Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

14 de dez de 2008


PARABÉNS, LOLA!!!


Para ti, hoje, um documento histórico :)
Que o teu dia de aniversário seja ainda mais feliz!
Com um beijo. aqui te reofereço a Song for the Asking e a


TRAVESSIA

Éramos a força de nos darmos as mãos. De nos olharmos bem nos olhos, com a firmeza invulgar dos primitivos anjos, dos heróis lendários (que são, afinal, os únicos heróis) ou dos velhos, dos muito velhos amigos.

Dizer quantos, ou quem éramos, seria desnecessário, absurdo mesmo. Deixemos apenas entrever que, juntos, iniciámos de certo modo uma viagem, que a imaginámos, que lentamente a fomos construindo e que, sem nos darmos talvez conta disso, começámos a vivê-la quando apenas pensávamos sonhá-la. Como se a força do sonho dentro de nós tivesse posto em inexorável marcha os motores da realidade para, sobre o nosso ainda inocente espanto, o real se transformar em companheiro e mentor dos nossos sonhos.


Não olharemos nunca - nunca! - os nossos dezoito anos com desprezo, com a sobranceira suficiência de quem já ultrapassou, à força de duros golpes ou simplesmente da soma dos dias, os gritos espontâneos, a impulsiva generosidade, as noites enfeitadas de poemas, a ingenuidade dos cartazes e das flores roubadas - de preferência - aos jardins aburguesados, a ternura violenta, o ódio às pantufas, as lágrimas fáceis mas sinceras, o amor a quase tudo, mas sobretudo à vida.
Não os olharemos sequer com a condescendência de pessoas formadas e experientes, capazes já da saudade e da ironia. Nem mesmo com o sorriso compreensivo dos velhos marinheiros.



Tínhamos à nossa frente um oceano - e, como estátuas de um cristal indestrutível, esperávamos o embate das vagas na nossa pura transparência, ansiosos da dor e do sal, tão ansiosos que

- Sabes - dizia-me no silêncio da noite uma das tuas tranças - a que ponto é comovente rever o instante sublime em que os nossos corpos de vidro começaram a transmutar-se até que, sendo já carne, pudemos compreender que éramos carne, e ganhámos o movimento e a graça, e velozes corremos em direcção ao oceano, querendo penetrá-lo como se ainda fôssemos cristal, e o sol, ao atingir-nos no ângulo mais favorável, se dispersou em milhões de gotas de água, em milhões de pedras de sal que no espaço prolongaram a transparência quase imaterial dos nossos corpos?


Sei que compreendeste por que não te respondi, a não ser, creio, com um vago sorriso que as sombras não poderiam ter escondido da tua perspicácia: Nenhum de nós ignora a maravilhosa propriedade das lágrimas que, depois da transmutação, se soltam da carne para voltarem, orgulhosas, ao cristal. Nenhum de nós ignora - e, por isso mesmo, porquê tê-lo dito? - que no rasto da tua pergunta atravessaram as sombras da noite, daquela noite, dois corpúsculos brilhantes que, ao encontrarem-se com outros dois, recém-nascidos dos meus olhos, produziram uma singular sonoridade musical, determinando no espaço aberto o exacto ponto de comoção.

(Porto, há uns anitos...)

42 comentários:

prof disse...

Lola, os meus parabéns.
Alien, apenas li o título. Quando comecei a ler o texto fui invadida por uma espécie de pudor - sensibilidades de domingo de outono - e achei que devia parar.
:-)

wind disse...

Parabéns para a Lola, parabéns para a Lola e para o Alien e parabéns para o Alien por escrever esta prosa tão apaixonada:)
Beijos para os dois

Lola disse...

Alien,

Obrigada pelos Parabéns e pela Travessia.

Já passamos o Bojador... e continuamos a rir de olhos brilhantes...à descoberta.

A bela memória de nós no Porto há uns anitos:)))

Beijos grandes

mjf disse...

Olá!
Eu já volto...vou ali depressa dar uma beijoca de parabéns a uma Amiga ;=)
;=)

Beijocas

Arabica disse...

Parabéns, Lola!


E sem te conhecer, emociono-me no teu olhar intemporal, nessa perspicácia tão sublime, caracteristica tua e nunca da idade, nesse ver, ler e visitar para lá da pele...

Emociono-me contigo também, Alien, o homem que desnuda o coração no acto de viver, amar e escrever, entregas esclarecidas e militantes...


E se a vida real pouco me vai ofererecendo de verdadeiramente emotivo, aqui :) sem dúvida :) a minha emoção desagua ampla e feliz!


Bom saber-vos, adivinhar-vos, conhecer-vos :)


Beijos

Teresa Durães disse...

Primeiro, parabéns (atrasados).

Não gostei lá muito dos meus dezoito anos :P

Teresa Durães disse...

Primeiro, parabéns (atrasados).

Não gostei lá muito dos meus dezoito anos :P

Teresa Durães disse...

P.S: linda prosa!

Graça B. disse...

Tantas comoções daquelas difíceis de arrancar debaixo da pele e traduzir para palavras.
Alien, esta tua travessia é uma carta de amor? É uma carta de amor. Das mais lindas que se escreveram sobre a arte de sulcar águas salgadas, lágrimas doces, rotas de ventos e brisas quentes.
A comoção é silenciosa e acho que foi por isso que ontem estive aqui e precisei de ir embora caladinha, a pensar o que haveria de dizer que estivesse à altura deste oceano único.
Lola, um beijo enorme de muitos parabéns.
Alien, muito obrigada.

Lizzie disse...

a correr.....a correr...a correr, MUITOS PARABÉNS LOLA


e, com este texto, meto as mãos nos bolsos, e vou com um sorriso de quem vê luz nos dias construídos. Passo a passo.

Abraços aos dois.

MariaTuché disse...

Lola querida, venho com um dia de atraso mas a tempo.

PARABÉNS querida, que cada dia se mais feliz que o outro.

Um beijo enorme para ti meu amigo Alien e obrigado pelas visitas :)

mar disse...

Parabéns Lola, beijinhos e tudo de bom.
Parabéns Allien, pela prosa e pela aniversariante.

Beijos para ambos

Alien David Sousa disse...

Mano, já fui dar os parabéns à lola, quanto a ti: és um romântico! Sim senhor :D

Beijinhos alienígenas

Alien8 disse...

A Lola agradece a quem veio aqui dar-lhe os parabéns, e manda beijinhos.

Alien8 disse...

Prof,

Compreendo.
Mas, já que o publiquei, se e quando quiser lê-lo, faça o favor :)

Boa semana!

Alien8 disse...

Wind,

Um beijinho e muito obrigado!

Alien8 disse...

Lola,

Sou eu que te agradeço esta travessia e os olhos brilhantes.

Beijinhos.

Alien8 disse...

MJF,

OK, fico à espera do seu regresso :)

Um beijo.

Alien8 disse...

Arabica,

Belas palavras as tuas, que agradecemos!

A vida real é (também) feita de surpresas. Por isso, horas emotivas chegarão para ti, sem dúvida.

Entretanto, emocionarmo-nos aqui é recíproco :)

Boa semana.
Beijos.

Alien8 disse...

Teresa Durães,

Antes de mais, obrigado pela "linda prosa".

Quanto aos teus dezoito anos, é pena... eu adorei os meus.

Mas certamente gostaste de outras idades... não? :P

Boa semana.
Um beijo.

Alien8 disse...

Graça B.,

Sim, no fundo a Travessia é uma carta de amor, como dizes. Intemporal, de resto. Também eu estou quase sem palavras para te agradecer o comentário. Dir-te-ei apenas que gostei muito de o ler, e que te agradeço.

Abraço.

Alien8 disse...

Lizzie,

Um grande abraço para ti, que aqui vieste mesmo a correr e saíste com um sorriso!

Obrigado!

Alien8 disse...

Mariatuché,

Obrigado sou eu. Vais voltar? Estás a voltar? Seria muito bom, porque fazes falta!

Um abraço.

Alien8 disse...

Mar,

Obrigado! Beijinhos e uma excelente semana!

Alien8 disse...

Mana DS,

Pois. Romântico, mas não trôpego, como diz a canção :)))

Muito obrigado e
Beijinhos alienígenas.

Arabica disse...

Alien,


Obrigada :)


Pode.


Nunca se sabe.


E enquanto não :) ...tantas outras luzes me iluminam :)



Beijinhos

Lola disse...

Venho só deixar montes de beijinhos e agradecer a todos.

Anônimo disse...

Parabéns (atrasadíssimos) à Lola que suscitou este belo texto pontuado de palavras de uma altura em que "desconheciam" a força dum oceano. Suponho que a breve trecho, as ondas se habituaram a vir morrer-vos aos pés, feitas de espuma. Como as ondas de qualquer oceano pacífico que se preze.
Parabéns, também, Alien.
Abraço.


(vi-me obrigado a comentar como "anónimo" porque a palavra-passe não foi aceite?!)

Legível

Alien8 disse...

Legível,

A Lola agradece, e eu também, os parabéns e as tuas palavras.

Quanto à password, por aqui nada mudou. Deve ser coisa do blogger.

Um abraço.

Teresa Durães disse...

Nada como ultrapassar os vinte e cinco anos. O mundo não parece tão exagerado. Mas confesso que os meus 38 anos actuais (quase 39) têm sido bons. E a maturidade dá-nos tanto

MariaTuché disse...

Alien meu querido amigo, eu voltei, aliás eu só estive ausente mas sempre com os amigos especiais da blogoesfera no meu coração :)
Vocês fazem-me falta...

Beijosssssssssssssss

Alien8 disse...

Teresa,

25 também é uma bela idade. E 38. E... :)))
Beijos.

Alien8 disse...

MariaTuché,

Eu sei que não nos esqueceste. Mas é óptimo teres voltado, amiga.

Beijinhos.

Teresa Durães disse...

Pronto, agora 39 :P estou mesmo a ficar velhinha! Será que há bengalas em saldo?

Alien8 disse...

Teresa,

Lololol!

Estou a ver daqui... tu de bengala :)

Parabéns aqui também, e beijos.

Teresa Durães disse...

devagar, devagarinho, que a idade não perdoa, aproximo-me desta caixinha de comentários para agradecer os parabéns. Venho de fatia de bolo para oferecer mas o melhor é comer já antes que as rabanadas arrefeçam!

Alien8 disse...

Teresa,

As rabanadas foram feitas pela Lola (cf. post seguinte) e podes comer à vontade. MAS QUERO UMA FATIA DO TEU BOLO!!!

Anônimo disse...

Um Santo e Feliz Natal para Vocês.
Tudo mesmo de bom e um grande abraço.



www.bandeiranegra1.wordpress.com

Alien8 disse...

Anónimo,

E para vocês também!
Um abraço.

Pêndulo disse...

Ainda vim a tempo !
Um Bom Natal para o Alien e família (inclui os gatos embora eles só queiram saber de comida)

bettips disse...

E escapei esta data...também não admira, tanta festa e rodopio! E andei numa de murchice. Mas foi tão bom saber-vos com recordações do Porto, em palavras tão bonitas, Alien, qu'inté mesqueço de deixar os Parabéns atrasadíssimos à Lola. Um beijinho especial e, já disse, pelo bem que se respira aqui!

Alien8 disse...

Bettips,

A Lola agradece os parabéns, e eu o comentário. O Porto não nos sai da pele!

Um beijinho, também especial, dos dois.