
CAFÉ MOÇAMBIQUE
O Santos, do café Moçambique, era baixote e gorducho, e pouco devia à inteligência. Dizia-se que baptizara o Café com esse nome porque Moçambique era a capital de Angola. A atestar a falta de cérebro do Santos contavam-se várias historietas e anedotas cuja origem era, no mínimo, duvidosa. A mim, venderam-mas, na altura, como originais e legítimas. Como aquela do cliente que pediu uma sandes de carne assada e o periódico. O empregado, recém-chegado das berças, coçou a cabeça, franziu o cenho e acabou por buscar socorro no Santos, que estava lá para os fundos do balcão.
- Você é mesmo ignorante - rosnou o patrão, enquanto se encaminhava para o freguês. Com um sorriso rasgado, perguntou:
- O amigo quer branco ou tinto?
Falava-se também do comensal que, depois de duas garfadas de um prego no prato, protestara alto e bom som que aquilo não se podia comer, que o bife era duro e o molho não prestava. Logo o Santos acorrera, meio espantado, meio indignado:
- Ouça lá, como é que isso pode ser? Ainda há pouco outro cliente acabou de comer um e disse que estava simplesmente execrável!!!
Mas verdadeira, verdadeira, é a que conto a seguir:
O Café Moçambique tinha agregada uma pensão, que funcionava no primeiro andar. Um belo dia lá se hospedaram duas jovens francesas, caso raro, por sinal. Ora, alguém tinha informado o Santos de que com francesas é que era, facturação garantida, tiro e queda, não deixe passar a oportunidade, homem!
De maneira que, por volta da meia noite, o Santos escapuliu-se, em pijama, do leito conjugal, e foi com passinhos de veludo bater à porta do quarto das francesas. O Santos não falava francês, mas deve ter-se feito entender claramente, porque as moças, que não eram de intrigas, desataram a cascar-lhe forte e feio, obrigando-o a uma retirada vergonhosa pelas escadas abaixo, até à rua. Levanta-se a mulher aos gritos, e participa na perseguição. O candidato a D. Juan já não sabia às quantas andava, acossado, humilhado, de pijama e chinelos de quarto no meio da rua. Só lhe faltava que aparecesse a polícia. E não é que apareceu?
Perante a queixa das francesas, a autoridade não teve outro remédio senão levar o Santos para a esquadra, onde foi forçado a pernoitar. E tudo acabou por se resolver, à boa maneira portuguesa.
Bem sabemos, porém, que notícias deste teor se espalham com a velocidade do vento. E foi assim que, passados uns dias, um amigo do Santos apareceu no Café e, sem mais prolegómenos, lhe atirou:
- Ó Santos, então você esteve preso, homem?
O visado nem pestanejou:
- Pois, é verdade... Políticas, meu amigo, políticas...!
O Café Moçambique aumentara substancialmente a clientela depois de a PIDE ter fechado a Associação Académica. Pouco povoado pela manhã, ia-se compondo a seguir ao almoço, graças aos grupos que iam à bica e ficavam depois para estudar. Com o passar dos meses, esses grupos quase sedimentaram, as mesmas pessoas nas mesas do costume, os rituais repetidos, a debandada geral pouco antes da hora do jantar e o regresso para a bica e a conversa da noite.
Era um café de estudo, o Moçambique. Digo-o eu, que muito li naquela mesa.
Certa tarde de princípio de Verão, conta-se que um rapaz, freguês habitual, se sentara à mesa do costume, com a mão por cima do ombro da namorada, como era uso dos parzinhos frequentadores do Café. Mas o Santos, nesse dia, estava do contra. Tinha lá uma espécie de parente recém-chegado da terrinha, e terá feito questão de ostentar o estabelecimento como casa de muito respeito, de maneira que, lá de trás do balcão, mandou o empregado de mesa dizer ao rapaz que aquilo não eram modos de se estar no Café dele, Santos. O empregado, discretamente, disse. O rapaz terá mandado responder ao Santos, pela mesma via, que se metesse na vida dele e não o chateasse. O empregado assim fez. O Santos levou a mal, pudera, tinha lá a espécie de parente... Apopléctico, desatou aos berros, que aquilo era uma casa decente, que não admitia poucas-vergonhas, que acabassem com a marmelada e fossem para a rua, já, imediatamente!
Ao rapaz, que não estaria nos seus melhores dias, passou-lhe qualquer coisa pela cabeça. Levantou-se de raiva, correu até ao balcão e vá de apertar os colarinhos ao Santos. Consta que o rapaz até era de seu normal pacífico e contido, com raras excepções, como naquela vez em que a polícia de choque entrara pela praça e pelo Tropical a malhar em tudo o que mexia, idosos e uma grávida incluídos, ou aquela outra em que a GNR enfiara os jipes com protecção dianteira de arame farpado pela mesma praça e atropelara e agredira à coronhada quem por lá estava em paz. Nessas ocasiões, diz-se que o rapaz se passara completamente, gritara que aquelas coisas só podiam acontecer naquele país de pides e de filhos da puta, e tivera de ser levado à força por colegas para a Associação, antes que fosse levado à força para outro sítio.
Mas adiante. Prontamente agarrado e imobilizado pelo Trajano, um empregado de balcão que fazia dois dele, o rapaz reparou que as pessoas começavam a levantar-se das mesas e a avançar para o matulão, que achou por bem largá-lo antes que a coisa desse para o torto. Sentou-se de novo à mesa. O Santos berrava que ia chamar a Polícia, e chamou mesmo.
Cinco minutos depois apareceu, de facto, um agente da PSP, que delicadamente pediu ao rapaz que saísse, ao que este respondeu, também com toda a cortesia, que não via qualquer motivo para saír. Retorquiu o guarda que ali o Sr. Santos se queixara de comportamentos menos próprios... O rapaz negou, convidando o agente da autoridade a arranjar uma testemunha, uma só que fosse, de tais acusações. Que, assim, sairia.
O polícia encabulou. Que eram todos amigos do rapaz, como iria conseguir testemunhas? E o rapaz que não, que a maioria dos presentes, apenas os conhecia de vista.
E o polícia saíu.
Os “presentes”, colegas de café e de hábitos, também elas e eles se abraçavam todos os dias, muito naturalmente, no Café Moçambique e em qualquer outro café, ou na rua, ou nos jardins, e também lhes repugnavam a imbecilidade e a prepotência dos moralistas de trazer por casa. E assim foi que, uma a uma, as mesas começaram a esvaziar-se e as pessoas a abandonarem o café. Algumas ainda foram ter com o rapaz, que se fosse embora, que ainda arranjava problemas, e um dos do grupo de caboverdianos perguntou-lhe em surdina se não achava que aquele Trajano merecia um correctivo... Que não, disse que não valia a pena, de resto o homem, se não tivesse obedecido ao patrão, às tantas era despedido, e o caboverdiano, muito sério, para o rapaz:
- Bom, se precisar de alguma coisa, estamos à disposição.
Caboverdiano que, diz-se, viria a encontrar o ex-rapaz muitos anos mais tarde, na Tabanca, o bar dos Tubarões, na cidade da Praia, onde a banda tocava e se dançava no pátio aberto. Era então ministro e, quando deu pelo antigo colega de aventuras, sentou-se à mesa dele, falaram daqueles tempos, riram e beberam, até que de repente os Tubarões atacaram uma coladera, ou talvez fosse um funaná, e o ministro se levantou e disse:
- Desculpe, amigo, mas agora tenho que ir dançar.
Naqueles tempos de que se falara na Tabanca, o rapaz e a rapariga tinham decidido teimosamente que seriam as últimas pessoas a saír do Café Moçambique. E parece que foram mesmo. A esmagadora maioria das pessoas que então abandonaram o café deixaram, pura e simplesmente, de frequentá-lo. Eu, por exemplo, só voltei a entrar no Café Moçambique anos mais tarde, já o Santos se retirara e o dono passara a ser o Sr. José, um antigo empregado de mesa simpático e de ar apalermado, de quem jamais suspeitaria que conseguisse sacar o café ao Santos. Como as pessoas se enganam!