Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

10 de mai de 2009

Uma pequena homenagem a um grande homem... a um homem bom.




Retirado do Público de 4/05/09:

"Foi o primeiro a usar o termo "banda desenhada"
Vasco Granja morreu esta madrugada em Cascais
04.05.2009 - 16h04 Carlos Pessoa
Vasco Granja, divulgador de banda desenhada e do cinema de animação em Portugal, morreu esta madrugada em Cascais. Tinha 83 anos.

Autodidacta e com múltiplos interesses culturais ao longo da sua vida, Vasco Granja nasceu em Campo de Ourique (Lisboa) a 10 de Julho de 1925. Começou a trabalhar, ainda muito novo, nos antigos Grandes Armazéns do Chiado, e depois ao balcão da Tabacaria Travassos, na baixa lisboeta, que consideraria, anos mais tarde, a sua universidade. O seu interesse pelo cinema surge na adolescência e aos 16 anos chegaria a ser admitido como segundo assistente de fotografia no filme “A Noiva do Brasli”, de Santos Neves.

No início da década de 50 envolve-se no movimento cineclubista, tendo desempenhado funções directivas no Cine-Clube Imagem. Granja foi preso pela primeira vez pela polícia política do Estado Novo em Novembro de 1954, quando militava clandestinamente no PCP. Esteve preso sem julgamento seis meses e quando foi libertado voltou às suas actividades cineclubísticas e à divulgação cultural na imprensa. Datam de 1958 os seus primeiros artigos sobre o cinema de animação, nomeadamente na sequência da descoberta dos filmes experimentais do canadiano Norman McLaren.

No início da década de 60 arranja trabalho na Livraria Bertrand, onde se manteve até à reforma.
É preso de novo em 1963, julgado e condenado a 18 meses de prisão. Quando foi libertado, em 1965, Vasco Granja retoma a sua actividade cultural, com artigos nos “media” sobre cinema e literatura.
O seu nome é habitualmente associado à divulgação da banda desenhada em Portugal. O termo “banda desenhada” é, aliás, utilizado pela primeira vez por Granja num artigo publicado pelo “Diário Popular” em 19 de Novembro de 1966.

Integra a equipa fundadora da revista francesa de crítica e ensaio de banda desenhada “Phénix”, nos anos 60 e participa regularmente no Salone Internazionale dei Comics, em Lucca (Itália), o mais importante encontro do género nos anos 70.

Em Portugal, a sua actividade de divulgação da banda desenhada intensifica-se a partir do aparecimento da edição portuguesa da revista “Tintin”, em Junho de 1968, onde escrevia e traduzia artigo, além de ter a responsabilidade da secção de cartas aos leitores. Foi director da segunda série da revista “Spirou” (edição portuguesa) e coordenador da edição de banda desenhada da Bertrand. Animou o “Quadrinhos”, um dos primeiros fanzines surgidos em Portugal, em 1972. Esteve ligado à fundação da primeira livraria especializada de BD em Lisboa, O Mundo da Banda Desenhada, em 1978.

Em 1974 e 1975 integra o júri do Salão Internacional de BD de Angoulême. Depois de 25 de Abril de 1974, Vasco Granja mantém um programa regular sobre cinema de animação na RTP, que teve mais de 1000 emissões e divulgou sistematicamente as grandes escolas internacionais do género. Estava reformado desde 1990.
"



22 comentários:

bettips disse...

Uma companhia diferente, modesta e grande. Que segui, e o meu filhito também quando poucas eram as alternativas de lucidez e conhecimento.
Bjinhos

Teresa Durães disse...

lembro-me perfeitamente do Vasco Granja. Via sempre os seus programas quando era miuda: não falhava um. Os desenhos animados de leste e outros tantos.

Lizzie disse...

Também me lembro, mas só a preto e branco. Depois perdi-lhe o rasto.

Lembro-me de ficar a ver os "bonecos" diferentes dos habituais. Lembro-me das diabruras estilizadas de umas linhas. De formas no espaço que falavam. E de ficar encantada com a imaginação do movimento e com as situações a ele ligadas.
Na minha cabeça, tudo aquilo, tinha que ver com os meus mundos.

Também me lembro que não gostava...da voz. Parecia-me uma voz entupida, esforçada.
Mas, quando li que tinha morrido, foi a primeira a aparecer-me na memória.Mais que a imagem.

Talvez porque o via, e ouvia, às vezes, numa papelaria pequena muito cheia de tudo até ao tecto.

Não tinha o ar de "senhor da televisão" que outros tinham. Usava outra roupa. Tinha melhores modos.Não olhava para as pessoas para elas terem o privilégio de o ver ao vivo.

A papelaria também já não existe.


Grande abraço, boa semana e ainda bem que voltaste.

Justine disse...

Um homem que faz parte da nossa memória colectiva, que uniu pais e filhos à volta da arte da Banda Desenhada. Um homem bom, sem dúvida!

wind disse...

Merecida homenagem a este grande senhor!
Lembro-me perfeitamente dele e da sua despedida, o célebre "Koniac".
Gostava muito da Banda Desenhada que ele apresentava, recaindo a minha preferência na Pantera:)
Beijos

wind disse...

Não é "Koniac", é "Koniec":)
Beijos

Arabica disse...

Homenagem sentida.

Anos e anos a dar-nos prazer, a abrir-nos as portas da imaginação, com novas técnicas, trazidas de outras latitudes.

Também me lembro dos traços e circulos animados. :)

E das músicas tão diferentes da walt disney. Era um mundo animado tão diferente!


Felizmente tivemo-lo no nosso tempo!

Um abraço

Mocho Falante disse...

Este SENHOR fez parte da minha herança que trouxe da infância

Bem lembrado

um abraço para ti e para o Vasco onde quer que ele esteja :-)

Alien8 disse...

Obrigado por se terem associado a esta pequena homenagem ao Vasco Granja e por terem contado as vossas experiências. Não há dúvida, este homem esteve ligado a gerações de pais, filhos e netos. Fez, em condições muito difíceis, um trabalho exemplar no campo da banda desenhada e da animação, trouxe e divulgou coisas novas, quase sempre de grande qualidade. É uma daquelas figuras que, só por si, justificam a Televisão - como Vitorino Nemésio ou João Villaret...

Um abraço a todas(os).

prof disse...

Alien, não sei falar de Vasco Granja. Por isso, fico contente por outros o terem feito. E não sei falar dele porque, na minha memória, há uma amálgama de contradições, no que respeita a este certamente bom homem. A voz irritava-me; o sorriso enternecia-me. A estranheza de alguns filmes inquietava-me e atraía-me...
Enfim... solidarizo-me na homenagem.

tolilo disse...

junto-me a ti , na homenagem, porque gosto tanto de banda desenhada.

a minha tia Ligia ficou mt comovida.

bjn tio Alien

Lola disse...

Alien,

Bela homenagem.
Tive o prazer de o conhecer.
Foi sem dúvida um homem bom, e que fez a diferença para a maior parte das crianças que nós fomos.

Beijos

Alien8 disse...

Prof e Lola, a minha resposta anterior também é para vós. E para o Tolilo, a quem desejo as boas-vindas ao blog, e a quem digo que não sei quem é a Tia Lígia, mas não me surpreende que algumas pessoas se comovam. Ah, e também gosto muito de banda desenhada!

Arabica disse...

Já tinha saudades de aqui vir, Alien!

Votos de um bom fim de semana para vós.
Um xi coração para a Lola e um beijo para ti.

Alien8 disse...

Obrigado! O mesmo para ti, Arabica :)

Alien David Sousa disse...

Também lhe prestei a minha homenagem mano. Era um senhor. E como mencionei tive a sorte de o conhecer quando ainda era um alien pequenino. Sempre muito simpátio...um verdadeiro senhor.
A RTP passou uma entrevista com ele, não sei se viste?
Enfim,beijinhos alienígenas e fico contente por ver que muitos blogers lhe prestaram uma homenagem, ere merece.

mar disse...

Uma bela homenagem a um grande homem.

lembro-me de ver os desenhos animados que fazia passar na RTP, e ainda sou capaz de ouvir a sua inconfundível voz.....


Um resto de um bom domingo :)

Arabica disse...

Alien,


mais um "cadinho" e acaba-se o fim de semana...deixo-te um abraço.

Rosalina Simão Nunes disse...

Subscrevo a homenagem. :)

legivel disse...

... tornou menos agrestes os tempos de um país a preto e branco e conquistou muitas crianças e adultos para a banda desenhada. Homenagem mais que merecida.


Abraço.

MariaTuché disse...

Que bonita homenagem a este grande homem, tão esquecido pela "nossa" televisão nos últimos anos.

Passei para deixar aquele abarço virtual :)

Beijosssssssssssss

Alien8 disse...

Alien DS, Mar, Arabica, Rosalina, Legível, Mariatuché,


Obrigado, um abraço para todos!

Mana, já vou ver a tua homenagem. E vi a entrevista, sim!