Aliencake
Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.
31 de mar. de 2006
Última hora! OPA sobre a Contra Capa!
Mesmo à hora do fecho desta notícia, fomos informados via SMS de que já muitos populares se encaminham para o Marquês, embora não estejam bem certos do que lá vão fazer. "Lá saberemos", comentou de fugida uma senhora que não quis identificar-se, pois apercebeu-se de que, afinal, não iria aparecer na televisão.
Dentro do espírito de isenção que sempre caracterizou este blog, não queremos deixar de (sem tomar partido, note-se!), referir que a Contra Capa é da Cristina e não será de mais ninguém, por muitas opas que venham e vão. E mai nada.
29 de mar. de 2006
Sobe, sobe, balão, sobe!


- O Governo prepara-se para aumentar o imposto sobre os combustíveis.
-Ah sim? Hmm...
-Hmm?
- O que vale é que as nossas empresas estão bem e recomendam-se, por isso não há problema em aumentar o gasóleo mais uns cêntimos por litro...
- Ah estão? Hmm... Então e os automobilistas? Sabes, aquelas pessoas que vão todos os dias de carro para o trabalho...
- Pois, felizmente temos uma boa rede de transportes públicos, senão era capaz de ser chato.
- Ah temos? Hmm...
27 de mar. de 2006
Dia Mundial do Teatro

A Dreigroschenopera de Brecht e Kurt Weil conheceu várias versões, e é
nela que se baseia a Ópera do Malandro, de Chico Buarque.
Um dia para recordar, por exemplo, Bertolt Brecht, uma figura da maior importância para o teatro contemporâneo. Mais sobre a vida e obra de Brecht aqui. Entretanto, fica a Balada (Moritat) de Mackie Messer, composta por Kurt Weil para a Ópera de Três Vinténs, aqui interpretada por Lotte Lenya, e as
Perguntas de Um Operário Letrado
Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias,
Quantas perguntas.
(Bertolt Brecht)
Bertolt Brecht (segundo a contar da esquerda) tocando flauta numa banda de rua (1919).
Curiosidade: Ao centro, com o oboé, está o genial comediante Karl Valentim.