Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

7 de mar de 2008

A mancha azul a várias mãos

Um dos desafios a que respondi foi transformado pela LOLA noutro desafio: a continuação do texto de que publiquei apenas uma pequena parte já escrita (ver dois posts abaixo, "Desafios").
Eis o resultado das respostas ao desafio, sendo que o texto pode considerar-se concluído, mas pode igualmente considerar-se aberto a novas continuações. Quem colaborou teve esse mérito.


A mancha azul

Altamiro olhou-se ao espelho, confirmou o penteado e ajeitou o nó da gravata de seda cinza. Gostou do resto que viu: o fato escuro de bom corte, a camisa de alvura imaculada. Estava já a voltar-se quando reparou que algo não batia certo. Passeou o olhar pelo espelho, e por fim descobriu: uma pequeníssima mancha azul no limite direito do espelho, situada exactamente ao nível do quarto botão, a contar de cima, da camisa branca. Altamiro desviou o olhar para a camisa e observou-a com atenção. Não viu mancha nenhuma. Considerou de novo o espelho, afastando-se ligeiramente para a direita. A mancha continuava no mesmo sítio, mas parecia-lhe agora um minúsculo sorriso azul. Disfarçado de mancha. Já um tanto irritado, recuou três passos e fitou o espelho. O sorriso lá estava. Girou cento e oitenta graus sobre o pé direito, fez uma pausa de três segundos e completou o círculo. Quando levantou os olhos, lá estava a mancha. No mesmo ponto rigoroso.

Iam sendo horas. Altamiro colocou a carteira e as chaves nos bolsos do costume e saíu. Desceu os dois lanços de escadas que o separavam da rua e percorreu distraído os cento e vinte metros até ao café. Como sempre, sentou-se ao balcão e pediu uma bica cheia. Enquanto a beberricava, arriscou uma olhadela furtiva ao espelho atrás do balcão. A mancha lá continuava. Azul. Voltou a fixar-se na camisa. Branca. Só branca. Pediu um copo de água e, quando o empregado o trouxe, perguntou-lhe se lhe notava algo estranho na camisa. Que não, respondeu o Lázaro.

Altamiro levantou-se e saíu. A paragem ficava quase em frente. Atravessou a rua mesmo a tempo de apanhar o quarenta e seis e sentou-se no primeiro lugar vago que se lhe deparou. Notou ao lado a presença de um companheiro de viagem habitual, com quem nunca falara. Provavelmente, era também uma pessoa reservada. Deixando-se embalar pelo movimento sincopado do autocarro, Altamiro recostou-se no assento e suspirou. Fechou os olhos e concentrou-se na escuridão, preparado para o trajecto até à baixa. Não excessivamente longo, aliás.

(A continuação da Lola)

Caminhou na sua marcha regular, de passos rítmicos, na postura elegante do costume.
Olhou para a montra, à sua esquerda, mas não viu os modelos que se alinhavam nas poses estranhas, habituais. Ficou petrificado a olhar para a mancha azul a sorrir-lhe descarada. Experimentou deslocar-se, mas a mancha, teimosa, movia-se com ele. Perturbado, acelerou o passo, a afastar-se o mais possível da imagem provocadora.
Entrou no Banco 3 minutos depois das 08.00h e enfrentou o olhar surpreendido dos colegas: Era sempre o primeiro a chegar. Dirigiu-se, cabisbaixo, à secretária e ligou o computador: Já temia encontar a mancha azul à sua espera e ela não o desiludiu.
Procurou a caneta Mont Blanc modelo Greta Garbo de que tanto gostava, e finalmente descobriu: a imagem sorridente, azulada, era o reflexo da pérola na ponta do clip que segura a caneta, que, inadvertidamente, guardara no lugar do lenço...

(A continuação da Nnannarella)

Inesperada, porém, fora a forma como reagira à descoberta: ter deslindado a estranha ocorrência deixara-o como que prostrado numa indefinível e desconfortável sensação de vazio. Afinal, a alegada mancha azul modificara-lhe a manhã; mas, afinal, não era nada de extraordinário que lhe mudasse realmente a ordinária e ordenada vida : não passava de um reflexo.
A colega de turno, ao lado, reparara na sua apatia. Ouviu-a perguntar se se sentia bem. Manteve-se calado, sem o menor estremecimento, adivinhando-lhe os lábios e as unhas cor de sangue de boi, os brilhozinhos e as maçãs do rosto salientes pela magia das sombras duplas. Mais reflexos.
Àquela hora, projectava-se sobre a gigantesca vidraça o halo luminoso de um sol a crescer. Percurso breve, pois que os prédios em frente cedo cerceariam o reflexo da estrela.
Apercebeu-se do burburinho em volta, cochichos, olhares de soslaio, clientes que se dirigiam à saída olhando constrangidos para trás, para ele, estático, dorso aprumado, olhos fixos na glacial solidão de um ecrã onde dali a pouco se reflectiriam as gigantescas memórias de um computador.

(A continuação da Vanda)

Por fim, tentando aparentar o seu ar eficiente e pró-activo de todos os dias, carregou com o indicador direito no velho e já desgastado botão do computador e alisando a gravata, sentou-se...
... Digitou a password e enquanto distraído, olhava para o programa informático onde lançava os cheques sem provisão, repentinamente percebeu que enquanto acreditou estar a ser alvo de uma mancha azul, a vida lhe tinha parecido bem mais surpreendente e vibrante!
Agora que o mistério tinha sido desmitificado...o dia parecia-lhe mais pobre...
Até o sol já cerceado pelos prédios, o tinha abandonado...
Suspirou, introduziu mais um código e pensou: dê lá por onde der, preciso de um novo azul na minha vida...
Na véspera, já tarde, tinha estado num chat e alguém usava o nick "azul infinito"... sorriu.


Muito obrigado por terem aceite o desafio que, repito, continua em vigor...


20 comentários:

wind disse...

Gostei de ler as 3 continuações:) beijos

Alien David Sousa disse...

Maninho, antes de mais deixa-me dar os parabéns à Lola, à Nnannarella e à Vanda. Conseguiram dar seguimento à tua história sem a arruinarem. Não estou a brincar, é complicado pegar no conceito de outrem, na sua/as personagens e lhes dar seguimento sem que o leitor sinta que existiu ali uma mudança de mãos e que algo não bater certo. Elas conseguiram sem dúvida cada uma com o seu estilo, dar seguimento à história e fazer justiça ao que tinhas iniciado. Adorei.

Quanto a ti, fiquei curiosa. Que seguimento terias TU dado? Gostei muito da tua escrita e acho que de vez em quando nos devias de presentear com uns contos. Que tal?
A African Queen tem contos fantásticos no blog dela e eu sou daquelas aliens que acredita que há mesmo espaço para tudo na blogosfera.
Eu iria adorar ler os teus, pela amostra que nos deste ;)

Um grande beijinho alienígena

Vanda disse...

Pois, pois :)


Onde está a tua - a verdadeira- continuação????

Ou o teu final?

É essa a parte mais importante, é por ela que andamos aqui a gastar a nossa "preciosíssima" tinta azul :)

Vá, menino, queremos o final feliz do Altamiro, aqui passado a post, pelo teu punho :)

beijinhos, bom fim de semana

PintoRibeiro disse...

Era meu, o apagado. Assinatura de um que não é só meu.
Pois, sono.
Mas repito: curioso encadeamento.
Abraço K'mrd.

Gi disse...

Gostei (das 3) tivesse eu tempo e também continuava. Quem sabe um dia destes não lhe pego .

Bom fim-de-semana
(justifiquei mais abaixo o porquê de não ter respondido ao "se eu fosse")

Alien8 disse...

Wind,

Eu também gostei :)

Beijos.

Alien8 disse...

AlienDS,

Sim, é complicado, e tem muito mérito o que elas fizeram. E a história continua aberta, para quem quiser.

Quanto à minha continuação, está quase totalmente escrita, e hei-de publicá-la também.

Obrigado por gostares do que escrevo e pelo teu incentivo. Se clicares na etiqueta "prosa", podes encontrar vários textos meus, alguns dos quais talvez já tenhas lido, outros provavelmente não. O mesmo se clicares em qualquer "label" "poemas meus", mas aí serão textos em verso :))

Beijinhos alienígenas.

Alien8 disse...

Vanda,

A minha continuação não é a "verdadeira", é apenas uma das possíveis - e deixa-me dizer que gostei imenso da vossa, por isso a minha vai tardar um bocado a aparecer, até porque a história que deixaram ainda está aberta.

Ah, quanto ao final feliz... não sei, não... :)

Um beijo.

Alien8 disse...

Pinto Ribeiro,

Curioso e interessante, digo eu.
Bom resto de fim de semana e um abraço aos dois.

Alien8 disse...

Gi,

Pega-lhe!!! Gostava de ver!

E, como disse acima, também gostei das continuações.

Já li e respondi (a)o outro comentário.

Boa noite de sábado e bom domingo.
Beijinhos.

Lola disse...

Alien,

Obrigada pela rosa azul, que nos ofereceste hoje.
Tinha de ser azul, vinda de um ET:)))
É linda.

Beijos

Alien8 disse...

Lola,

Pois é. Eu sei. Fui eu que a escolhi :)))
Os ETs têm jeito...?
Ainda bem que gostaste.

Beijinhos.

Vanda disse...

Ora vinha eu em busca de uma "mancha azul" e encontro uma ROSA AZUL :)


Gracias pelo cadinho de pétala que me coube em sorte -unhas de fome!!!:) Apenas uma para nós todas ;)

O perfume completamente inebriante !


:)

Bom domingo!

Alien8 disse...

Vanda,

É uma rosa mágica. Não reparaste que ainda lá ficou depois de a vires buscar? :P

Boa semana.
Beijos.

Vanda disse...

Bom dia!


Lembro, sim :)


E tu, com essa tua memória, fizeste-me pensar, que... se a capacidade de amar é um grande novelo de lã virgem nas nossas mãos, temos que usar de muita arte para dele fazermos, uma obra de arte...

Aqui, na terra das alfarrobas, está sol e calor, as torradas saboreiam-se, o aroma do café inunda a sala...

E a mancha? A nossa mancha ???

Onde pára ela ? :)

Teresa Durães disse...

passo o desafio mas deixo um beijo

Alien8 disse...

Vanda,

Tinhas que te lembrar :))
Parece que se está bem por aí!
Quanto à obra de arte, cem por cento de acordo.

A mancha pára por aqui, no computador, à espera dos últimos retoques :)

Beijos.

Alien8 disse...

Teresa,

Compreendo, com as obras e tudo, não dá para aceitar desafios hehehehehe!!

Um beijo para ti.

nnannarella disse...

E quem diria que aquele "ecrã glacial" iria estar também à minha espera, ainda que noutro contexto ?!
Avarias, meu caro, desculpa.

Agradeço por minha parte a quem louvou o "trio magnífico", mas és tu o Maestro...:)

Está mesmo giro. Bota mais um andamento...:)

vaso!

Alien8 disse...

Nnannarella,

Andas avariada? :)))

Não tens de que pedir desculpa, mas acho que precisas de um megafone maior, porque aqui não apareceu praticamente ninguém hehehe! Mas obrigado pelo teu apelo!

Olha, eu tenho uma história diferente, quase acabada, faltam só uns retoques, mas, por enquanto, vou fazer render esta, sem lhe tocar. Foi assim que descalcei a bota.... :)

Maestro? Nah, só dou uns toques na guitarra :)

Vasi!