Aliencake

Foi numa tarde de sábado, de encontros, reencontros e desencontros, de estreia literária e café, tudo prolongado em noite, jantar e mais café, ficando no entanto curto o tempo. De súbito, aparece-me pela frente um bolo com a minha cara. Um bolo com rosto de Alien. Olhei-o uma e outra vez, e só não me belisquei porque dói um bocado, convenhamos. Mesmo a aliens. As pessoas cantavam os parabéns e batiam palmas, eu ouvia e agradecia, mas mal tirava os olhos do bolo. Fizeram-me pegar nele com uma mão, perante a apreensão de alguns circunstantes, e conduzi-lo, ou deixar que me conduzisse, à mesa improvisada. Vivendo desde sempre em terrível dúvida sobre a minha origem e condição, houve um instante luminoso em que tudo se revelou. "Sou um bolo, afinal sou um bolo!" - exclamei para mim mesmo, entre alguma perplexidade e o alívio de uma certeza há muito tempo aguardada. Foi sol de pouca dura. Lá tive que partir o bolo. Lá tive que me cortar à faca em fatias que rapidamente desapareceram. Ao que parece, estava bom, eu. O facto é que, apesar disso, ainda estou vivo. Não serei, então, um bolo? Serei apenas a recordação dele? Felizmente, a fotógrafa estava lá. Serei assim talvez a fotografia de um bolo. Há piores destinos. Há piores fins de tarde-noite de sábados de lançamentos de livros, encontros, reencontros, desencontros, jantares, cafés, aniversários e ainda mais. Muito, muito piores, garanto-vos.

20 de abr de 2006

Quase

"Nasceu em Lisboa e suicidou-se em Paris. Foi um dos principais animadores da publicação modernista intitulada Orpheu. Conviveu com Fernando Pessoa e, ao nível das artes plásticas e pintura, com Santa-Rita Pintor. Escreveu poesia e prosa e a sua obra apresenta elementos herdados do simbolismo e decadentismo do final do século XIX." ...


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...


Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!


De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... -

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

............................................................

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Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...


............................................................
............................................................


Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

18 comentários:

Cristina disse...

adoro este poema:))))

já esteve lá em casa:)

olha, tens razão, pela primeira vez acho uma corrente verdadeiramente útil, nunca é demais elogiar quem faz um esforço, muitas vezes com prejuizo da vida pessoal, pelo bem dos outros.

obrigada querido, bom fim de semana:))

jiiiiinhos grandes.

wind disse...

Gostomuito dele, embora lendo o que escreveu, se veja qual seria o seu fim anunciado. beijos

Alien8 disse...

Cristina,
Bom fim de semana para ti também. Foi bom ver-te por cá. E não fazia ideia de que o poema já tivesse estado no teu blog. Coincidências :)))
Beijinhos.

Alien8 disse...

Wind,
De facto, adivinhava-se.
Bom fim de semana, um beijo.

maloud disse...

A quase todos falta o golpe de asa. Será assim tão inatingível?

LM disse...

De tudo houve um começo...é a minha preferida.
No doubt.
Beijinho

Lola disse...

Allien

Não sei se gostaria de ser brasa, rápidamente chegaria a cinza fria e a nada ... para citar a outra.
O Além é inevitável e hei-de lá chegar o mais tarde possível...
Nasci sem asas, mas tenho pena(s)...
Aquém eu estou sempre das coisas bonitas que escreves e cantas...

Mas gosto muito do Mário (o de Sá Carneiro),junto com o O'Neil e o Pessoa.

De ti também gosto.
Beijo
Lola

Alien8 disse...

Maloud,
Se eu soubesse responder a essa pergunta, provavelmente teria o golpe de asa. Mas não. Voar em forma de gente só mesmo o superhomem, e dizem por aí que não existe. Estou em crer que o golpe de asa falta a todos, sem excepção, no sentido de que o quase é a meta que podemos atingir, e já não está nada mal. Porém, a falta do golpe de asa dói a uns mais do que a outros...

Alien8 disse...

Lola,
Bem-vinda a este blog tão espectacular quanto modesto:) Essa da brasa eu não vou comentar. Acredito que há diferença entre estar no além, estar além (cf. António Variações:) e ser além - neste caso, não ser além. Aquém do que dizes, não será bem o termo, creio. Por trás? Por dentro? Ao lado? Na origem? É só escolher. Ainda sobre as coisas bonitas, lembra-te de que "beauty is in the eye of the beholder". E, no caso, não só in the eye, nem sequer só in the eyes.

Eu também gosto de ti, mas nem é preciso dizê-lo, ou é? :)
Um beijo.

Alien8 disse...

LM,
Gosto das outras também, é difícil escolher. Dependerá da ocasião.
Um beijo.

zaratrusta disse...

realise o sonho

oalcoviteiro disse...

Eu num gosto dele mas é marcante. Igual. Voar, só poucos, como eu. Uma questão de génio K'mrd e não de super poderes, naturalmente. ( lololol! ). Um abraço e b'fsemana.

mar disse...

Um pouco mais de azul...........

Bjs

Cila disse...

so para te desejar um bom fim de semana e q já cumpri a tua incombencia à moda da cila;).
beijinhos

Alien8 disse...

oalcoviteiro,
De génio e de modéstia. Mas atenção ao exemplo do Ícaro, que nos anda a tramar, a nós, génios de serviço. Uma chatice.
Abraço e bom fim de semana, K'mrd.

Alien8 disse...

Mar,
Quanto queiras :)
Bom fim de semana, cheio de azul e mar, como diz o fado.
Beijinho.

Alien8 disse...

Cila,
Obrigado! Vou já ver. Bom fim de semana para ti também - cheio de simbologias e desportos radicais, como escrevi no teu blog :)

Alien8 disse...

Zaratustra,
Eu a falar do superhomem e aparece-me Você por aqui! Não sei se é coincidência ou se há aqui bruxedo. Assim falava Nietzsche.