Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

7 de dez de 2007

Segundo Plano

I

Devia haver uma linha

Um traçado

Lógico honesto prático

Rápido

Uma margem de coisas distintas

Distantes

Uma regra segura um sorriso

Uma nuvem

Uma tarde inesperada um concerto

Um conceito

O lugar de uma escrita bastante

Um anel

Que se ouvisse uma fonte um rumor

Uma voz

Haver o plano de todos

Os planos

Das coisas rigorosas porém

Sem limites

O espectro da cor a palavra

Que nasce

A cidade que fosse e viesse

E vivesse

O mar que adivinha o salgado

O azeite

A ternura ondulante o silêncio

Absoluto

Como coisa guardada

Na mais antiga ponte

História extraordinária

Do futuro

Como pedra rasgada

Pela bruma

Jardim real

Partidas e chegadas

Braços em ângulo recto

Farolins


II

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