Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

18 de mar de 2006

Chuva

CHUVA

Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.

Enche a rua, plás, plás

esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.

Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz
e até apaga a luz.

Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.

(Luísa Ducla Soares)




A CHUVA

A tarde bruscamente se aclarou,

porque já cai a chuva minuciosa.

Cai e caiu. A chuva é só uma coisa

que o passado por certo frequentou.
Quem a escuta cair já recobrou
o tempo em que a fortuna venturosa
uma flor lhe mostrou chamada rosa
e a cor bizarra do que cor tomou.
Esta chuva que treme s
obre os vidros
alegrará nuns arrabaldes idos
as negras uvas de uma parra em horto
que não existe mais. A humedecida
tarde me traz a voz, a voz querida
de meu pai que retorna e não é morto.

(Jorge Luis Borges)



TEMPO DE CHUVA

Continua a chover
sinto-me mal
não sei se é febre ou mãos vazias

continua a chover
e é natural
nestes dias iguais aos outros dias

Ah se chovesse fogo ou lava
se chovessem gritos e punhais
se chovesse um hino uma palavra
um cartaz a dizer que isto é de mais

Continua a chover
sinto-me mal
e não há rio que leve esta mágoa

não da febre não das dores
mas desta chuva que nem desperta as flores
inútil falsa triste água-só-água




17 de mar de 2006

Cromos


"O Jornal de Notícias lançou uma caderneta de cromos dos Morangos com Açucar no passado dia 26 de Fevereiro, com oferta de uma caderneta e 1 poster. De Segunda a Domingo, grátis 3 cromos para completar a caderneta." (in Jornal de Notícias de hoje)

Ora aí está uma soberba aplicação da palavra cromos! Ainda existe imprensa criativa, apesar da caderneta...


16 de mar de 2006

Opá! Chocolates! Upa, upa!




Cristina, minha amiga, é melhor apareceres depressa, antes que o produto esgote! Isto é o chamado post interactivo, corrigido, melhorado e aumentado.

Hoje não é o Dia do PI, mas...



“O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.” (Álvaro de Campos)

Ora, nada como comparar. Vamos a votos, e nem é preciso enviar SMS a 0,60€ cada.

14 de mar de 2006

Dia do PI






Não posso deixar de referir que hoje é o Dia do PI, apesar de ainda não ter descoberto como diabo se escreve o símbolo aqui no post, usando o teclado do costume. Por aqui se vê que não sou lá muito chegado às Matemáticas. Ou aos teclados. Passeando por referências ao célebre número irracional no ciberespaço, dei com esta interessante leitura, que vivamente recomendo:

http://no-mundo.weblog.com.pt/arquivo/003838.html

Afinal acabei por descobrir, graças ao HTML: π

13 de mar de 2006

Citação do dia












"O problema do jogging é que o gelo cai do copo."

(Martin Mull)

12 de mar de 2006

O Islão


Tenho ouvido os principais ideólogos do Islão, alguns residentes em países ocidentais, qualificar o islamismo como um projecto revolucionário, que se pretende, portanto, implantar em todo o mundo, na perspectiva de que se deve viver segundo as regras de (e o respeito e culto a) Deus, sendo a política necessariamente inseparável da religião. Não estou a falar de teóricos do fundamentalismo, embora haja diversas tendências ideológicas dentro do Islão, algumas menos moderadas do que outras. Mas em todas permanece o essencial: um projecto revolucionário, político-religioso, que se pretende implantar. Face a isto, ocorrem-me diversas perguntas:

- Qual a infraestrutura económica subjacente ao projecto político e religioso (= ideológico) do Islão?

- Quais os meios considerados adequados para a divulgação e implantação do projecto em países ocidentais, de tradição cristã ou não?

- Será, por outro lado, o projecto "ocidental", a que vulgarmente chamamos democracia, inserida no sistema capitalista em que vivemos, também algo que se pretende implantar em todo o mundo, na convicção de que é o melhor para as pessoas?

- E, se assim for, quais os meios considerados adequados para a sua divulgação e implantação?

Fico por aqui. Gostaria de receber algumas ideias como respostas às perguntas que formulei. Penso que vai sendo mais do que tempo de debater (ou simplemente de pensar) a sério uma questão que cada vez mais parece pertinente, fundamental, inadiável.