're keeping monsters locked inside
Walking, breathing, to survive
A process that denies your lies

You watched me dancing on your hand
trust that seemed never to end
Now I'm dancing in your mind
Destroying every sun I find

We're playing games, you stop and say
I don't really want to play your little game

(2x)
You might be free now you're unchained
But there are games that never change

(4x)
My child, falling from the skies didn't wake you up

You are sitting on a chair
The scent of failing in the air
I hold you very close to me
Strangling your reality

All this presence makes no sense
Gave my mind to ignorance
Wonder if you kept my face
Closed in thoughts during this space

You watched me dancing on your hand
trust that seemed never to end
Now I'm dancing in your mind
Destroying every sun I find

(2x) Every sun..

Para quem quiser saber mais, o link para o site da banda no MySpace.

Espero que gostem! Mas, se não for o caso, digam! As críticas são sempre bem-vindas - e necessárias.

8.8.09

Raul Solnado, irresistível, inesquecível (1929-2009)



5.7.09

O Bode Imarcescível - de Mário-Henrique Leiria

Em especial para a Lizzie (por causa do bode:) e para a Arabica (por causa do MHL:)

"É o que lhes digo.
Com esta idade e nunca o usei.
Há cerca de trinta anos apareceu-me uma oportunidade de o fazer, mas senti certas dúvidas e tive receio.
No entanto, ultimamente tenho-o lido com bastante frequência nos discursos que quotidianamente vejo nos jornais.
Já não sou criança e não quero deixar este mundo sem o usar pelo menos uma vez. É um vocábulo realmente impraticável, verão, mas mesmo assim vou usá-lo. Imarcescível. Aí está! Espantoso, não acham? Imarcescível. Alucinante! Por isso lhes conto


O BODE IMARCESCÍVEL

Julião amava os animais. Tinha um gato siamês teólogo e desdenhoso, dois perdigueiros de olhos tristes e um basset activo e escavador. Também uma gaiola com três periquitos protestantes e tivera um papagaio de que se vira obrigado a separar-se, dadas as constantes críticas e comentários do mesmo acerca da situação vigente.

Mas o que realmente o encantava era o bode. Trouxera-o para casa ao voltar de umas férias na montanha. O bode acompanhara-o sem fazer questão e isso comovera Julião. Era um bode jovem mas já com barba digna, que ficava a olhar para tudo com desdém, como prevendo inúmeras desgraças. Afeiçoaram-se um ao outro. Julião esmerava-se no tratamento e o bode, compreendendo que estava numa casa de respeito, passara a marrar apenas em polícias e cobradores. Mas comia, comia muito, comia tudo.

Antes de ir para a repartição Julião cuidava carinhosamente dos animais. Os cães no quintal, o gato livre de tomar decisões as mais ousadas, os periquitos com milho painço, pevides e cânhamo. Quanto ao bode, deixava-o em casa, com couves abundantes na cozinha, não sem antes o passear pelas traseiras e ter uma conversa séria com ele.

Um dia aconteceu o inesperado. Ao voltar a casa, à tarde, Julião encontrou o bode no escritório, sentado e a comer, voraz, a edição monumental de OS LUSÍADAS encadernada em couro azul-escuro e com ilustrações de Lima de Freitas. Só restava a capa, que era dura, e um pouco do canto nono. Ficou amargurado.

Que fazer? Como resolver aquilo? O bode podia voltar a ter apetências, lá se ia o Fernando Namora, o Eça, o Aquilino, sabe-se lá que mais! Não podia ser. E a solução surgiu-lhe. Levar o bode com ele para a repartição.

No dia seguinte, após as tarefas matinais, disse ao bode:

- Vamos lá, meu velho.

Saíram. O bode comportou-se, sempre ao lado de Julião, olhando as montras. Apenas tentou investir com um polícia mas conteve-se, entre a simpatia dos passantes.

Na repartição foi um alvoroço. «Olha um bode, olha um bode!» O espanto era geral mas o bode, indiferente, sentou-se ao lado de Julião.

E assim passaram os dias.

O bode ia de manhã para a repartição, almoçava na cantina com o Julião, passava a tarde sentado, observando a actividade múltipla da casa e indo lá dentro de vez em quando, e voltava à tarde ao lado de Julião, vendo as montras e mirando os polícias de través.

O diabo foi que um dia o bode teve um apetite feroz, como na altura de OS LUSÍADAS. Foi à secretária do chefe e comeu todos os processos em andamento que faziam a cabeça em água aos funcionários. Não deixou senão os agrafos e as molas das pastas de arquivo.

O chefe agarrou-se à cabeça e mandou chamar o Julião.
- Que é isto? - disse, de sobrolho franzido, quando Julião entrou.
- Isto o quê, senhor doutor?
- Isto - o chefe apontava para as sobras.

Julião observou bem e respondeu, humilde:
- Parecem restos de agrafos, não parecem, senhor doutor?
- Foi o seu bode, senhor Julião. O seu bode. Não pode ser, isto é impossível - e gesticulava, apopléctico.

Aí o Julião não achou bem.
- Desculpe, senhor doutor, mas não tenho nada com isso. Não intervenho, nunca intervim, na vida de bode nenhum nem de qualquer outra pessoa. O bode é livre, fale com ele.

E, pela primeira vez na sua vida de funcionário, virou as costas ao chefe e saíu, ofendido.

O chefe aveio-se com o bode. Parece que se entenderam.

O Julião não foi incomodado e o bode passou a andar de um lado para o outro, pelas salas e gabinetes.

O bode comia os processos, os processos ficavam arrumados. Os funcionários estavam encantados, escolhiam os melhores, os mais grossos e chamavam o bode.

Os tempos passaram.

Os chefes sucederam-se, os ministérios mudaram. O bode continuava na repartição, sempre jovem e activo.

Julião, já com o cabelo todo branco, reformara-se. O velho gato siamês fora juntar-se aos seus antepassados em Bubastis, os cães eram memória melancólica e a gaiola dos periquitos gritadores estava vazia. Apenas o bode continuava presente com amizade e ia todos os dias para a repartição. Estava no quadro.

Foi então que se deu o acontecimento decisivo.

Poderoso, imarcescível, o bode entrou pelo gabinete do ministro e comeu, logo ali, o decreto de mobilização geral que estava a despacho.

Foi eleito deputado pelo povo em delírio."


Nota do autor (do post:) - Dicionário da Língua Portuguesa - Porto-Editora

imarcescível

adjectivo uniforme

1. que não murcha; sempre viçoso
2.
que não se extingue
3. figurado imperecível; incorruptível

(Do lat. immarcescibìle-, «id.»)