Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

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17 de abr. de 2009

FRAGMENTOS: Cafés e afins por onde passei, convenientemente suspensos no tempo e no espaço para que possa visitá-los quando me apetecer.

Café, snack-bar e restaurante Mandarim & outros que vêm a propósito


- Ó pá, viste o Mário? – perguntava o Rogério.

- Qual Mário? - retorquia o Zé Manel.

- O das Cadeiras!

- Ah, esse! Saíu daqui há uma meia hora. Deve ter ido estudar.

- E que tal? Vamos lá desencaminhá-lo?


Geralmente, iam.



Passava-se esta cena no Café, Snack-Bar e Restaurante Mandarim, com alguma frequência e por razões diversas, a mais rara das quais não seria a procura de outro parceiro para a habitual sessão de póquer sintético. O Mário passara a ser “o das Cadeiras” porque, na época dos exames, declarava solenemente: “Vou fazer cinco cadeiras” (ou seis, ou as que fossem) - e fazia-as! Com o tempo, o Rogério tratou de lhe refinar a alcunha para “Marriô des Chaises”, em consonância com a influência político-filosófico-linguístico-cinematográfica dominante, e com mais algum tempo ficaria conhecido apenas por “Des Chaises”.


Estava então uma noite o Des Chaises não no Mandarim, mas no Et Coetera, uma espécie de boîte polivalente, quando viu o Dinis, encorajado por uns uísques precedidos de outras tantas cervejas, dirigir-se à Carlinha, calmamente sentada ao balcão, de copo na mão e completamente desprevenida, e declarar:


- Carlinha, da próxima vez que nos encontrarmos, vamos para a horizontal!


A Carlinha olhou-o nos óculos e sorriu. Não cinicamente, nem de forma sarcástica, nem com desprezo ou sequer ironia. Simplesmente, sorriu e, com aquele sorriso, apagou as intenções, as ideias, os sonhos e a enfática declaração do Dinis. Para todo o sempre.


Convém esclarecer que a Carlinha era uma sextanista de Medicina dotada de invulgar beleza e elegância, uma morenaça que, geralmente contra a sua vontade, despertava desejos e arrasava corações. O Dinis, gordito, óculos muito graduados, já tinha acabado a licenciatura, e nunca se lhe vira semelhante atrevimento, nem pouco mais ou menos. Mas a Carlinha, além da beleza, tinha uma qualidade que hoje raramente se encontra nas respostas àquelas perguntas que se fazem na televisão ou nas revistas, que qualidades prefere nos homens, ou nas mulheres, tanto faz, e lá vêm a inteligência (a Carlinha não teria muita, mas...), honestidade, lealdade, beleza, sinceridade, ambição e mais sei lá o quê, mas a bondade parece primar pela ausência. Dir-se-ia uma qualidade desvalorizada, esquecida, preterida. Seja pelo que for, quase nunca é mencionada. Ora a Carlinha era uma pessoa bondosa, e daí aquele sorriso eficaz dedicado às inusitadas pretensões do Dinis.


No Et Coetera, a música calava-se invariavelmente às quatro da manhã, logo depois de o disc-jockey passar o célebre “Vamos dormir” com que a RTP mandava a pequenada para a caminha por volta das nove da noite. Depois ficava-se por lá, a “acabar as bebidas”, e a conversa rendia até quando se quisesse. À saída, despedíamo-nos do porteiro, o Sr. Américo, homem de idade, afável e perfeitamente informado, ou não tivesse certa noite abordado muito discretamente o Zé Manel, que ia a saír:



- Olhe, Senhor Doutor, aquele seu amigo de barbas esqueceu cá ontem este livro, que por sinal é um livro “pribido”. Será que quer levá-lo para lho entregar, ou quer que eu o guarde bem guardado?


Chegávamos ao Et Coetera depois de uma passagem pelo Atenas e pela bica do jantar no já referido Mandarim, um café de dois andares onde se entrava descendo dois ou três degraus e se encontrava um enorme balcão de snack-bar, em L, e umas dez mesas onde raramente se jantava, já que pareciam estar destinadas a acolher os grupos que vinham tomar o café e, sendo caso disso, o digestivo. No snack almoçava-se mais do que se jantava. A ementa era quase sempre a mesma, os combinados da praxe, bife, prego no prato, bitoque, filetes de pescada, linguado “au meunier”, carne de porco à alentejana, jaquinzinhos em devido tempo, lulas à sevilhana, um cozido ou uma feijoada de vez em quando e, raramente, uma ou outra surpresa gastronómica. Vinhos razoáveis, preços médios e confecção satisfatória.


Subindo uma escada interior alcançava-se o primeiro andar, unicamente preenchido por mesas e respectivas cadeiras. Este nível do Mandarim tinha a interessante particularidade de servir clientelas e propósitos diferentes conforme a hora do dia ou da noite. De manhã, os comerciantes da Praça vinham ao pequeno-almoço, tal como os empregados dos estabelecimentos próximos, muito poucos estudantes e algumas senhoras da noite, tendo esta última freguesia, conjugada com a relativa abundância de mesas, valido, aliás injustamente, ao Mandarim o epíteto de Mesoputâmia. Logo a seguir, as mesas do pequeno almoço transformavam-se em mesas de estudo individual ou colectivo. À hora do almoço, pouca clientela, maioritariamente constituída por homens de negócios. Estudantes e um ou outro professor preferiam o snack do piso inferior. Logo a seguir, a malta da bica, variada q.b., mas com predominância de universitários, alguns dos quais iam ficando durante a tarde. Mais estudo. Ao lanche apareciam senhoras para o chá, e à noite, aí sim, havia mais afluência, diversa e variada, para o jantar e bica subsequente, até à meia-noite, hora de fecho impreterível.



O Anselmo, o proprietário, tinha uma política comercial interessante: Quando alguém partia acidentalmente o copo da imperial que estava a beber, imediatamente lhe era servida outra, por conta da casa. Hábito simpático e raro de encontrar, que acabou bruscamente numa noite em que o Jopan, um latagão caboverdiano de quem se dizia que tinha arrancado à mão algumas placas daquelas que indicam os nomes das ruas (seriam de latão, mas mesmo assim...) e que detinha o recorde de 56 canecas de cerveja emborcadas numa só noite, de seguida, não no Mandarim mas no Aeminium, célebre pelos pregos no prato bem temperados e com muito molho... o Jopan, dizia, já bastante entornado, trepou para cima de uma cadeira e começou a “deixar caír” imperial atrás de imperial, depois de as ter bebido quase até ao fim.. E lá se foi a estratégia de marketing do Anselmo e consequentes baldas. A vida é injusta!


A partir da meia-noite subia-se uma ruazita até ao Atenas, o café do Quadros, frequentado principalmente por alunos dos últimos anos da Universidade. O Quadros era um porreiraço, fazia facilmente amizade com a clientela regular, e tinha sempre em cima do balcão um tabuleiro de xadrez. Sem problemas, desafiava os melhores jogadores, e perdia sistematicamente com um garbo imparável:


- Ó Quadros, olhe que assim fica sem a torre!

- Mas para que é que eu quero a torre?

- Ó Quadros, vai perder a raínha!

- Mas para que é que eu quero a raínha?


Realmente...


Jogo em que nunca perdia era a moedinha, que ainda congregava bastantes parceiros. Se o Quadros ganhava, recolhia as moedas, e pronto. Se perdia, o vencedor da ronda, como era de regra, pagava uma rodada aos companheiros de jogatana – e o Quadros facturava...


No Atenas começavam frequentemente as conversas que iriam, depois das duas da manhã, desaguar no Et Coetera ou no 007, um pequeno restaurante descoberto na “baixinha”, que tinha a particularidade de servir bons petiscos até às quatro, além de um queijo da serra excelente e de uma garrafeira à altura.

O Fernando era quem mais falava, fosse de política, cinema ou filosofia. Passavam-se os “Cahiers du Cinéma” e os últimos filmes a pente fino, entre goladas de um Dão Caves Velhas Juta que estava em voga e com bom preço.


- O Bataille não diz nada disso, pá, não compreendes a essência do internacional-situacionismo... - Ó Carlos, traz aí mais uma garrafinha de Juta, por favor, que ainda sobrou queijo... – lê o Deborde, que só te faz bem!

- Espectacular, este “serra”! Onde é que o homem irá arranjar isto?

- Mas o Barthes, a Kristeva e o Todorov são essenciais para... Olha, Carlos, se não te importas, mais umas fatias deste pão, ok?... – uma abordagem séria da Linguística...

- E que tal se lessem Marx e Lenine, em vez desses teóricos da treta do não sei quantos situacionismo, hein?

- E porque não Gramsci? Porque não Althousser? “Pour lire Le Capital”, pá, está lá tudo! E ... – Falta aqui queijo, Carlos!

- Não me lixes! O que move o mundo não é a luta de classes coisa nenhuma, é a angústia do homem perante a morte! Basta ler o Morin, porra!

- Digam lá, alguém aqui conseguiu ver “O Último Ano em Marienbad” até ao fim?


E assim se evocavam ou invocavam os velhos e novos teóricos do marxismo de diferentes tendências, sobretudo as heterodoxas, e os de outras correntes ideológicas, sem falar nas literárias, artísticas, e por aí adiante. Naturalmente, a situação política do país não podia escapar, tanto mais que, para além da conversa, havia naquele grupo gente que também era de acção, gente que já tinha “estado dentro” e outra que viria a estar.


Predominantemente masculino, o grupo, que variava consoante as noites, incluía mulheres, facto pouco frequente nesse tempo e, em particular, a essas horas. Mas lá estavam, por exemplo, a Docas, que cozinhava um rim espectacular, e a Eugénia, que não cozinhava coisa nenhuma. A Carlinha é que não. Chegava até ao Mandarim, mas depois abandonava o grupo, porque se deitava relativamente cedo, exceptuando, é claro, as noites de Et Coetera.


Foi do Mandarim que partiu o Ernesto rumo à Dinamarca, no NSU de um amigo, que o pôs lá em cerca de 24 horas, para escapar à guerra colonial, isto uns meses antes do 25 de Abril... O Ernesto frequentava o quarto ano de Medicina e estes cafés e afins todos, e passava muitas vezes por dificuldades económicas, que ia resolvendo pelo velho método do cravanço de amigos com maior disponibilidade conjuntural. Munido de uma pequena agenda, anotava religiosamente as verbas que lhe emprestavam e os nomes dos benfeitores. Ainda ficou uns dois anos pela Dinamarca, apaixonado pelo país e possivelmente também por algumas das suas habitantes, e lá arranjou trabalho, o que lhe permitiu, ao regressar, procurar um por um os amigos a quem devia dinheiro e acertar as contas até ao último centavo.


O Des Chaises foi um dos muitos financiadores que ficaram atónitos com o inesperado reembolso. É justo que se diga que nunca contou a ninguém o episódio do Dinis e da Carlinha – mas alguém mais o terá testemunhado, porque a história correu de boca em boca. E, conforme um refrão da época, “Não vale a pena dizer nada, que amanhã sabe-se tudo!”




8 de mar. de 2009

Epílogo do epílogo...

Afazeres inadiáveis impediram-me de mais cedo vos dar conta da sequência da minha conversa telefónica com Poirot. Procurei fazê-lo de forma clara e o mais sucinta possível, mas sem perda do colorido original. Agora que acabei a narrativa, constato que ficou muito mais longa do que desejaria. No entanto, resumir a história tirar-lhe-ia todo o sabor, toda a riqueza e pitoresco do conteúdo, proporcionados pelos protagonistas, entre os quais se contam as minhas comentadoras e os meus comentadores (golpe baixo!) e, evidentemente, a extraordinária personagem que é Hercule Poirot. Portanto, heróicos e hipotéticos leitores, não desistam! :)

* * *
Tinha acabado de tomar o meu café da manhã quando Poirot me bateu à porta. Foi direito ao assunto, apesar do seu reconhecido gosto pelos circunlóquios e explicações teatrais.

- Caro Alien, como lhe disse ontem à noite, o seu raciocínio foi realmente brilhante. Esqueceu-se, porém, da pista que lhe ofereci ao sublinhar a palavra início, associada à inscrição na pedra. Considerando a mensagem do larápio, início de quê? Vou explicar-lhe a forma como abordei a pedra quando a vi aqui em sua casa, no dia em que descobri o autor da façanha. Já agora, sempre acrescento que, dos seus três suspeitos não eliminados, rapidamente percebi qual correspondia perfeitamente ao perfil psicológico adequado à proeza e ao gesto de soberba materializado na gravação feita na pedra e deixada à sua atenção. Porém, isso não me bastava. Perguntei, portanto, a mim próprio se não existiria nesse gesto mais do que uma simples gabarolice, ou tentativa de o humilhar, ou sensação de impunidade... Enfim, se não existiria, digamos, uma prosápia dentro da prosápia. Ao ler o texto, pareceu-me ele um tanto estranho, um tanto forçado. Comecei, por isso, a olhá-lo de outra perspectiva, deixando de lado o sentido das palavras para as considerar em si mesmas, reparando na forma e na disposição. E foi assim que cheguei. E agora pergunto-lhe, referindo-me à pista que lhe deixei: Tendo em conta a inscrição, o que poderia
ser o início?


A primeira palavra? "Ruínas"? Nada nos diz. A primeira linha? Também não é conclusiva, e o mesmo se pode dizer das duas primeiras linhas. Mais do que isso já não pode ser considerado início, não é verdade?
- Concordo, Poirot! Também analisei a inscrição dessa forma, mas não me veio à ideia nada de útil!
- Deveria ter persistido, Alien! Se não se tratava da primeira palavra, nem da primeira linha ou linhas, não poderia ser a primeira letra de cada linha?

- Talvez se surpreenda, caro Poirot, mas também pensei nisso, e cheguei à "palavra" RFEVA. A mim, nada me disse. E a si?
- Também não, claro! E ficou por aí?
- Fiquei, Poirot, desisti, vencido pelo cansaço...
- Pois olhe que o mesmo não aconteceu com a sua amiga Prof! Veja o que ela escreveu num comentário:

"Rumo ao blog
fus
tigada pela curiosidade mas
foi
-se a esperança, lido
o
último post;
la
mento ter de esperar mais um dia. Nem na
dio isto acontecia. E fico à espera e nem
pio!"


E acontece, caro Alien, que Rufus era o meu eleito, e foi também a sua assinatura que encontrei na pedra, quando considerei as primeiras sílabas de cada linha! O resto veio por acréscimo. Conhecendo o mau carácter do General Rufus e a sua manifesta tendência para a charlatanice e para a batota, percebi que poderia muito bem não respeitar a regra das sílabas. Ou então, como afirmou o narrador, ou seja, a sua amiga Teresa, a fluência de Rufus na leitura é muito fraca! E não passa de um gabarola sem limites. Faço aqui uma pequena pausa para lhe lembrar que todas as pessoas que comentaram os seus posts acerca do roubo do prémio lhe deram ajudas preciosas e se inclinaram, de um modo geral, para a culpabilidade do General Rufus.

Poirot encheu o peito de ar e continuou:


Olhando atentamente para as linhas seguintes, eis o que vi (aqui Poirot sacou de um papelinho muito bem dobrado, abriu-o com todo o vagar e pôs-mo diante dos olhos):

"Ru ínas serão em breve o que deste blog restará, a começar pelo estandarte.
Fus
tigado pela cólera dos deuses, o impostor receberá o devido castigo.
Este prémio não é para qualquer ser vindo das profundas, um profano alienígena, um hereje!
Ve rde, ainda por cima! Como é doce o sabor da vingança, e justo ter nas mãos o que mereço!
Aqui o declaro, para quem venha testemunhar a razão da minha ira e rir-se do usurpador."

Estarrecido, considerei a claríssima assinatura do ladrão: "Rufus esteve aqui."

- É notável, Poirot, notável! Foi, então, Rufus...?
- Claro, mon ami, claro! Palavra de Hercule Poirot!


A princípio entusiamei-me com a revelação, mas em breve o meu cepticismo veio ao de cima:


- Mas, Poirot, não poderia ter outra pessoa feito a inscrição e deixado a pedra para incriminar Rufus?

- Ah, mon ami, mas quem, de entre os suspeitos que ficaram, poderia ter cometido tal acto? A Condessa? A sua amiga Teresa Durães? Acha mesmo possível...?
- Na verdade, Poirot, não acho... mas, mesmo assim, faltam aqui provas...


Poirot indignou-se e gesticulou, como que a apontar os alvos do seu desagrado:

- Ah, caro Alien, sempre as provas, os inúteis indiciozinhos materiais, as pontas de cigarro, os copos com restos de bebida e marcas de bâton... e as celulazinhas cinzentas, para que servem? Sim, para quê? - Poirot abriu os braços e prosseguiu: - Mas quer provas? Pois bem, Hercule Poirot lhe dará as provas que tanto aprecia, e ainda algo mais! Tem a sua nave por aqui estacionada?

- Tenho...
- Então vamos, que não há tempo a perder!


Levantámos voo sem demora, e fui seguindo as indicações de Poirot sobre o rumo a tomar.

- Desça aqui! - exclamou o meu amigo, depois de uma olhadela discreta ao relógio de bolso.

Aterrei e escondi a nave entre umas árvores que ali estavam mesmo a calhar. A uns trezentos metros, avistei uma construção de um só piso. Interroguei Poirot com o olhar, mas o meu companheiro de viagem não se descoseu. À medida que nos aproximávamos, cada vez mais estranhava o local, até que, já próximo do edifício, identifiquei nitidamente a placa de um restaurante.

- Poirot? Um restaurante? Aqui é que estão as provas?
- Mais non, mon ami, aqui não!
- Mas... não me disse que não havia tempo a perder?
- Não seja impaciente, Alien, não seja impaciente! Isto é tudo menos perder tempo! Há que respeitar o horário das refeições, e estamos na hora do almoço... e acontece que neste restaurante, perdido no meio de nada, servem o melhor prato de moules et frites que já provei fora da Bélgica!

Já vencido e convencido, confidenciei:

- Não sei se sabe, Poirot, que já tive ocasião de me banquetear com essa deliciosa especialidade, algures nos arredores de Antuérpia!
- Ah, Anvers, mon ami, Anvers! Que saudades!

Apesar de todas as pressas, saboreámos lentamente o petisco, regado por um excelente branco da casa, continuámos com uma fatia de cheesecake e rematámos com um caffè espresso que estava mesmo no ponto. Já mais bem disposto, encaminhei-me para a nave, com Poirot ainda a elogiar a refeição e o chef.

Conhecendo Poirot como conheço, não me dei ao trabalho de lhe perguntar onde me levava, limitando-me uma vez mais a seguir a sua orientação. Não tinham ainda decorrido duas horas de voo quando o meu amigo finalmente falou:

- Ali, Alien, poise o seu veículo ali naquela clareira!

Obedeci e, ao descer, apercebi-me de que nos aproximávamos de um bosque bastante denso. Da clareira partia um único trilho estreito que começámos a percorrer logo que abandonámos a nave. Andámos uns bons quinhentos metros até darmos com uma espécie de muralha - e digo espécie porque me pareceu muitíssimo sofisticada e ostentando grande profusão de elementos decorativos. Para além dela, nada se via. Acercámo-nos de um portão blindado onde se materializaram dois guardas, estranhamente equipados com espadas. Interroguei Poirot com o olhar.

- Caro Alien, eis o acampamento do General Rufus!

Confesso que, nesse momento, senti alguma apreensão, ao contrário da confiança que Poirot parecia revelar. Um dos guardas perguntou-nos quem éramos e ao que íamos. Poirot respondeu sem a mínima hesitação, em tom autoritário:

- Sou Hercule Poirot! Acompanha-me o meu amigo Alien, e pretendemos falar com o General Rufus!

Para minha surpresa, o guarda inclinou-se respeitosamente perante o meu companheiro. Em seguida dispensou-me igual tratamento, e não pude deixar de pensar que, em boa verdade, o nome e a fama de Hercule Poirot chegavam aos lugares mais recônditos e às pessoas menos prováveis...

O portão abriu-se silenciosamente, como se alguém tivesse, do interior, accionado um telecomando - e percebi que o sistema de vigilância não se limitava àqueles dois guardas...

Entrámos, e logo estaquei, mudo de espanto.

Desenho do "acampamento" do General Rufus que compus de memória

- Ac.... acampamento, Poirot? Chama a isto acampamento???

De facto, perante os nossos olhos estendia-se um lugar paradisíaco, um autêntico resort de luxo, com espaços verdes, lagos, pequenas quedas de água, construções de elegantíssima arquitectura, ruas pavimentadas a mármore ou a calçada lusitana - e nem um só elemento militar visível. Ao fundo, um mar sereno, de um azul espantoso. Mas não preciso de me alongar na descrição: A imagem diz tudo!

- Alien, não me surpreende que Rufus tenha trocado a vida austera dos acampamentos militares por este luxo, que creio ser rodeado da maior segurança. Afinal, as chacinas e os saques foram-no enriquecendo, fizeram-no almejar outro estilo de vida, acentuaram a sua natureza vil e corrupta - e aqui tem outro exemplo da sua megalomania... Ou o produto das pilhagens lhe permitiu construír do nada este domínio, ou simplesmente o conquistou pela força das armas. Ah, mas eu já lhas canto!

Mau grado o estado de tensão em que me encontrava, não pude deixar de sorrir perante a prosápia de Poirot e a sua escolha de palavras...

O guarda guiou-nos até àquela que parecia ser a maior construção, uma espécie de pequeno palacete, e pediu-nos que aguardássemos numa sala ricamente mobilada e decorada, onde ficámos a apreciar quadros dignos da melhor galeria de arte.

Decorridos poucos minutos, o General Rufus fez a sua entrada majestosa, acompanhado por um subalterno que imaginámos ser o seu braço-direito.

- Que o traz por cá, Monsieur Poirot?
- A Verdade, General! A Justiça! O castigo do criminoso e a reparação devida à vítima do crime! - declarou solenemente Poirot, com largos gestos à mistura.
- Ora essa, Monsieur! E que tenho eu a ver com isso? - perguntou Rufus em tom altivo.
- Tudo! - retorquiu secamente Poirot. Sei que roubou o Prémio do Melhor Blog Intergaláctico ao meu amigo Alien, aqui presente (só então Rufus se dignou deitar-me um olhar de soslaio) e venho, como lhe disse, clamar por justiça! Suponho que já conhece Monsieur Alien...?
- Ah... um dos Verdes - rosnou o general - ... tenho uma vaga ideia...
- Mais do que vaga, General! - acusou Poirot. - Na verdade, entrou ilegalmente no blog do meu amigo e roubou-lhe o galardão!

A cara de Rufus ficou vermelha de cólera.

- Como se atreve a acusar-me nos meus próprios domínios? Olhe que...

Mas Poirot não o deixou continuar.

- Olhe que, digo-lhe eu, Hercule Poirot nunca fala de cor! Acuso-o, sim, General, porque sei!
- Ah, e sabe como? - perguntou Rufus, cada vez mais encolerizado.

Pormenor da sala onde decorreu a conversa com o General Rufus

O meu amigo levou a mão à algibeira e, num gesto dramático, sacou da pedra gravada e do papelinho que me mostrara nessa mesma manhã, e colocou-os diante dos olhos do General Rufus.

- Foi assim que soube, General. E agora, que tem a dizer? Que se deu à basófia de assinar o roubo como quem assina um quadro? Que foi vencido pela sua vaidade? (A esta última interrogação achei alguma piada...)

A cara de Rufus começou a passar do vermelho ao branco. Gaguejou:

- R... Rufus es... esteve aqui???? -N... n... não ff... fui eu! Não fui eu!
- Foi! - excalmou peremptório o meu amigo. E não adianta negá-lo. O que lhe mostro é prova bastante!

Rufus ia-se recompondo, mas, apesar disso, a sua palidez acentuava-se.

- Monsieur, fala muito e fala de alto, mas não tem provas! Como sabe que algum vulgar bandido não deixou a inscrição com essa frase para me incriminar? Tenho, como sabe, muitos inimigos!

- Et pourtant, - proferiu enfaticamente Poirot - essa assinatura é mesmo sua! É própria da sua personalidade. Mas não percamos mais tempo. Quer provas? Pois saiba que vai dar-me a melhor das provas possíveis: a sua confissão!
- Ora, ora, Monsieur Poirot, por quem me toma? Crê mesmo que eu, General Rufus, confessaria tal acto, mesmo que o tivesse cometido?
- Ah, sim, creio... Sabe, General, é perigoso subestimar Hercule Poirot!

Juntando o gesto às palavras, Poirot voltou a levar a mão ao bolso do sobretudo, e de lá extraíu algo de forma rectangular que não identifiquei, e que colocou frente aos olhos do General. Rufus examinou o objecto e a sua face começou então a adquirir um tom esverdeado - o que, admito, me preocupou um bocadinho...

- Então, General, reconhece alguém nesta fotografia? - perguntou Poirot, com um sorrisinho de triunfo.

Tratava-se, então, de uma fotografia! Rufus olhou-a e vacilou, cada vez mais verde.

- Eu... eu...

(No momento em que vos narro estes factos, tenho na minha posse uma cópia da foto, que Poirot entretanto me cedeu. Por muito que me agradasse publicá-la aqui como testemunho do ocorrido e para vosso divertimento, é evidente que o não posso fazer, sob pena de traír a confiança do meu amigo Poirot e a sua promessa ao General Rufus.)

Poirot prosseguiu, implacável:

- Quem é o sujeito que enverga essa estranha indumentária e, citando uma testemunha presencial, liga na perna, sentado em frente a uma garrafa de whisky quase vazia e, afirma outra testemunha presencial,
acompanhado de duas meninas esbeltas? Quem será, General? E o local, lembra-se do local? Será, e de novo recorro à palavra de quem tudo viu, uma casa de alterne onde passou tempos memoráveis? Então, General, confessa? Ou prefere ver a sua reputação para sempre arruinada, e os seus vícios alvo de chacota pública?

Poirot enfrenta Rufus com cara de poucos amigos

O meu amigo viera, afinal, fortemente armado... e a perturbação do general era evidente. No entanto, com um gesto brusco, arrancou a foto comprometedora das mãos de Poirot e rasgou-a em mil pedaços.

- E agora, Monsieur, que é feito da sua arma? Queria chantagear-me? Menosprezou Rufus - e isso, sim, é perigoso!
- Já vamos ver quem menosprezou quem, General. Saiba que, neste preciso momento, o meu amigo Capitão Hastings tem na sua posse uma dúzia de cópias da fotografia que destruiu, com instruções expressas para as enviar à Imprensa, a começar pelo Times, caso eu, Hercule Poirot, não me encontre com ele, são e salvo, dentro de duas horas, em local que combinámos! Saiba também que não tenho forma de comunicar com Hastings, pelo que seria inútil concretizar a ideia que passa neste instante pela sua torpe cabeça: Torturar-me!

Poirot pôs-se em bicos de pés.

- Confessa ou não?
- Eu... eu... Pronto, eu confesso! - sibilou Rufus, vencido. E agora saia dos meus domínios!
- Mais non, General! A sua confissão talvez baste ao meu amigo Alien, que tanto queria as provas (Poirot deitou-me um olhar de esguelha) - mas, para mim, não é suficiente!
- Que mais quer, então? - gritou Rufus, quase alucinado.
- Como lhe disse, vim aqui em busca da Verdade. Já a temos. Mas também o avisei de que vinha igualmente pela Justiça, pela reparação do dano causado ao meu amigo Alien e pelo castigo do criminoso. Assim sendo, exijo-lhe que, aqui e agora, devolva a Monsieur Alien o que lhe roubou! Ou isso ou a foto vai...
- Muito bem, Monsieur. Ganhou. Por agora.

O general dirigiu-se aio seu presumível braço-direito:

- Sem Nome, traz-me aquilo que te dei a guardar!

Sem Nome desapareceu nas entranhas do palacete. Após alguns segundos de hesitação, Rufus perguntou a Poirot:

- Como obteve essa fotografia?

- Ah, General, é bem certo que os pecados antigos projectam longas sombras! Acontece que este seu pecado nem sequer foi muito antigo. Eu explico-lhe - Poirot esfregou as mãos e lançou-se num discurso que me ia deixando cada vez mais atónito:

- Há apenas algumas semanas, um interessante grupo reuniu-se à volta de uma mesa do Mini Bar Boca de Pano
.

Dele faziam parte a Senhora Dona Teresa Durães, acompanhada pelo Sr. Narrador, por uma Caturra que lhe poisava no ombro, pela D. Ingrácia e marido e pela Senhora Condessa D'Aqui e D'Além; a Senhora Dona Lizzie, que não largava da mão um pato de plástico branco e conversava animadamente com a Senhora Dona Lili Malveira e com o Sr. Engº. Phil Collins da Conceição; o compadre Manel das Cabras Ruivas, que não largava da vista a Dona Lizete das limpezas e a copeira Ofélia, enquanto trocava pilhérias com o compadre Zé Zarolhe; a Professora Prof, em animada cavaqueira com a menina Andreia Vanessa e a Madame de La Palissa; a Senhora Dona Bettips, o Sr. Legível e a sua Ovelha Anónima, a Senhora Dona AlienDS; a Senhora Dona Wind, o Sr. Spartakus, a Senhora Dona Justine e o Sr. Mocho Falante; a Senhora Dona Emma Larbos, a Senhora Dona Mariatuché, a menina Beatriz, uma Senhora soit-disant Coxa e Marreca, a Professora Mar, a Professora Rosalina, a Senhora Dona Arabica Das Perguntas Difíceis e a E.T. Senhora Dona Lola; as poetisas Afonsa Lapa da Videira e Luísa dos Camiões, rodeadas pelo dramaturgo Gil Vicente e pelos poetas José Régio, Augusto Gil, Bocage, Fernando Pessoa, António Aleixo e Mário de Sá-Carneiro; os elementos de um grupo coral alentejano que volta e meia desatavam a cantar "Eu ouvi um passarinhôôôô..."; o gato Alá - e que me perdoe alguém que de momento não me ocorra. Lá do alto, velavam pelo estranho grupo Santa Lizzie (de evidente origem!) e S. Miguel Arcanjo, convocado pela já citada Senhora Dona Emma Larbos. A conversa ia animada, uns atiravam-se às minis e aos salgadinhos, outros ao vinho quente com canela, enfim, uma autêntica festa! Ora acontece que, paredes meias com o Mini Bar, funciona uma discreta casa de alterne, facto que - quero crer! - aquela distinta companhia ignorava... mas que se tornou evidente quando uma larga porta de comunicação, convenientemente disfarçada na parede, se abriu para deixar saír alguns fregueses da dita casa, apostados certamento em terminar a noite no Boca de Pano. Tendo a porta permanecido aberta, fosse por incúria ou por operação de marketing, os convivas tiveram ocasião de apreciar uma cena digna de registo: Um indivíduo manifestamente alcoolizado, envergando um traje esquisito e liga na perna, tentava cantar a Lusitana Paixão acompanhando uma máquina de Karaoke, enquanto ia escorregando pela mesa abaixo, apesar de amparado por duas belas funcionárias do estabelecimento. O grupo dividiu-se entre a estupefacção, o escândalo, a gargalhada e a curiosidade. Porém, duas das senhoras, que obviamente não vou nomear, General, para que não caia na tentação de sobre elas exercer furtivamente represálias, mantiveram um sangue-frio admirável e registaram a cena. Foi assim que...

Poirot calou-se quando viu reaparecer Sem Nome transportando uma pequena caixa que me era muito familiar, e da qual, emocionado, não tirei os olhos. Entregou-a ao General Rufus, que a abriu, perguntando a Poirot:

- Está tudo?

Hercule consultou-me com o olhar.

- Tudo, Poirot. O galardão, a dedicatória, o estandarte... não falta nada - respondi louco de alegria.

- Faça-se então Justiça! - exclamou Poirot encarando Rufus, que, manifestamente contrariado, me entregou a caixa. Segurei-a com mãos trémulas, e o meu amigo concluiu:

- General, foi feita Justiça e o dano reparado. Falta o castigo do criminoso. Vou ser benevolente... por esta vez. Conservarei na minha posse as cópias da fotografia, e ai de si se alguma vez voltar a cometer proeza semelhante! Ai de si se tentar vingar-se de alguma das pessoas que mencionei, e que são absolutamente inocentes! A cólera de Hercule Poirot abater-se-à sobre a sua cabeça, General! Lembre-se das minhas palavras!

Retirámo-nos, acompanhados pelo mesmo guarda que nos facultara a entrada. Cerrado o portão, enveredámos pelo trilho de regresso à clareira. Não me cansei de agradecer a Poirot e de lhe tecer merecidos louvoures. Recebeu-os com naturalidade, alisando significativamente o bigode e sorrindo, satisfeito.

- Caro Poirot, compreendo perfeitamente que não tenha querido revelar ao General Rufus quem imortalizou a cena da casa de alterne, mas... não mo dirá a mim, Alien?
- Mais oui, mon ami, claro que lhe digo! A sua amiga Arabica registou-a com o auxílio de um aparelho a que chamam câmara digital; e a sua amiga Lizzie gravou-a através de um engenho conhecido por memória fotográfica. Aí tem!
- Bom, confesso que não fico surpreendido...

Durante o voo de regresso, ofereci:

- Poirot, sei que não é agradecimento bastante, mas estamos na hora do chá e, como muito bem disse, é necessário respeitar o horário das refeições. Convido-o, com todo o gosto, a beber em minha casa uma nova tisana que tenho andado a experimentar!

Pelo olhar de Poirot perpassou - pareceu-me! - um lampejo de ironia...

- Mon ami, sinto-me muito honrado, mas, como sabe, tenho de me encontrar com o Capitão Hastings dentro do prazo acordado... A palavra de Hercule Poirot é sagrada!
- Seja, então, Poirot. Ficará talvez para outro dia...

O local combinado era, afinal, a residência de Hastings. Estávamos já perto quando a pergunta me ocorreu de súbito:

- Poirot, desculpe a minha curiosidade... bem sei que contou a Rufus as circunstâncias em que a sua comprometedora visita à casa de alterne foi fixada, e até me disse há pouco por quem... mas... parece-me que não chegou a revelar como obteve as fotografias...?

- Ah, mon ami... achará certamente natural que, no dia seguinte ao da reunião no Mini Bar, já algumas cópias da foto e da memória fotográfica andassem de mão em mão entre as pessoas de que falei. Decerto calculará que, na minha breve investigação, tive ocasião de ler atentamente as suas caixas de comentários, que se revelaram um auxílio precioso. Finalmente, haverá de imaginar que contactei algumas das testemunhas... mas sabe, caro Alien, quando estão em causa les dames, um cavalheiro tem que ser discreto... compreende, não é verdade, mon ami?


Compreendi perfeitamente. Saíra-me fresco, este Poirot! Chegados ao ponto de encontro, despedi-me, demonstrando efusivamente a minha gratidão, e segui viagem, contemplando com satisfação e orgulho o meu galardão, e jurando que nunca mais o exporia no blog, desprotegido e sujeito à cobiça de qualquer patife. Porque, é bem verdade, Rufus há muitos! Rufus há muitos!


25 de fev. de 2009

Epílogo

Ontem à noite telefonei a Poirot. Farto de dar voltas à cabeça e de, em vão, esperar ajuda na descoberta do autor do roubo do prémio, não resisti a dar-me por vencido. O meu amigo atendeu-me com afabilidade, manifestamente bem disposto. Teria certamente acabado de beber o seu precioso cacau quente.



- Então, caro Alien, não chegou a conclusão nenhuma a partir das pistas que lhe dei? Não excluiu sequer alguns dos suspeitos, considerando a vertente dos perfis psicológicos?
- Excluí, sim, claro que excluí! Aliás, a minha grande tentação foi a de os eliminar a todos, por não acreditar que os meus comenta
dores e amigos fossem capazes de invejar, cobiçar e roubar o meu galardão. Depois pensei melhor...
- E...?
- E mantive como suspeitos a Caturra, a Santa Lizzie, a Condessa, o General Rufus e a Teresa Durães.
- Ah, e porquê, mon ami?
- Bem... os quatro primeiros por não os conhecer suficientemente bem - e, no caso da Santa Lizzie, ainda havia a agravante de ter semi-usurpado a identidade da Lizzie, que já lhe expliquei ser um dos elementos de uma trindade de duas.
- E a última?

- A Teresa Durães... enfim, pedia-me o coração que a excluísse, mas não mo permitiu a razão. É um facto que se fez passar por Criador - e aqui temos a megalomania de que me falou! Além disso, também assumiu o papel de narrador e fez uma alusão ao facto de não passarmos de marionetas manipuladas por um autor qualquer...
- Bien, bien, e desses...?
- Desses, acabei por não considerar a Caturra, por entender que não fazia sentido ter-me dado o prémio para logo mo tirar. Não é uma ave assim tão maléfica! Além disso, alguém me apontou a impossibilidade de a Caturra gravar a inscrição na pedra com o bico. Para ser justo, Poirot, usei todas as indicações que os meus comentadores e amigos me foram dando. Se alguma c
oisa consegui, o mérito não é só meu!


- Também reparei no interesse e na preciosa colaboração das suas amigas e amigos, Alien. Épatant! Olhe que poucos se podem gabar de ter amigos assim! E não ilibou mais ninguém?
- Tive que ilibar a Santa Lizzie. Afinal, é Santa, c'os
diabos, se me permite a expressão!
- Ficaram então a Condessa, o General e a sua amiga Teresa Durães...
- Exactamente. Apesar do que lhe disse sobre a Teresa, e não obstante a Condessa me ter parecido uma senhora de bem, refinada e de elevadíssima educação...
e até de me ter apoiado contra algumas pérfidas insinuações. E, finalmente, mesmo tendo em conta o meu apreço pelo General Rufus, que, é justo dizê-lo, ficou um pouco ensombrado depois de certas atitudes que tomou...
- Sei ao que se refere, caro Alien. E felicito-o pelo raciocínio. Foi quase brilhante!
- Ah, muito obrigado, caríssimo Poirot, mas não mereço! E há sempre o quase...
- E a inscrição na pedra, Alien? Lembra-se de lhe ter dito que a chave do mistério estaria também na sua intuição, que lhe segredava conter o texto gravado a "assinatura" do criminoso ou criminosa? E de ter sublinhado a expressão "no início"?
- Claro, Poirot... mas, por mais que olhasse para a pedra, nada de decisivo me vinha à ideia. E continua a não vir. Desespero, caro amigo, desespero!
- Mais non, mais non! Hercule Poirot sabe e vai ajudá-lo! Durma descansado. Amanhã de manhã passarei por sua casa, se mo permitir, e juntos resolveremos o enigma.

Despedimo-nos.

E temos assim que o Epílogo, afinal, ainda o não foi... Daí mais uma...


CONTINUAÇÃO

10 de fev. de 2009

Um encontro inesperado

Descia eu a rua, preocupado com o mistério que me anda a ensombrar os dias, quando avistei ao longe um vulto familiar. Sobretudo impecável, cabeça em forma de ovo, bigode cujos floreados se tornavam mais definidos à medida que nos aproximávamos... só podia ser ele!

Como já o conhecia dos livros, não hesitei em abordá-lo. É que vinha mesmo a calhar!

- Hercule! Bons olhos o vejam!
- Alien, mon ami, como tem passado?
- Nada mal, à custa de uma nova tisana que ando a experimentar. Tem-me feito muito bem às celulazinhas cinzentas.
- Ah, oui?
- Assim é, meu caro. E, caso os seus afazeres o permitam, convido-o agora mesmo a experimentar essa tisana em minha casa.
Encontrara o isco certo. Poirot, entusiasmado, anuíu de imediato, e lá fomos.

Quero poupar-vos à descrição do encontro, por isso passo directamente ao que nos interessa. Exposto ao detective o caso do prémio roubado, o homenzinho foi dando pequenos goles na tisana, meneando a cabeça em sinal de aprovação e alisando cuidadosamente o bigode. Era evidente que, no meio da nossa conversa recheada de banalidades, Poirot pensava.

- Mon ami, escusado será dizer-lhe que todos os que tiveram acesso ao seu blog, e muito em especial à sua caixa de comentários, são suspeitos.

- Todos, Poirot???
- Mais oui, todos! Sabe perfeitamente que o criminoso tanto pode ser a pessoa mais provável como a mais improvável.
- Tem razão...
- Repare também que todos tiveram motivo, já que o galardão é muito cobiçado. E todos tiveram oportunidade. No entanto...
Poirot fez uma pequena pausa e bebeu mais uns goles de tisana.

- ... No entanto, se é certo que me guio pelo raciocínio, também não desprezo a intuição. Neste caso, a sua intuição, mon ami, quando afirma que crê ter o gatuno deixado a sua marca nos dizeres que gravou na pedra.
Poirot esboçou aquele sorrisinho do costume, e continuou:
- Não se entusiasme muito, que não é apenas da sua intuição que se trata. Sabe certamente que a minha aguda capacidade de avaliação do perfil psicológico das pessoas me tem levado a resolver mistérios que, sem Hercule Poirot, ficariam para sempre por desvendar! Ora, já lhe ocorreu perguntar a si mesmo quem, de entre os suspeitos, seria capaz de deixar um texto gravado em pedra, em vez de um simples lugar vazio? Já pensou no motivo dessa prosápia? No carácter de quem assim agiu? A mensagem, meu caro Alien, é um acto audaz, provocatório, próprio de quem se imagina impune e faz questão de se gabar do feito; de quem não se contentou em privá-lo do seu merecido prémio, juntando ao roubo a humilhação e a gargalhada sinistra. É evidente a megalomania do criminoso. Não lhe parece?
- De facto, agora que o diz...
- Dizem-no (aqui Poirot bateu repetidas vezes com o indicador direito na cabeça) as minhas celulazinhas cinzentas. Elementar, meu caro Alien!
- Elementar...? Mas essa deixa não era de Sherlock...?
- Será, mon ami? Será? Olhe que até Holmes aprendeu muito com o grande Hercule Poirot!
Calei-me, convencido de que a sua proverbial vaidade lançara Poirot numa total confusão quanto à cronologia.

O detective deitou um olhar penetrante à inscrição. Observou-a em silêncio durante alguns minutos. De repente, bateu na testa e exclamou, triunfante:

- Voilá, mon ami! A sua tisana é realmente eficaz!
- Então quer dizer que... que...
- Sim, Alien! Poirot sabe quem foi! Outro sorrisinho, e continuou:

- Mas não vou acrescentar nada ao que já disse. Ao fim e ao cabo, a sua excelente tisana haverá de iluminar-lhe o raciocínio, n’est-ce pas? Um conselho, caro Alien: Sirva esta tisana aos seus amigos comentadores. Pode ser que lhes estimule as celulazinhas cinzentas, como tem acontecido consigo!
Notei no olhar do meu amigo um brilho suspeito. Poirot apanhara-me com a história da tisana milagrosa. A infusão que eu lhe servira fora rapidamente identificada pelo seu paladar de connoisseur como uma vulgar mezinha para males de estômago, intestinos e afins.
- Hercule, ao menos uma pequena indicação... qualquer coisa...
- Pois bem, caro Alien, se assim o quer... Lembra-se de uma tal Teresa Durães, também conhecida por narrador, ter escrito, em princípio de comentário: "No início era o verbo. Mas o narrador nunca soube conjugá-los bem..." ?
Precipitei-me para o computador.
- Mais non, mon ami, mais non! Não precisa de procurar o comentário! O que citei já lhe basta: "No início (Poirot acentuou estas palavras) era o verbo...". Em seguida levantou-se, compôs o fato, ajeitou a gravata, vestiu meticulosamente o sobretudo, sacudiu um imaginário grão de poeira da lapela, despediu-se e saíu, sem dizer mais do que um irónico “Au revoir, mon ami!”.


E agora? Que me dizeis, mes amis? Vamos descobrir o culpado de uma vez por todas? Pelo sim, pelo não, aqui vos sirvo uma deliciosa tisana... e, seguindo o método de Poirot, convido -vos a considerar com atenção a personalidade dos suspeitos e a observar cuidadosamente a inscrição!







CONTIUAÇÃO

7 de fev. de 2009

Ainda o destino?

Sou uma pessoa pacífica e tolerante, e ai de quem diga o contrário!

Mas tudo tem os seus limites, e o que agora vos conto ultrapassa-os a todos, mas de largo.
Tenho que desabafar já: O Prémio, o meu tão precioso e justo prémio, desapareceu!
Parece-me óbvio que foi roubado: Nenhuma outra explicação se enquadra na única e singular pista que encontrei, ali ao lado direito, no lugar do galardão, da dedicatória e dos arautos com as suas trombetas, misteriosamente subtraídos à minha e, digamos, também à vossa contemplação.

Apesar de ter ficado em estado de choque, ainda tive discernimento suficiente para eliminar imediatamente as linhas provocatórias e insultuosas que o perpetrador (ou perpetradora?) ousou deixar no lugar do que maldosamente escamoteou. Ah, mas isto não fica assim!



Li, reli e voltei a reler este lamentável simulacro de texto, gravado em pedra marmoreada na fútil intenção de o tornar perene. Arranquei-o de um fôlego, com as últimas forças que me restavam antes que a verdadeira dimensão do acontecimento se abatesse sobre mim.

Mais calmo, considerei-o atentamente, reflecti, indaguei, investiguei, imaginei, desesperei. Nada!
A pista é críptica. E, no entanto, algo me diz que quem cometeu o crime deixou na pedra a sua marca. Talvez sem se aperceber, ou porventura com cínica intenção (quem o saberá?), mas sinto que a deixou, e que essa "assinatura" levará inevitavelmente à sua identificação e castigo.

Peço a vossa ajuda. A insanidade apodera-se da minha mente, não vejo senão letras dançando e rindo-se dos meus olhos cansados. Alguém aqui poderá ajudar-me a descobrir QUEM FOI o autor ou autora da façanha?

A vossa colaboração será, também o sinto, fundamental! Por favor, leiam, investiguem, aventem hipóteses, AJUDEM-ME!!! A caixa de comentários deste post é toda vossa. Eu... eu fico à espera de que alguém faça LUZ.

CONTINUAÇÃO

31 de jan. de 2009

O destino prega-nos cada partida!

É verdade. Quem leu os últimos comentários ao post anterior apercebeu-se certamente de que este blog foi rotulado de fraquinho, apontando-se como prova desse epíteto o facto de não exibir no lado direito um único prémio, acompanhado do competente estandarte.

Pois bem: coincidência ou justiça divina (provavelmente esta última, atendendo ao patrocinador...), eis que, do nada, me surge um prémio nunca visto na blogosfera. Um prémio, imagine-se, intergaláctico! A bem dizer, o prémio dos prémios, ou simplesmente O Prémio!

As regras estabelecidas são severas: nem passagens de galardão, nem agradecimentos. Porém, nada nelas estabelece que sou obrigado a aceitá-lo. Assim sendo, aqui declaro expressamente que, embora agradecendo a intenção e a honraria (que não o prémio!), não posso aceitar a distinção. De facto, a minha natural modéstia e o meu sentido de autocrítica obrigam-me a suspeitar de que devem existir, algures por aí, nalguma galáxia distante, um ou dois blogs melhores do que este.

Esclareço que apenas exponho o estandarte ali no lado direito por óbvio receio da ameaça de invasão bicadeira do temível exército de caturras. E quem não conhecer o Rufus que o compre, que eu já o topei muito bem!

E mais não digo. Tolhe-me as palavras a emoção. É para momentos destes que vivemos, são estes instantes de suprema felicidade que nos resgatam da humilhante prisão do dia-a-dia cinzento e inconsequente. Que quem tudo isto me proporcionou veja a distinção multiplicada e, se tiver blog, a ele atribuída... ah, mas não pode ser, é um prémio exclusivo. Paciência...!

CONTINUAÇÃO

1 de dez. de 2008

O muro

Depois de jantar saía e sentava-se no muro que lhe limitava a casa, perto de uma tangerineira e de uma figueira de figos brancos. Certas noites havia culto na Igreja do Nazareno, mesmo em frente, e as orações e os hinos serviam-lhe de som de fundo. Quando a igreja estava fechada, a noite era mais escura e viam-se melhor as estrelas, para as quais olhava invariavelmente, por hábito e prazer, lembrando as explicações do pai acerca de constelações, distâncias, nomes de astros, procurando e encontrando os que lhe eram mais familiares, descobrindo por vezes, com algum espanto, os mais difíceis de localizar.

Na varanda do rés-do-chão do prédio que ficava mesmo à esquerda da sua casa, uma rapariga fazia-lhe silenciosamente companhia, durante horas a fio.


O que o movia, no entanto, era o transistor que ligava mal se sentava no muro, sintonizando-o na Estação B, que repetia as músicas do Hit Parade da semana, constituído por vinte canções que passavam na rádio ao domingo à noite, da vigésima até à primeira, para manter o suspense. Sabia os nomes e a ordem das canções no Hit Parade, de trás para a frente e vice-versa. Perguntavam-lhe às vezes que música tinha ficado em quinto lugar, ou em décimo primeiro, e acertava sempre na resposta.

O pensamento e a imaginação soltavam-se-lhe com frequência da música e corriam, voavam por entre estrelas, sons de pequenos animais, hinos e canções. Terá sido daí que lhe veio o fluir acelerado das ideias em noites de insónia, em que já não sabia se era o pensamento que o mantinha desperto, se a falta de sono que o obrigava a percorrer velozmente as rectas, curvas e contracurvas que lhe brotavam do cérebro. Perceberia mais tarde que cada um dos factores influenciava o outro. Tal conhecimento, porém, nunca viria a libertá-lo da insónia. Felizmente?

27 de mar. de 2008

A Mancha Azul (outra versão)



A mancha azul



Altamiro olhou-se ao espelho, confirmou o penteado e ajeitou o nó da gravata de seda cinza. Gostou do resto que viu: o fato escuro de bom corte, a camisa de alvura imaculada. Estava já a voltar-se quando reparou que algo não batia certo. Passeou o olhar pelo espelho, e por fim descobriu: uma pequeníssima mancha azul no limite direito do espelho, situada exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro desviou o olhar para a camisa e observou-a com atenção. Não viu mancha nenhuma. Considerou de novo o espelho, afastando-se ligeiramente para a direita. A mancha continuava no mesmo sítio, mas parecia-lhe agora um minúsculo sorrizo azul. Disfarçado de mancha. Já um tanto irritado, recuou três passos e fitou o espelho. O sorriso lá estava. Girou cento e oitenta graus sobre o pé direito, fez uma pausa de três segundos e completou o círculo. Quando levantou os olhos, lá estava a mancha. No mesmo ponto rigoroso.

Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.

Altamiro levantou-se e saíu. A paragem ficava quase em frente. Atravessou a rua mesmo a tempo de apanhar o quarenta e seis e sentou-se no primeiro lugar vago que se lhe deparou. Notou ao lado a presença de um companheiro de viagem habitual, com quem nunca falara. Provavelmente, era também uma pessoa reservada. Deixando-se embalar pelo movimento sincopado do autocarro, Altamiro recostou-se no assento e suspirou. Fechou os olhos e concentrou-se na escuridão, preparado para o trajecto até à baixa. Não excessivamente longo, aliás.

No escritório, o dia correu normalmente. Já perto da hora de saída, foi lavar as mãos e dar a penteadela do costume. E tudo voltou. No limite direito do espelho. Ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro considerava a possibilidade de verificar a camisa quando viu entrar o Bráulio, da Contabilidade. Arriscou uma olhadela furtiva à camisa do colega, através do espelho. Era azul, a camisa. Altamiro desesperou. Ficou a olhar para dentro, e quando o outro já saía, ainda arriscou:

- Ó Bráulio...
- Sim?
Altamiro hesitou.
- Nada, não é nada. Deixa estar...

O colega desapareceu pela porta, com um sorriso que lhe pareceu de piedade. Ou talvez escarninho. Altamiro respirou fundo, esperou cinco segundos e seguiu-o, passou pela secretária, confirmando que deixara tudo em ordem para o dia seguinte, e correu pelas escadas abaixo, evitando o espelho do elevador. Lá fora chovia a cântaros, e foi um Altamiro bastante molhado que entrou no 46, agora em sentido inverso, rumo ao conforto da casa.

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Acordou no sofá da sala, banhado em suor e com a cabeça latejante de dor. O que primeiro viu foram os sapatos. Pretos, evidentemente. O olhar de Altamiro subiu lentamente pelas calças, pelo casaco, pela camisa branca... e foi aí que a mancha azul lhe veio à memória ainda enublada. Algo incomodado, demorou o olhar na camisa, mas da mancha nem sinal. Nada de que se admirar. Nunca estivera na camisa, recordou.

A dor de cabeça clamava insistentemente por café e aspirinas. Com alguma dificuldade, Altamiro levantou-se e quase cambaleou até à cozinha. A preparação do café era uma espécie de ritual feito de gestos maquinais, por isso não teve qualquer dificuldade em colocar a água na parte inferior da velha cafeteira italiana, depositar o pó de café no filtro na medida exacta, enroscar a cafeteira e colocá-la ao lume. Minutos depois, saboreava um café forte e generosamente açucarado, e o dia começava a desanuviar-se-lhe no cérebro. No pequeno visor iluminado do rádio-relógio colocado sobre o frigorífico leu distintamente MAY 26 SUN 17:28. Era, então, domingo?

Desenrolou-se-lhe naturalmente, como se fosse um filme a preto e branco, a memória da noite anterior, e Altamiro percebeu que dormira umas boas doze horas. E que sonhara. Começou então quase inconscientemente a separar o sonho da realidade, como quem separa as claras das gemas: Não os preparativos para o trabalho, mas o aprontar-se para uma saída nocturna; não o quarenta e seis para o escritório, mas o táxi para o restaurante; não a jornada de trabalho, mas a noitada nos bares; não o Bráulio da Contabilidade, mas os amigos dos copos; não o autocarro de regresso a casa, mas o carro de alguém que o trouxera e o deitara no sofá, presumivelmente por ter bebido demais. O Ezequiel, era isso, fora o Ezequiel que o trouxera a casa. Por isso adormecera no sofá, de fato e gravata e tudo. Altamiro apenas se permitia aquelas farras aos sábados à noite, o que lhe confirmou que, de facto, era domingo. Recordou depois a manhã do dia anterior, passada a dormir, a tarde a ver futebol na televisão... Precisamente! Nada de mancha azul, apenas um sonho, um estúpido pesadelo! Qual mancha azul sorridente, qual história! Por falar em história, até que era uma bem interessante para contar aos amigos no sábado seguinte.

Bebeu um longo gole de café, aliviou o nó da gravata e considerou que, realmente, dormira demais. Coisas da ressaca. Altamiro sorriu, mas a dor de cabeça continuava a pedir-lhe aspirina. Com a caneca na mão e um sorriso nos lábios, dirigiu-se à casa de banho. O sorriso foi-se-lhe abrindo cada vez mais, enquanto estendia a mão para a porta do armário onde guardava medicamentos, artigos de higiene e miudezas diversas.

Estranhamente, no rosto que a porta espelhada lhe devolveu não havia sorriso algum. Altamiro estremeceu, e o olhar desceu-lhe, lenta mas inexoravelmente, pela superfície do espelho, até encontrar uma pequeníssima mancha azul, no seu limite direito, exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca.

A mão esquerda de Altamiro continuou a segurar a caneca de café, mas o punho direito saíu-lhe disparado, como se tivesse vontade própria, em direcção ao espelho, perfurando-o e fazendo saltar estilhaços e gotas de sangue em todas as direcções. Só parou quando encontrou o fundo do armário, onde se quedou prisioneiro da fúria e de cacos brilhantes. Enraivecido, Altamiro nem sentiu a dor. Os olhos procuraram-lhe instintivamente um certo fragmento do espelho. Estava intacto, e revelava-lhe agora uma série de manchas vermelhas, que começavam a escorrer pela alvura da camisa. No meio delas, exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa que fora branca, a mancha azul permanecia, incólume e sorridente.

- Boa tarde, Altamiro! – disse a mancha azul.

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Leontino abriu os olhos, desligou o televisor com um gesto de enfado, acendeu um cigarro e estendeu a mão direita para o copo de uísque convenientemente colocado na mesinha de apoio ao sofá. Verificou que ainda tinha gelo suficiente. Essa agora! Um filme sobre um idiota com o estranho nome de Altamiro, que até metia manchas azuis que sorriam e falavam!? Ou ter-se-ia deixado vencer momentaneamente pelo sono, e sonhara tudo aquilo? Ou teria sonhado o filme? Fosse como fosse, não iria perder mais tempo com disparates! Sacudiu as dúvidas e a cinza do cigarro com o mesmo gesto decidido, bebeu um bom gole e encetou a agradável tarefa de escolher o restaurante onde jantaria nessa noite. Enquanto pesava prós e contras, no gostoso exercício de antecipar iguarias e vinhos de boas colheitas, ergueu o copo contra a lâmpada do candeeiro, deliciando-se, como sempre, com o pequeno e cintilante espectáculo dos cubos de gelo no meio do líquido dourado, num contra-luz esbatido pelo fumo do cigarro, que nunca se cansava de admirar. Pareceu-lhe notar, no meio de um dos cubos de gelo, um reflexo azulado. Sem pensar duas vezes, Leontino engoliu de um trago o resto da bebida, apagou o cigarro, levantou-se e caminhou apressadamente em direcção à casa de banho, a fim de dar os últimos retoques ao visual.