Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

25 de fev de 2009

Epílogo

Ontem à noite telefonei a Poirot. Farto de dar voltas à cabeça e de, em vão, esperar ajuda na descoberta do autor do roubo do prémio, não resisti a dar-me por vencido. O meu amigo atendeu-me com afabilidade, manifestamente bem disposto. Teria certamente acabado de beber o seu precioso cacau quente.



- Então, caro Alien, não chegou a conclusão nenhuma a partir das pistas que lhe dei? Não excluiu sequer alguns dos suspeitos, considerando a vertente dos perfis psicológicos?
- Excluí, sim, claro que excluí! Aliás, a minha grande tentação foi a de os eliminar a todos, por não acreditar que os meus comenta
dores e amigos fossem capazes de invejar, cobiçar e roubar o meu galardão. Depois pensei melhor...
- E...?
- E mantive como suspeitos a Caturra, a Santa Lizzie, a Condessa, o General Rufus e a Teresa Durães.
- Ah, e porquê, mon ami?
- Bem... os quatro primeiros por não os conhecer suficientemente bem - e, no caso da Santa Lizzie, ainda havia a agravante de ter semi-usurpado a identidade da Lizzie, que já lhe expliquei ser um dos elementos de uma trindade de duas.
- E a última?

- A Teresa Durães... enfim, pedia-me o coração que a excluísse, mas não mo permitiu a razão. É um facto que se fez passar por Criador - e aqui temos a megalomania de que me falou! Além disso, também assumiu o papel de narrador e fez uma alusão ao facto de não passarmos de marionetas manipuladas por um autor qualquer...
- Bien, bien, e desses...?
- Desses, acabei por não considerar a Caturra, por entender que não fazia sentido ter-me dado o prémio para logo mo tirar. Não é uma ave assim tão maléfica! Além disso, alguém me apontou a impossibilidade de a Caturra gravar a inscrição na pedra com o bico. Para ser justo, Poirot, usei todas as indicações que os meus comentadores e amigos me foram dando. Se alguma c
oisa consegui, o mérito não é só meu!


- Também reparei no interesse e na preciosa colaboração das suas amigas e amigos, Alien. Épatant! Olhe que poucos se podem gabar de ter amigos assim! E não ilibou mais ninguém?
- Tive que ilibar a Santa Lizzie. Afinal, é Santa, c'os
diabos, se me permite a expressão!
- Ficaram então a Condessa, o General e a sua amiga Teresa Durães...
- Exactamente. Apesar do que lhe disse sobre a Teresa, e não obstante a Condessa me ter parecido uma senhora de bem, refinada e de elevadíssima educação...
e até de me ter apoiado contra algumas pérfidas insinuações. E, finalmente, mesmo tendo em conta o meu apreço pelo General Rufus, que, é justo dizê-lo, ficou um pouco ensombrado depois de certas atitudes que tomou...
- Sei ao que se refere, caro Alien. E felicito-o pelo raciocínio. Foi quase brilhante!
- Ah, muito obrigado, caríssimo Poirot, mas não mereço! E há sempre o quase...
- E a inscrição na pedra, Alien? Lembra-se de lhe ter dito que a chave do mistério estaria também na sua intuição, que lhe segredava conter o texto gravado a "assinatura" do criminoso ou criminosa? E de ter sublinhado a expressão "no início"?
- Claro, Poirot... mas, por mais que olhasse para a pedra, nada de decisivo me vinha à ideia. E continua a não vir. Desespero, caro amigo, desespero!
- Mais non, mais non! Hercule Poirot sabe e vai ajudá-lo! Durma descansado. Amanhã de manhã passarei por sua casa, se mo permitir, e juntos resolveremos o enigma.

Despedimo-nos.

E temos assim que o Epílogo, afinal, ainda o não foi... Daí mais uma...


CONTINUAÇÃO

23 de fev de 2009

José Afonso - 2/08/1929 - 23/02/1987

Hoje haverá certamente muitos blogs com música e vídeos do Zeca Afonso. Ainda bem!

Eu também me associo à homenagem, e não conheço melhor tributo à memória do Zeca Afonso do que ouvir e dar a ouvir as suas canções. Para que nunca ninguém esqueça as palavras, a música, a voz e a luta por um mundo melhor. Também a Lola, neste momento a trabalhar, faz parte deste post e desta homenagem.

Hoje, como sempre, "O que faz falta é avisar a malta...". Deixo-vos essa, e mais uma canção que me é particularmente querida: "Era um redondo vocábulo" - acompanhada de uma animação em 3D de Eurico Coelho que considero notável.