Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

30 de abr de 2010

Maio

Um dia mereceremos Maio.
Traremos flores dentro da pele
E o olhar luminoso de quem ama.

Um dia acordarei e será Maio,
Sem palavras, sem gritos, sem fronteiras,
Sem medo de ser Maio, sem medo
De ser.

Um dia mereceremos  os maios,
As giestas, o verde das águas,
As gotas de orvalho e o cristal dos nervos.

Um dia acordarei e será Maio,
Cheiro de terra, pétala de carne,
Rumor de um horizonte a descobrir
Em mim.

Um dia acordaremos e seremos Maio.


28 comentários:

Licínia Quitério disse...

Belo poema. Um dia, um dia...

Eu preferi recordar o Maio do nosso contentamento.

A canção é uma ternurinha.

Abraço.

Alien8 disse...

Obrigado, Licínia.

Um dia. Qualquer dia...

As cerejas de Maio, também a música de um filme que me ficou na memória: "L'Affiche Rouge", de Frank Cassenti.
Vi-o no Festival de Cinema da Figueira da Foz, já lá vão uns aninhos... no tempo em que, depois dos filmes, havia debates entre realizadores, críticos de cinema e público. E que debates!

Um bom 1º. de Maio!

arabica disse...

É hoje, gostaria de gritar!
É hoje, gostaria de cantar!

Um dia acordaremos os outros e diremos apenas, somos Maio.

E será. :))


Ps-a coincidência das fronteiras? dos medos? Temos tantas de outros "quizes" e Mandarins Cafés :))

Alien8 disse...

Arabica,

:))))

Parece que foi de propósito! Mas coincidência muito apropriada :)

Hoje? Hoje podemos cantar. Ou outro dia qualquer :)

arabica disse...

Somos peixes meu Amigo, somos peixes, ainda que um possa ser "voador" e o outro subterrâneo. Somos peixes.
E garanto-te a grande coincidência.
O que me faz feliz. :=)

Alien8 disse...

Arabica,

E os "quizes"? :)))))

Maria disse...

Vamos lutar pelos Maios que merecemos!!! Não vou esperar acordar um dia. Vou fazê-lo!

E como foi bom ouvir 'le temps des cerises'... Obrigada.

Bom 1º de Maio!
Beijo.

dona tela disse...

NÃO QUER FAZER UMA VISITINHA AO MEU BLOG?

MUITO AGRADECIDA:

Justine disse...

Também tenho essa certeza!Mas é preciso ir desbravando caminho, para que Maio seja o mais depressa possível!
Abraços

Rui disse...

um dia, um dia, ...
sem tempo nem lugar_____que não seja um oásis no limites do deserto nem que entresseja nos interstícios das galáxias

um dia que seja apenas um chamamento
um apelo a que todos os dias o sigam sem quer alterar a nossa humanidade carnal

gostei bastante do teu poema

das cerejas só posso dizer que ainda não lhes vi a flor

wind disse...

Belíssimo poema o teu, Allien:)
Bem precisamos de um novo Maio:)
Linda a canção da Nana.
Beijos

Alien8 disse...

Maria,

É precisamente o que quero dizer. Para merecermos Maio, para sermos Maio... para "acordarmos" e ser Maio... não podemos andar a dormir, temos que lutar por isso.

Obrigado eu.

Mais uma vez, um bom 1º de Maio, e um beijo.

Alien8 disse...

Dona Tela,

Minha cara, vou pensar no seu caso :)

Alien8 disse...

Justine,

Como disse mais acima à Maria, é isso mesmo! Antes cedo que tarde.

Um abraço e um bom 1º de Maio. Um bom Maio também.

Alien8 disse...

Rui,

Também é isso que dizes, sim, sem dúvida. Se é que tudo isso cabe em tão poucos versos... ou nas suas entrelinhas.

Um dia hás-de ver a flor das cerejas.

Obrigado, bom 1º de Maio, bom Maio.

Alien8 disse...

Wind,

Precisamos, sim.

Obrigado pelas tuas palavras. Sempre gostei muito desta canção, uma canção de Maio.

Beijos e bom Maio para ti.

Lizzie disse...

Sou Virgem, Meu Amigo, Sou Virgem!!!:))
(isto é a modos que meter-me com a Peixaria acima, Arábica incluída).

O teu poema é bonito. Vem do teu não ter "medo de ser", que é cá para mim, questão onde residem muitas causas e efeitos. To be or not to be, pois!

Porque um dia, eu gostava de acordar e ter crenças, esperanças.

Mas sentada aqui, debaixo de uma cerejeira cada vez mais seca, começo a pensar que o mal não está na árvore mas talvez na natureza da terra: mudam-se as árvores e continua a secura.

Até acho que há jardineiros bons, aqueles que gostam mesmo das "giestas", do "orvalho". Têm vocação generosa para tratar dos jardins...mas, talvez por gostarem de debates sem "gritos", por gostarem das paisagens independentemente dos frutos que deêm.
Mas os outros, os outros, assim que chegam às terras gostam de dizer que são delas donos, como os anteriores e os anteriores dos anteriores.

Aqui sentada, vejo que dizem uma coisa e outra praticam e se se apanham com um bocado já abocanham quem não tem nenhum.Ainda que o seu bocado seja pequeno. Se fosse grande, abocanhavam quem tinha menos, quase nada e nada.

Aqui sentada, vejo, e isso ainda me preocupa mais, é que ouço que educam os filhos para abocanhar mais ainda. Qualquer dia já nascem com umas bocarras tão grandes que até comem os próprios pais.
O mal da humanidade é que adora devorar-se.
Todos os dias, vestidos de todas as cores, os vejo fazer cálculos de caça.
Talvez um dia, aprenda que não é preciso sentir a dor da dentada para a compreender.
Talvez um dia a terra sofra um transplante.
Espero que sim. Em Maio ou noutro mês qualquer.

Abraço, pues claro!

Náná, a emergente disse...

Ai que venho tão cansada do ferro de engomar que tenho de me sentar, com licença, com vossa licença, poderá ser aqui já?

...e dando razão à Lizzie, que tenho visto cães de duas pernas abocanharem o que antes não era abocanhável (que aconteceu de 90 para cá?) e apropriarem-se do que nunca foi deles. Como se tivessem nascido com um tal vazio que nada os preenche, nada lhes provoca indigestão, nada lhes dá satisfação...talvez as mãos temporáriamente vazias dos outros, abocanhados, que lá terão de inventar mais mais alimento.

Filhos de um Deus menor ou de pai ausente. Não sei. Sou uma simples mulher do povo com um ferro de engomar na mão.

Abraço.

Lola disse...

Alien,

O teu poema a que chamas simples, é belíssimo.

E lembrares o tempo das cerejas...

"...Les belles auront la folie en tête
Les amoureux le soleil au coeur..."

Alien8 disse...

Lola,

Merci bien :)

"Quand nous chanterons le temps des cerises,
Sifflera bien mieux le merle moqueur." :))

Bisous.

Alien8 disse...

Naná, a emergente,

Sente-se, mulher, e largue a porcaria do ferro de engomar por uns minutinhos!

Quanto aos abocanhanços, bom, aí já a aconselho vivamente a pegar de novo no ferro de engomar. Essa coisa ainda é pesadita, não? :)

Abraço.

Alien8 disse...

Lizzie,

És Virgem. A Peixaria fica ciente.

(Há-de valer-te de muito, há-de...:)

Concordo com o que dizes, e com a leitura que fazes do que escrevi, e agradeço que o tenhas achado bonito.

De facto, compreendo muito bem a tua alegoria da jardinagem e das bocarras. Já a esperança e a crença são coisas de cada um.

Sim, pode ser em qualquer mês. Maio pode ser em qualquer mês... :)

Um abraço.

João Mario disse...

Lindo poema. Lindo mesmo.
Estou seguindo seu blog. Fica um convitinho para meus blogs.

http://picadinhodebacana.blogspot.com

http://camoesdecueca.blogspot.com

Um abraço

Alien8 disse...

Obrigado, João Mario.

Lá passarei!

Abraço.

Licínia Quitério disse...

Vim ouvir de novo este tempo de cerejas tão docemente cantado.

Alien8 disse...

Grato pela visita, Licínia.
Boa semana!

Teresa Durães disse...

Olá (ao fim de uma grande ausência forçada)

Engraçado, este poema faz-me mais ir aos nossos antepassados onde Maio era a comemoração do renascimento da natureza e a sua força (sim, o orvalho com símbolo da união dos corpos).

(ou estarei tão obcecada pelos nossos lusitanos?)

E adorei o poema, como sempre. A tua escrita envolve-me.

Li lá para cima (e roubei a fotografia) a história de um bolo. (pena não teres anunciado que agora preferes cães a gatos).

Assim me retiro, esperando que comece a regressar ao blog. A escrita teve afastada de mim. Por vezes acontece.

Beijos e ainda espero essa história no café onde irás contar esses tempos idos

Alien8 disse...

Teresa,

Com o poema, vais onde quiseres. Porque não?

Também podes levar a foto do bolo para onde quiseres, afinal colaboraste, e de que maneira! Mas nem assim me fazes dizer que prefiro os cães aos gatos. Nada a fazer:)

Comentei o Navia (um pouquito) no teu post da entrevista.

E não faço a mínima ideia de qual seja a história por que esperas... Já por aí andam algumas, qual seria o café, desta vez?

Bom fim de semana, um beijo.