Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

22 de jul de 2008

The Underground Railroad ou os blues da liberdade

No OVERandOUT, com data de 20 de Julho, está um excelente post sobre a história dos BLUES.


Como introdução ao que se vai seguir, recomendo vivamente a leitura desse texto, já que este post é uma espécie de sequência.


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Já leram? Então posso prosseguir.


Ao lê-lo, lembrei-me de ter aprendido há tempos que muitas das canções entoadas pelos escravos trazidos de África nas plantações de algodão e outras explorações agrícolas, ou ao longo das vias férreas em construção, se destinavam a orientar e ajudar os que, tentando escapar à escravidão, fugiam em direcção ao Norte e à liberdade. Nas suas letras escondiam-se conselhos, nomes, locais, indicações preciosas para quem empreendia a fuga e queria chegar ao fim.


Procurei na net documentação, e obtive alguns resultados.


É imprescindível referir, a este propósito, a organização que ficou conhecida como The Underground Railroad, formada por pessoas de várias origens, e destinada a proteger e facilitar a fuga dos escravos.


Sobre essa organização, há um bom texto AQUI (em Inglês, mas curto e claro) e uma definição neste local da Wikipédia.


Podemos fazer, no site da National Geographic, uma interessante viagem rumo à liberdade, talvez iniciada com a ajuda de Harriet Tubman (nome de código Moses), e ao longo da qual outras figuras destacadas do movimento abolicionista vão surgindo.


Mas voltemos aos blues.


Entre as músicas cantadas pelos escravos, “Follow the Drinking Gourd” foi seguramente a mais conhecida, desde logo pela extrema clareza da letra.

Senão, vejamos:




When the sun comes back,

and the first quail calls,

Follow the drinking gourd,

For the old man is waiting

for to carry you to freedom

If you follow the drinking gourd.

Chorus:

Follow the drinking gourd,

Follow the drinking gourd,

For the old man is waiting

for to carry you to freedom

If you follow the drinking gourd.

The riverbank will make a very good road,

The dead trees show you the way.

Left foot, peg foot travelling on,

Following the drinking gourd.

The river ends between two hills,

Follow the drinking gourd,

There's another river on the other side,

Follow the drinking gourd.

When the great big river meets the little river,

Follow the drinking gourd.

For the old man is waiting

for to carry you to freedom

If you follow the drinking gourd.


A partir deste esclarecedor vídeo do You Tube, podemos encontrar outras interpretações da canção, a maior parte delas por coros escolares. Parece que a música ficou.


E ficou também a evidente associação dos BLUES à liberdade.


ADITAMENTO (Sim, este post também tem um :)

Recomendo vivamente a leitura deste texto da Lizzie, a história atrapalhada do homem que mudou a cor no palco ou seja, Alvin Ailey

E passo a transcrever o comentário da Tia Adoptada, excelente complemento a este post:

Os blues provêm, alegadamente, das «working songs». Estas eram cantadas na língua materna dos escravos, lingua(s) essa(s) que era(m) desconhecidas) dos capatazes e outros colonizadores. Como sabemos, (e os donos de escravos também sabiam), a aculturação é uma forma de dominação bastante eficaz. Como se explica, então, que permitissem que os escravos entoassem as SUAS melodias, nas SUAS línguas?! A resposta é simples: as work songs faziam aumentar o ritmo do trabalho e impediam muitos acidentes laborais. (Por exemplo, se estavam a cavar, não haveria o perigo de um baixar a enxada quando o outro a estava a erguer, porque cavavam ao ritmo da música).
Então os escravos começaram a aproveitar as work songs para enviar mensagens, ao longo dos campos e mesmo «nas barbas» dos patrões e capatazes» que, já nessa altura, não se davam ao trabalho de aprender outra língua que não fosse o rudimentar inglês KKKKKKK.
Podiam, por exemplo, estar a cantar, na frente do capataz, «digam à Maria que o marido conseguiu fugir e está à espera dela no celeiro da fazenda do irmão deste barrigudo deslavado»
Fascinante, não é?

Interessante, também, é a etimologia do jazz; esta música nasceu na rua das lanternas vermelhas, em New Orleans; eram «casas de meninas», onde os homens iam «to jazz»; a dada altura, a música tornou-se mais importante que a actividade sexual... :-)

Em ambos os casos, com os devidos agradecimentos.