Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

4 de ago de 2006

O post de todos os posts...

... que ficaram "no tinteiro".


Quem nunca disse para si mesmo:

- "Eh pá, boa ideia, vou pôr isto no blog um dia destes!" Ou
- "Olha, vou registar para não me esquecer. Isto vai dar um post. Talvez ainda hoje." Ou
- "Só falta arranjar uma foto, e esta coisa vai direitinha para o meu bloguito."

Mas nem registo, nem memória, nem post, nem nada. Algumas ideias ainda acabam por ser recuperadas, mais ou menos de acordo com o esquema original. Outras perdem-se para sempre.
Este post é para essas. É o post de todos esses posts, vossos e meus. Um grande post, portanto.

30 de jul de 2006

Regresso com Recuerdos de Alhambra

No fim de tudo, o que são as palavras? Pedaços de espuma que nos secam na boca, restos de poeira atravessando a luz criada por uma janela entreaberta no fio da manhã. Imagens de braços que nos chamam e não podemos já alcançar, abraços proibidos. De olhos que de longe nos sorriem, de cada vez mais longe. Partículas de sonho desenhando um rosto que com o tempo se irá diluindo na memória. "Avec le temps, tout s'évanouit", canta-nos Ferré. Recordações, como as de Alhambra, ou quaisquer outras que nos enterneçam e arrepiem. Lágrimas. No fim de nós, os que vamos ficando, o que são as palavras?