Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

30 de abr de 2006

Se houvesse degraus na terra



















Imagem daqui

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

(Herberto Hélder)



17 comentários:

wind disse...

Adoro Herberto Helder e este é um dos seus poemas mais bonitos:)
Beijos

cilal disse...

:)
que bom e que bela imagem escolheste.
Eu tb prefiro coisas de paz...
beijos

Alien8 disse...

Cila,
Obrigado.
Boa noite, um beijo.

oalcoviteiro disse...

herberto, sim, muito...e quase que jurava que já tinha subido aqueles degraus.

maloud disse...

Mas a Terra está cheia de degraus. Basta subir e ficar mais próximo dos aneis do céu ou, quem sabe?, alcançá-los. O céu é o limite.

Alien8 disse...

oalcoviteiro,
E...?
Abraço.

Alien8 disse...

Maloud,
Subir cansa. Quanto mais se sobe, mais cansa. E os danados dos anéis nunca mais se vislumbram. Mas continuemos a subir, apesar de tudo. É muito possível que vamos ter a algum lado...

maloud disse...

Alien
Como eu gostava de subir os montes da quinta do Douro, sempre entre vinhas, petiscando um bago aqui, outro mais acima! Detestava, no fim, ter que descer.

Alien8 disse...

Maloud,
Bom, nesse caso sempre havia um incentivo para a subida...

Lola disse...

Maloud,
Venho falar contigo aqui (o Alien deixa)

Nós não nos teremos encontrado ,algures por aí ,na infância ?
Eu costumava descer os socalcos da quinta dos Rabaça,até ao rio Douro, onde ficávamos a pescar uns peixitos pequenos, os espanhóis, depois subíamos ,a petiscar uvas...
Não me lembro do cansaço...
Lembro sim das vindimas...

Mais tarde, em Tábua, perto da Régua...

Beijos

Lola

maloud disse...

Lola
Eu vivia no Porto. Só lá ia em Setembro. Esta era, vendêmo-la este ano, em Galafura, a Quinta da Água. De resto, desde que o meu pai morreu há 23 anos, nunca mais praticamente lá fui. Ele era a alma daquilo.
Também ia para a quinta dos meus avós maternos {também foi vendida este ano} em Sta.Marta de Penaguião, os Fieis de Deus, quando me passava e deixava completamente de comer. Mudava de ares, como se dizia.
Tábua, perto da Régua não conheço. Onde fica exactamente?

Beijocas

Lola disse...

Maloud
Eu não sei dizer exactamente onde fica, era o caminho para a quinta que eu visitava em Sanhoane, suponho que se escreve assim, pelo menos é como se pronuncia...
Esta fica no Douro,mas não tão próxima do rio como a da Rabaça...
Beijos
Lola

maloud disse...

Lola
Se não estou em erro, Sanhoane não é muito longe de Sta. Marta. Eu fui lá às vezes com a minha avó à cata de criadas, como de dizia na altura, para a minha mãe. Mas a esta distância tenho dificuldade em localizar exactamente.
Eu agora, quando vou para o Douro, ou vou para o Vintage ou para turismos de habitação. Continuo a ter lá família, mas vive toda em Vila Real. E para mim, Vila Real não é o Douro.
Mas a Lola chegou a viver lá? Há quantos anos?

Beijinhos

Lola disse...

Maloud
Nunca lá vivi.
Passava férias no Douro,habitualmente em Setembro.
Em Sanhoane estive na quinta de um Amigo,a família dele produzia vinho do Porto.
Tenho excelentes recordações desse tempo.

Já lá não vou há anos.
Beijos
Lola

maloud disse...

Lola
Mas vá. O Douro continua lindíssimo e sempre à nossa espera. E tem turismos de habitação, para quem já lá não tem nada, bem agradáveis. Eu em Julho vou sempre lá. Faz-me bem à alma.

Beijocas

Teresa Durães disse...

Gosto da fotografia, lembra-me o Minho (onde passava férias).

Não gosto de Herberto Hélder. É um chato.

Alien8 disse...

A foto é de algures na América do Sul. Mas o Minho tem de tudo, realmente.