Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

17 de abr de 2009

FRAGMENTOS: Cafés e afins por onde passei, convenientemente suspensos no tempo e no espaço para que possa visitá-los quando me apetecer.

Café, snack-bar e restaurante Mandarim & outros que vêm a propósito


- Ó pá, viste o Mário? – perguntava o Rogério.

- Qual Mário? - retorquia o Zé Manel.

- O das Cadeiras!

- Ah, esse! Saíu daqui há uma meia hora. Deve ter ido estudar.

- E que tal? Vamos lá desencaminhá-lo?


Geralmente, iam.



Passava-se esta cena no Café, Snack-Bar e Restaurante Mandarim, com alguma frequência e por razões diversas, a mais rara das quais não seria a procura de outro parceiro para a habitual sessão de póquer sintético. O Mário passara a ser “o das Cadeiras” porque, na época dos exames, declarava solenemente: “Vou fazer cinco cadeiras” (ou seis, ou as que fossem) - e fazia-as! Com o tempo, o Rogério tratou de lhe refinar a alcunha para “Marriô des Chaises”, em consonância com a influência político-filosófico-linguístico-cinematográfica dominante, e com mais algum tempo ficaria conhecido apenas por “Des Chaises”.


Estava então uma noite o Des Chaises não no Mandarim, mas no Et Coetera, uma espécie de boîte polivalente, quando viu o Dinis, encorajado por uns uísques precedidos de outras tantas cervejas, dirigir-se à Carlinha, calmamente sentada ao balcão, de copo na mão e completamente desprevenida, e declarar:


- Carlinha, da próxima vez que nos encontrarmos, vamos para a horizontal!


A Carlinha olhou-o nos óculos e sorriu. Não cinicamente, nem de forma sarcástica, nem com desprezo ou sequer ironia. Simplesmente, sorriu e, com aquele sorriso, apagou as intenções, as ideias, os sonhos e a enfática declaração do Dinis. Para todo o sempre.


Convém esclarecer que a Carlinha era uma sextanista de Medicina dotada de invulgar beleza e elegância, uma morenaça que, geralmente contra a sua vontade, despertava desejos e arrasava corações. O Dinis, gordito, óculos muito graduados, já tinha acabado a licenciatura, e nunca se lhe vira semelhante atrevimento, nem pouco mais ou menos. Mas a Carlinha, além da beleza, tinha uma qualidade que hoje raramente se encontra nas respostas àquelas perguntas que se fazem na televisão ou nas revistas, que qualidades prefere nos homens, ou nas mulheres, tanto faz, e lá vêm a inteligência (a Carlinha não teria muita, mas...), honestidade, lealdade, beleza, sinceridade, ambição e mais sei lá o quê, mas a bondade parece primar pela ausência. Dir-se-ia uma qualidade desvalorizada, esquecida, preterida. Seja pelo que for, quase nunca é mencionada. Ora a Carlinha era uma pessoa bondosa, e daí aquele sorriso eficaz dedicado às inusitadas pretensões do Dinis.


No Et Coetera, a música calava-se invariavelmente às quatro da manhã, logo depois de o disc-jockey passar o célebre “Vamos dormir” com que a RTP mandava a pequenada para a caminha por volta das nove da noite. Depois ficava-se por lá, a “acabar as bebidas”, e a conversa rendia até quando se quisesse. À saída, despedíamo-nos do porteiro, o Sr. Américo, homem de idade, afável e perfeitamente informado, ou não tivesse certa noite abordado muito discretamente o Zé Manel, que ia a saír:



- Olhe, Senhor Doutor, aquele seu amigo de barbas esqueceu cá ontem este livro, que por sinal é um livro “pribido”. Será que quer levá-lo para lho entregar, ou quer que eu o guarde bem guardado?


Chegávamos ao Et Coetera depois de uma passagem pelo Atenas e pela bica do jantar no já referido Mandarim, um café de dois andares onde se entrava descendo dois ou três degraus e se encontrava um enorme balcão de snack-bar, em L, e umas dez mesas onde raramente se jantava, já que pareciam estar destinadas a acolher os grupos que vinham tomar o café e, sendo caso disso, o digestivo. No snack almoçava-se mais do que se jantava. A ementa era quase sempre a mesma, os combinados da praxe, bife, prego no prato, bitoque, filetes de pescada, linguado “au meunier”, carne de porco à alentejana, jaquinzinhos em devido tempo, lulas à sevilhana, um cozido ou uma feijoada de vez em quando e, raramente, uma ou outra surpresa gastronómica. Vinhos razoáveis, preços médios e confecção satisfatória.


Subindo uma escada interior alcançava-se o primeiro andar, unicamente preenchido por mesas e respectivas cadeiras. Este nível do Mandarim tinha a interessante particularidade de servir clientelas e propósitos diferentes conforme a hora do dia ou da noite. De manhã, os comerciantes da Praça vinham ao pequeno-almoço, tal como os empregados dos estabelecimentos próximos, muito poucos estudantes e algumas senhoras da noite, tendo esta última freguesia, conjugada com a relativa abundância de mesas, valido, aliás injustamente, ao Mandarim o epíteto de Mesoputâmia. Logo a seguir, as mesas do pequeno almoço transformavam-se em mesas de estudo individual ou colectivo. À hora do almoço, pouca clientela, maioritariamente constituída por homens de negócios. Estudantes e um ou outro professor preferiam o snack do piso inferior. Logo a seguir, a malta da bica, variada q.b., mas com predominância de universitários, alguns dos quais iam ficando durante a tarde. Mais estudo. Ao lanche apareciam senhoras para o chá, e à noite, aí sim, havia mais afluência, diversa e variada, para o jantar e bica subsequente, até à meia-noite, hora de fecho impreterível.



O Anselmo, o proprietário, tinha uma política comercial interessante: Quando alguém partia acidentalmente o copo da imperial que estava a beber, imediatamente lhe era servida outra, por conta da casa. Hábito simpático e raro de encontrar, que acabou bruscamente numa noite em que o Jopan, um latagão caboverdiano de quem se dizia que tinha arrancado à mão algumas placas daquelas que indicam os nomes das ruas (seriam de latão, mas mesmo assim...) e que detinha o recorde de 56 canecas de cerveja emborcadas numa só noite, de seguida, não no Mandarim mas no Aeminium, célebre pelos pregos no prato bem temperados e com muito molho... o Jopan, dizia, já bastante entornado, trepou para cima de uma cadeira e começou a “deixar caír” imperial atrás de imperial, depois de as ter bebido quase até ao fim.. E lá se foi a estratégia de marketing do Anselmo e consequentes baldas. A vida é injusta!


A partir da meia-noite subia-se uma ruazita até ao Atenas, o café do Quadros, frequentado principalmente por alunos dos últimos anos da Universidade. O Quadros era um porreiraço, fazia facilmente amizade com a clientela regular, e tinha sempre em cima do balcão um tabuleiro de xadrez. Sem problemas, desafiava os melhores jogadores, e perdia sistematicamente com um garbo imparável:


- Ó Quadros, olhe que assim fica sem a torre!

- Mas para que é que eu quero a torre?

- Ó Quadros, vai perder a raínha!

- Mas para que é que eu quero a raínha?


Realmente...


Jogo em que nunca perdia era a moedinha, que ainda congregava bastantes parceiros. Se o Quadros ganhava, recolhia as moedas, e pronto. Se perdia, o vencedor da ronda, como era de regra, pagava uma rodada aos companheiros de jogatana – e o Quadros facturava...


No Atenas começavam frequentemente as conversas que iriam, depois das duas da manhã, desaguar no Et Coetera ou no 007, um pequeno restaurante descoberto na “baixinha”, que tinha a particularidade de servir bons petiscos até às quatro, além de um queijo da serra excelente e de uma garrafeira à altura.

O Fernando era quem mais falava, fosse de política, cinema ou filosofia. Passavam-se os “Cahiers du Cinéma” e os últimos filmes a pente fino, entre goladas de um Dão Caves Velhas Juta que estava em voga e com bom preço.


- O Bataille não diz nada disso, pá, não compreendes a essência do internacional-situacionismo... - Ó Carlos, traz aí mais uma garrafinha de Juta, por favor, que ainda sobrou queijo... – lê o Deborde, que só te faz bem!

- Espectacular, este “serra”! Onde é que o homem irá arranjar isto?

- Mas o Barthes, a Kristeva e o Todorov são essenciais para... Olha, Carlos, se não te importas, mais umas fatias deste pão, ok?... – uma abordagem séria da Linguística...

- E que tal se lessem Marx e Lenine, em vez desses teóricos da treta do não sei quantos situacionismo, hein?

- E porque não Gramsci? Porque não Althousser? “Pour lire Le Capital”, pá, está lá tudo! E ... – Falta aqui queijo, Carlos!

- Não me lixes! O que move o mundo não é a luta de classes coisa nenhuma, é a angústia do homem perante a morte! Basta ler o Morin, porra!

- Digam lá, alguém aqui conseguiu ver “O Último Ano em Marienbad” até ao fim?


E assim se evocavam ou invocavam os velhos e novos teóricos do marxismo de diferentes tendências, sobretudo as heterodoxas, e os de outras correntes ideológicas, sem falar nas literárias, artísticas, e por aí adiante. Naturalmente, a situação política do país não podia escapar, tanto mais que, para além da conversa, havia naquele grupo gente que também era de acção, gente que já tinha “estado dentro” e outra que viria a estar.


Predominantemente masculino, o grupo, que variava consoante as noites, incluía mulheres, facto pouco frequente nesse tempo e, em particular, a essas horas. Mas lá estavam, por exemplo, a Docas, que cozinhava um rim espectacular, e a Eugénia, que não cozinhava coisa nenhuma. A Carlinha é que não. Chegava até ao Mandarim, mas depois abandonava o grupo, porque se deitava relativamente cedo, exceptuando, é claro, as noites de Et Coetera.


Foi do Mandarim que partiu o Ernesto rumo à Dinamarca, no NSU de um amigo, que o pôs lá em cerca de 24 horas, para escapar à guerra colonial, isto uns meses antes do 25 de Abril... O Ernesto frequentava o quarto ano de Medicina e estes cafés e afins todos, e passava muitas vezes por dificuldades económicas, que ia resolvendo pelo velho método do cravanço de amigos com maior disponibilidade conjuntural. Munido de uma pequena agenda, anotava religiosamente as verbas que lhe emprestavam e os nomes dos benfeitores. Ainda ficou uns dois anos pela Dinamarca, apaixonado pelo país e possivelmente também por algumas das suas habitantes, e lá arranjou trabalho, o que lhe permitiu, ao regressar, procurar um por um os amigos a quem devia dinheiro e acertar as contas até ao último centavo.


O Des Chaises foi um dos muitos financiadores que ficaram atónitos com o inesperado reembolso. É justo que se diga que nunca contou a ninguém o episódio do Dinis e da Carlinha – mas alguém mais o terá testemunhado, porque a história correu de boca em boca. E, conforme um refrão da época, “Não vale a pena dizer nada, que amanhã sabe-se tudo!”